SERÁ QUE ESTOU ESCANDALIZANDO?

07/06/2015 16:41

"Você não deve falar de certas coisas neste lugar, vai causar escândalo!"

"Temos que deixar de fazer tudo que escandaliza os irmãos!"

Há tempos tenho ouvido frases como essas. A última me foi dita quase com furor há algumas semanas. É escândalo disto, escândalo daquilo. Parece que o vocabulário de algumas pessoas é resumido nessa palavra. Entretanto, muitos cristãos não tem conhecimento verdadeiro acerca do conceito de escândalo. Preocupa-me quando usam-no para descrever qualquer comportamento ou atitude que desagrade suas preferências pessoais ou em prol de um "bem estar social". Para entender melhor, é necessário estabelecer o que de fato é escândalo. E já cito de antemão duas postagens muito boas que auxiliaram  a construção deste texto: Escandalizar ou não escandalizar? Eis a questão! e Escândalo - pedra de tropeço no caminho.

Conceito

A palavra escândalo vem do grego skandalon, que é usada para traduzir duas palavras do hebraico:

a)  michsol,  significa uma pedra de tropeço. Assim está em Levítico 19:14: “Não porás tropeço diante do cego.”

b) mokesh, que  significa um laço ou armadilha. Declara-se em Josué 23:13 que as alianças com as nações estrangeiras são laços e redes.

A palavra escândalo, genericamente, é usada para substituir os termos "tropeço" e "cilada", embora ambas tenham um mesmo significado prático: uma ação deliberada para fazer com que alguém erre ou vacile.

Skandalon é a palavra que a ARA (Bíblia de Almeida, Revista e Atualizada) traduz por “escândalo”, “tropeço”, “armadilha”, e “cilada”, e skandalizein é o verbo correspondente. O que há de interessante nesta palavra é o fato de ela ter por trás de si não um retrato, mas dois, e a distinção entre os dois freqüentemente nos oferece¬rá um quadro muito mais vivido.

A palavra skandalon não é de modo algum uma palavra do grego clássico. É grego posterior e, na realidade, é muito mais comum na Septuaginta e no NT do que em qualquer outro lugar. O equivalente clássico é skandalêthron, que significa “a vareta com isca na armadilha”. O skandalêthron era o braço ou a vareta em que a isca era fixada. O animal para o qual a armadilha era armada era levado pela isca a tocar ou pisar na vareta; a vareta acionava uma mola, e assim o animal era conduzido à sua captura ou destruição. No grego clássico a palavra é usada por Aristófanes a respeito das “armadilhas verbais” armadas para levar uma pessoa a ser derrotada num argumento. Portanto, fica claro que a qualidade original da palavra não era tanto “uma pedra de tropeço” para fazer alguém tropeçar, mas uma “atração” para levar alguém à destruição.

Quando nos voltamos para a Septuaginta percebemos que esta distinção ainda está bem clara. A palavra grega skandalon é usada para traduzir duas palavras hebraicas. (a) É usada para traduzir a palavra michsol, que bem claramente significa uma “pedra de tropeço”. Assim está em Lv 19.14: “Não porás tropeço diante do cego.” É usada assim no Sl 119.165: “Grande paz têm os que amam a tua lei; para eles não há tropeço.” (b) É usada para traduzir a palavra mokesh, que certamente significa “um laço” ou “uma armadilha”. Sendo assim, declara-se em Js 23.13 que as alianças com as nações estrangeiras são “laços” e “redes”. No Sl 140.5 o salmista diz que os soberbos ocultaram “armadilhas” e cordas contra ele; estenderam uma “rede” à beira do caminho; armaram “ciladas” contra ele. No Sl 141.9 o salmista ora: “Guarda-me dos laços que me armaram, e das armadilhas dos que praticam iniqüidade.” No Sl 69.22 o salmista diz: “Sua mesa torne-se-lhes diante deles em laço, e a prosperidade em armadilha.” A idéia é que o sucesso e a prosperidade podem tornar-se em armadilha em lugar da bênção. Na Septuaginta, portanto, a palavra skandalon tem duas idéias por trás dela. Significa ou uma “pedra de tropeço”, objeto colocado no caminho de um homem para fazê-lo tropeçar, ou “uma armadilha”, “uma isca”, “um engodo” para atraí-lo para fora do seu caminho e assim arruiná-lo.

