Uma advertência para nós

14/09/2017 09:54

“Então, nem por uma hora pudeste vigiar comigo?” (Mt 26.40)

 

Foi por ocasião de uma experiência cotidiana (e para muitos uma quotidiana infidelidade) que Jesus fez ao nosso espírito esta advertência. Não apenas aos discípulos, mas também a cada um de nós é que esta pergunta é dirigida. Uma pergunta que ao mesmo tempo encerra surpresa, tristeza, censura e afeto.

 

No entanto, não temos um Getsêmane à nossa frente. Não! Antes, é no momento em que o surgem os primeiros raios de sol, talvez após o dia já ter amanhecido há muito, que o Mestre amavelmente nos convida a vigiar com Ele e nós, freqüentemente, dizemos com voz ensonada: Sim, Senhor, já vou! E assim, após termos acordado, cruzamos os braços no claro intuito de dormir mais um pouco e a hora que poderia ter nos trazido tantas bênçãos está perdida para sempre...

 

Muitos discípulos, a esta pergunta, diriam: Sim, Senhor, se for ao anoitecer quando ainda não nos sobreveio o sono, principalmente rodeado de amigos, ao pé de uma fogueira...

 

Mas tratando-se de subtrairmos algumas horas de nosso precioso sono e levantarmos mais cedo, e em especial naquelas noites frias de inverno..., então a coisa muda de figura.

 

A meu ver, o principal obstáculo que durante anos impediu o maior número de cristãos de avançar espiritualmente é o fato de não vestirem sua armadura, assim como a sua roupa, ao amanhecer, antes de sair de seu quarto para a vida ativa. Dez minutos de preparo será preparo suficiente para um combate que irá se estender por um dia inteiro, será provisão suficiente para as necessidades de um dia inteiro? Será este momento suficiente para expormos ao Senhor todas as nossas necessidades, todas as nossas dificuldades, todos os pormenores do nosso trabalho. Conhecer o Seu pensamento e a sua vontade a nosso respeito, alimentar-nos da Sua Palavra e encerrá-la em nosso coração, recebermos de suas mãos a semente que haveremos de difundir? Será tempo suficiente para súplica, confissão, intercessão, e, principalmente, para adoração e ações de graças? Será tempo suficiente para escutarmos todas as coisas que Ele tem para nos falar, para o calmo e sereno ensino do Espírito Santo, dando nova luz palavras antigas, dando-lhe nova cor e uma nova vida? Será este tempo suficiente para conversarmos com o Amigo por excelência? Poderemos usar estes momentos como indicadores de que nós andamos em Sua companhia? Mesmo que este período tão pequeno fosse suficiente para nós demonstrarmos o nosso pequeno amor por Ele, seria suficiente para Ele mostrar o Seu grande amor por nós, suficiente para recebermos toda a comunicação que o coração dEle tem a nos oferecer? Contudo, o que é pior ainda, será que o leitor dedica a ele dez minutos todas as manhãs para estar a sós com Ele?

 

Jesus nos ama tanto que deseja passar conosco toda a eternidade (Jo 14.16). Nós o amamos tão pouco que não saímos da cama mais cedo para conversarmos com Ele mia hora. Saiba o amado que Ele jamais faltará a este encontro, e a cada dia Ele ali estará a te esperar (2 Tm 2.13). Esteja certo que Ele jamais adormecerá. Ele nunca faltará. Nós sim é que lhe faltamos a cada passo.

 

Quem poderá dizer o que foi perdido esta manhã quando deixamos de estar com Ele. Quem saberá o que Ele havia preparado para nós. Se somarmos isto ao longo do ano, quantas vitórias foram perdidas?

 

Dirá alguém: Tanto faz orarmos ao iniciar o dia quanto ao terminar, antes do almoço ou depois, antes do trabalho ou depois. Tens certeza disso? Saímos do nosso quarto sem elevar a nossa alma a Deus, ou se o fez foi de fugida, se dar-lhe tempo para nos fortificar e nos abençoar como Ele queria fazer. Talvez nem sequer abrimos a Sua Palavra para ouvirmos o que Ele tinha a dizer. Eis agora o campo de batalha, as ocupações do dia-a-dia. Chegaram cartas, jornais, revistas, você encontra tempo para ler. Não digo apenas uma olhadela, de apenas tomar conhecimento dos fatos, de passar uma vista nos despachos, pois há deveres a cumprir. Chegam pessoas para conversar. Sai para resolver alguns imprevistos, e o momento para Deus não chegará neste dia. E se chegasse algo o interromperia! O inimigo sabe impedir de essas tardias intenções dêem algum resultado positivo.

