UM CHAMADO À HONESTIDADE RADICAL

19/09/2012 14:05

 

O oitavo mandamento também é bastante simples no seu conteúdo: “não furtarás” (ver Êxodo capítulo 20, versículo 15). Como acontece com alguns outros, este mandamento parece trivial de entender, mas há nuances que tornam a caracterização do que é ou não roubo mais complexa.

Para exemplificar o que acabei de dizer, como você responderia às perguntas abaixo - elas se referem ou não a violações do mandamento?

O empregador que não paga um salário justo para aumentar seu lucro está roubando o empregado?

Comprar produtos piratas é um roubo dos direitos autorais de alguém?

Baixar músicas e outros produtos culturais da Internet gratuitamente é roubar direitos autorais?

Usar o dinheiro público de forma ineficiente, gastando a maior parte em burocracia inútil, é roubar o contribuinte?

Aumentar o lucro da empresa à custa do meio ambiente é roubar o público?

Colar nas provas da escola é roubar o conhecimento do outro?

A resposta para todas essas perguntas é sim, trata-se de uma violação ao mandamento. Mas algumas dessas violações – como colar na prova ou comprar produtos piratas – têm boa aceitação social e a pessoa nem acha que está roubando, ficando com sua consciência em paz.

Na verdade o mandamento não se refere somente a roubar um bem ou dinheiro que pertença a outro, mas envolve também, por exemplo, não se aproveitar da ingenuidade ou da fraqueza do outro para tirar vantagem indevida. O espírito do mandamento, portanto, é que a Bíblia nos chama para uma vida de honestidade radical.

O direito de propriedade

É importante perceber que o conceito de propriedade privada é bíblico. Sendo assim, visões políticas mais radicais, como o comunismo, onde a propriedade é coletiva, não tem respaldo bíblico.

O direito de propriedade foi estabelecido desde o começo da civilização, como uma forma de regular as relações entre as pessoas. É ele que permite a prosperidade das sociedades, pois se a pessoa sabe que aquilo que vier a ganhar com seu esforço ficará em seu poder e poderá ser legado para seus descendentes, haverá incentivo para progredir. Caso contrário, não há muita razão para “correr atrás”. 

Por outro lado, a Bíblia não vê o direito de propriedade de forma absoluta, como nós o vemos hoje. Tanto assim é que, segundo a Lei, a cada 50 anos, no chamado ano do Jubileu, toda terra vendida naquele período deveria voltar para seu proprietário original (ver Levítico capítulo 25, versículos 10 a 16 e 23 a 31). Ou seja, havia uma preocupação com o valor social da propriedade – especialmente da terra, que naquela época era a fonte de toda riqueza.

Sendo assim, a propriedade era da pessoa, mas havia limitações impostas pela sociedade, mais ou menos como ocorre hoje na maioria das democracias. E essas limitações não são violações ao oitavo mandamento.

Dilemas morais

Este mandamento gera uma série de dilemas morais, alguns de difícil tratamento. Vou dar um exemplo: é legítimo roubar para dar de comer a quem está morrendo de fome?

Temos aí um choque entre mandamentos: entre aquele que preserva o direito de propriedade e aquele que preserva a vida. E como já tive oportunidade de dizer no post que tratou exatamente de dilemas morais, a prioridade é a preservação da vida. Em outras palavras o roubo nunca deve ser incentivado, mas em situações extremas, onde os proprietários dos bens não têm qualquer consideração social e vidas precisam ser preservadas, ele pode ser justificado. É claro que se trata de situação muito, mas muito extrema.

Há na Bíblia um caso que dá sutentação ao que acabei de falar: Davi e seus homens entram no Tabernáculo (o precursor do Templo de Jerusalém) e comem os doze pães consagrados que ali estavam e que representavam as doze tribos de Israel. Seus homens tinham fome e Davi não encontrou outra solução. Ele não foi criticado por Deus por causa dessa atitude.

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