Quando nos voltamos ao NT descobrimos que a ARA quase sempre traduz skandalon por “tropeço”, palavra esta que é melhor entendida quando vamos àquelas passagens com o sentido duplo de skandalon em nossas mentes; achamos que em certas passagens o outro significado oferece um quadro mais vivo.

(1) Há algumas passagens onde qualquer dos significados é perfeitamente apropriado. Em Mt 13.41 diz-se que o Filho do homem removerá todos os skandala do Seu Reino. Quando o Reino vier, todas as coisas que pretendem levar o homem a pecar, todas as coisas que poderiam fazê-lo tropeçar, todas as coisas que o atrairiam e o seduziriam para o caminho errado serio removidas. O Reino será um estado de coisas onde a tentação perderá o seu poder.

(2) Há algumas passagens onde o significado ”pedra de tropeço” é mais apropriado, ou onde é até mesmo essencial. Em Rm 14.13 somos proibidos de colocar “tropeço” ou “escândalo” ao nosso irmão. A palavra aqui traduzida “escândalo” é proskomma, que significa “barreira,” “impedimento,” “obstáculo que bloqueia a estrada”. É a palavra que seria útil para descrever uma árvore que foi cortada e colocada atravessando a estrada para bloqueá-la. Nunca devemos praticar ou permitir coisa alguma que seja um obstáculo no caminho para a bondade. Em Mt 13.21 declara-se que o ouvinte superficial da palavra é “escandalizado” (skandalizein) pela perseguição. A perseguição é um tropeço que o impede de avançar pelo caminho cristão. Os fariseus “se escandalizaram” com Jesus e Suas palavras (Mt 15.12). Jesus prediz que todos os Seus discípulos se “escandalizarão” com Ele (Mt 26.31). Os falsos mestres armam “ciladas” diante dos outros (Ap 2.14). Os judeus acham a cruz de Cristo um “escândalo” (1 Co 1.23; Gl 5.11). Em todos estes casos, as palavras significam algo que impede o progresso de um homem, algo que o faz tropeçar, algo que lhe impede o caminho. Esse “algo” pode provir da atuação maliciosa dos outros, ou pode provir do preconceito e orgulho do próprio coração do homem.

(3) Mas há certos casos em que obtemos um quadro muito melhor ao entendermos skandalon e skandalizein no sentido de um “ardil”, uma “armadilha”, uma “isca”, uma “sedução”, um “engodo para o pecado”. Rm 16.17 adverte contra aqueles que provocam divisões e “escândalos” em desacordo com a doutrina que o povo de Cristo recebeu. Esta é uma advertência contra aqueles que nos querem desviar do caminho da fé verdadeira. 1 Jo 2.10 diz: “Aquele que ama a seu irmão, permanece na luz e nele não há nenhum tropeço.” Isto quer dizer: “Ele nunca atrairia nem seduziria alguém para o pecado.” Mt 18.6 fala do pecado de “fazer tropeçar” um destes pequeninos, e o versículo seguinte fala de quão terríveis são os “escândalos”. Obtemos um quadro muito melhor se entendermos skandalon e skandalizein ali no sentido de seduzir as pessoas mais jovens e mais influenciáveis para o pecado. Mt 5.29 e 30 falam da necessidade de cortar e de arrancar a mão e o olho que nos “fazem tropeçar”. Claramente, é melhor entender skandalon no sentido daquilo que arma uma cilada ou armadilha para nos seduzir pra a ruína do pecado. Se os desejos da mão e do olho são uma isca para o pecado, devem ser erradicados.

Quando o poeta Burns foi aprender a cardar linho, ficou conhecendo um homem mais velho que o levou para longe do caminho. Disse a respeito dele depois: “Sua amizade me causou dano.” É exatamente este o significado de skandalon. Um skandalon é aquilo que nos faz tropeçar ou que nos seduz para o pecado. Tais coisas devem ser desarraigadas das nossas próprias vidas; Deus não nos considerará inocentes se levarmos tais coisas para as vidas dos outros.