 

Porém estas ciladas não são as piores: Suponhamos que nada venha a impedir a sua oração, mas o tentador tem outras armas. Verificamos que as coisas visíveis dominam sobre as invisíveis, preocupações que por si só nada tem de culpável, mas que são estranhas as coisas de Deus, sufocam a Palavra e impedem a comunhão com o Senhor. A vossa atenção não consegue fixar-se, não tens certeza de estar sendo necessária a sua presença em algum lugar, nem de quem possa chegar de repente, não esquece as conversas anteriormente iniciadas, o conteúdo dos jornais e cartas, os cuidados da cada aos quais é necessário prover, tudo isso surge agora em seu pensamento. Um sussurro, som de vozes enchem a casa e entram em sua alma! Existem trabalhos urgentes a fazer e sabes disto, o espírito está preso ao mundo, correste o dia sem ter cingido os rins. Entraste no combate sem vestir a armadura e as conseqüências são penosas. Estais vencidos, é natural. Faltou-te forças pois deixaste de ter o alimento matinal, mas de quem é a culpa?

 

E isto não é tudo: Não estais apenas desarmados contra as tentações, mas também para o vosso trabalho cotidiano. Ou pensas que Ele pode ser, por este caminho, uma obra para a glorificação de Deus? Para que é nos dado cada dia que desponta? Para fazermos a vontade dEle e não a nossa! Ao iniciar o dia sem escutar a sua voz, será a vontade dEle que queres cumprir?

Você escutou a Sua Palavra de ordem? Apresentou-lhe as pessoas com as quais estarás durante o dia? Ou vives a sua própria vida, seguindo os seus próprios impulsos na missão, pequena ou grande, que deverias empenhar, e isto julgando estar muito ocupado no serviço do mestre? Uma vara cortada da videira que pensa em dar fruto!

 

Pouco a pouco formou-se entre vossa alma e Deus densa nuvem que encobre a luminosidade do Seu rosto. Desde então o mal-estar de sua consciência lhe impede de orar. Quereis procurar a força que lhe falta para o serviço do Senhor, porém o seu coração está endurecido. No íntimo estais descontente consigo mesmo. A oração não brilha, não passa de uma fórmula muitas vezes repetidas e que vos deixa vazio e seco. O Espírito Santo não está presente, foi entristecido e repelido. Quando abres as Escrituras lê alguns versículos, por desencargo de consciência, mas já não tem prazer na Lei do Senhor. A alma não mergulham ali para receber o que lhe está reservado. A Palavra não permanece em ti.

É necessário um esforço de vontade e fé para entrar novamente na atmosfera do Alto, na comunhão da alma salva com o Salvador que a resgatou cabalmente. Mas este esforço poderá ser feito agora. Deves buscar sem demora o favor do Senhor e o perdão de nosso Deus. Porém este regresso é difícil na medida em que andastes todas as manhãs em seus próprios caminhos.

 

Que de estranho existe se a vida espiritual enfraquece, sucedendo-se altos e baixos, acumulando-se infidelidades e desencorajamentos, quase nada de poder, alegria e vitórias? Porque procurar a causa nas dificuldades do dia-a-dia em vosso meio, na vossa vocação, se essas dificuldades são o meio escolhido de Deus para induzir-te a apoiar-te nele logo de manhã. Será necessária a linguagem da enfermidade ou do acidente para escutarmos tudo o que com tanto amor Ele tinha para dizer? Não nos obrigará a lamentar amargamente o tempo em que a graça em vão nos procurava desde o alvorecer para te fortalecer?

 

Não esperemos o dia da angústia, na doença e na tribulação, para escutarmos a sua dolorosa censura: Então nem uma hora podeis vigiar comigo?

 

Quantas vezes tivemos o que apelidamos de “boas intenções” e que não passaram de fracasso. Mas não nos surpreendamos. Entre a armadura da fé não existe resoluções vagas ou indecisas. Precisamos de algo mais sólido. Em primeiro lugar, temos de ter determinação! Nada de lamentarmos a nossa incapacidade, desejos frouxos, moles. Nada disso! Mas sim a determinação humilde e perseverante de Davi (Sl 5.3; 63.1), de Daniel (Dn 6.10) de um Paulo. Sem determinação a oração é paralisada. Será que temos esta determinação, ou seja, estamos realmente interessados em fazer isto agora, neste instante? Se isto não ocorre peça urgentemente ao Espírito da Graça que nos dê esta determinação. Peçamos que Ele nos faça ouvir o apelo de Deus. Queres fazer agora ou não? Não existe meio termo.

 

Tomada a decisão ore! Para que esta determinação torne-se eficaz pela mesma graça que a deu. Não é amanhã, mas hoje! Ide ao Mestre e contai-lhe a sua triste história, das suas deserções, afim de teres força para o combate que lhe espera. Ao dormir peça a Deus que Ele vele por ti dando-lhe bons pensamentos e que Ele faça você sentir a Sua presença mesmo durante este momento em que você tem apenas consciência de si próprio. Peça que Ele lhe acorde, que você levante sem murmurar desejoso de velar uma hora com Deus.

 

Juntemos a isto a providência. Se quisermos ficar acordados até altas horas da noite será realmente difícil acordarmos mais cedo. Deite uma hora mais cedo. Deixe uma hora mais cedo a conversa com amigos, o filme da TV, o livro cativante, ou mesmo o trabalho iniciado, para poderes levantar uma hora mais cedo no dia seguinte. Se procederes assim vereis se a bênção obtida não compensará o sacrifício.

 

É difícil recomeçar noite após noite. Mas é uma questão de fidelidade, de obediência, e Deus encoraja a fé muito mais do que pensamos. Um capítulo a mais do livro interessante pode lhe custar caro, pode lhe custar o fruto da hora bendita. Que o vosso quarto seja um santuário para o Hóspede invisível. Não o faças esperar, apenas porque queres terminar um livro que não é a Palavra de Deus. Acabar um capítulo é encetar o outro, e de repente: “nunca supus que fosse tão tarde! Durante todo este tempo o Senhor esteve te esperando. Se ao fecha o livro a vontade de ler a Palavra de Deus tiver passado, não te admires.

 

Porém é necessário ainda ajuntar a estas três coisas a confiança. É aqui que muitas vezes está o defeito da couraça. Vestimos as peças da armadura e não nos abrigamos no escudo da fé. Entregamos a nossa vida a Deus e não esperamos que Ele opere em nosso favor. Note que duvidar de si mesmo é totalmente diferente de duvidar de Jesus. Se tu não podes, Jesus pode! Esta é a solução para esta dificuldade, como todas as outras. Realmente as pessoas podem sentir-se humilhadas em reconhecer isto. Quanto mais insignificante é para nós a tentação, mas vergonhosa é a queda. Quando Jesus diz sem mim nada podeis fazer, a nossa consciência acrescenta: Nada mesmo, nem acordar uma hora mais cedo! Mas ao reconhecermos que toda a nossa força não passa de lamentável fraqueza é que nós nos entregamos ao Senhor. Se tiverdes confiança de que Ele ganhará por ti esta batalha, vereis que Ele não enganará a sua confiança. Isto Ele nunca fez e jamais o fará. Quando tiverdes ganho esta batalha, estarás pronto a ganhar outra, porém não julgues que podes descansar nas batalhas ganhas. Tal ilusão seria o início de novas quedas. Só Jesus é que nos libertará dia-a-dia.

 

Após confiar-lhe esta noite, confia-lhe também o dia, e a noite que se seguirá, e o amanhecer do outro dia. Só assim venceremos.

 

Queres adquirir este hábito? Adquira-o já, e será para vós o hábito mais santo, mais útil e mais feliz de sua vida. Ela será cheia da presença do Senhor. Não espere um momento mais favorável pois este nunca chegará. Tenhamos hoje mesmo algo de muito sério para tratar com o Senhor a este respeito. E amanhã ao ouvirmos que o Mestre está cá e chama-te façamos qual Maria que ouvindo isto levantou-se e foi ter com Ele.

—————

Voltar