Outros skandalon na Bíblia

Na explicação da parábola do joio em Mateus 13, nos versos 41 e 42 é dito: "Mandará o Filho do Homem os seus anjos, que ajuntarão do seu reino todos os escândalos e os que praticam a iniquidade e os lançarão na fornalha acesa". Em Lucas 17:1-2 "Disse Jesus a seus discípulos: É inevitável que venham escândalos, mas ai do homem pelo qual eles vem! Melhor fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma pedra de moinho, e fosse atirado no mar, do que fazer tropeçar a um destes pequeninos". Jesus deixa clara sua abominação pelo escândalo. Melhor é a morte que fazer com que outro tropece. No entanto, o próprio Cristo foi causador de escândalos. Novamente no evangelho de Mateus, no capítulo 15 lemos: "Então, aproximando-se dele os discípulos, disseram: Sabes que os fariseus, ouvindo a tua palavra, se escandalizaram? Ele, porém respondeu: Toda planta que meu Pai celestial não plantou será arrancada. Deixai-os; são cegos, guias de cegos.".

O skandalon em I Coríntios 8

"No tocante à comida sacrificada a ídolos, sabemos que o ídolo, de si mesmo, nada é no mundo e que não há senão um só Deus. Não é a comida que nos recomendará a Deus, pois nada perderemos, se não comermos, e nada ganharemos, se comermos. E assim, por causa do teu saber, perece o irmão fraco, pelo qual Cristo morreu. E deste modo, pecando contra os irmãos, golpeando-lhes a consciência fraca, é contra Cristo que pecais." (I Coríntios 4;8;11-12)

Há uma questão a ser tratada aqui antes de prosseguirmos. Em primeiro lugar, esse texto fala exclusivamente  acerca de alimentos sacrificados a ídolos. Comer carne num templo pagão era algo que hoje equivaleria a comer num restaurante, mas com o agravante de que muitos consideravam tais refeições como ato de idolatria. Embora não houvesse pecado em comer num templo pagão, o pecado surgia se o ato fosse feito deliberadamente como adoração pagã [1]. O cuidado aqui é com o cristão fraco, pelo qual Cristo morreu. Esse cristão deveria ser instruído sobre essas práticas e onde está a origem desse pecado. Não há no texto nenhuma orientação quanto aos ímpios. O problema começa quando os cristãos atuais pregam a abstenção total de práticas "erradas" de acordo com usos, costumes e tradições, para que não exista a possibilidade de sermos confundidos com não-crentes.

Um exemplo para chegamos ao ponto de tensão: para a maioria dos crentes, não é possível beber uma cerveja com os amigos e amar a Deus verdadeiramente. A pior parte é que ao invés de tentarmos corrigir essa cultura errada, preferimos nos calar e simplesmente abrir mão de tudo que não agrada aos crentes para não escandalizar. Lastimável!

Concluímos dessa forma que há duas formas de escândalo. A primeira é o skandalon propriamente dito, quando temos a intenção de fazer com que alguém tropece com alguma atitude nossa. Esse acontece quando pessoas que já conhecem Cristo continuam com suas vidas vazias, sem nenhuma ética e seus valores totalmente corrompidos. Essas atitudes afetam diretamente aqueles que são novos na fé, que vacilam por imitar tais práticas pecaminosas.

A segunda forma é o oposto, o skandalon provocado pela ação transformadora de Deus em nossas vidas, que nos faz viver de acordo com bases éticas e morais totalmente contrárias às do mundo. Esse é o escândalo que Cristo causou: uma quebra de falsos paradigmas. A palavra da cruz é loucura para os que perecem (I Coríntios 1:18) e Cristo é escândalo para os judeus e loucura para os gentios (I Coríntios 1:23).

Devemos viver uma vida de santidade de acordo com os princípios de Deus, para que não escandalizemos os novos convertidos. Qual o verdadeiro e necessário compromisso com os neófitos? Instrução! Caminhemos juntos, estudemos e aprendamos juntos, para esses não cairem em pecado por nossa causa.

Quanto aos ímpios, temos que escandalizá-los como Cristo o fez, com nossa moral e ética pautadas nas Santas Escrituras. Escandalizar também os novos fariseus combatendo o seu legalismo. Devemos nos preocupar é com os escândalos dos falsos pastores com suas teologias satânicas, os crentes na política que só envergonham o evangelho, e não com quem usa bermuda na igreja, pastor que prega sem usar terno, pessoas que usam piercings e tem tatuagens. Fazer isso não é nenhum ato de amor ou preocupação, mas um falso exercício de piedade contrário às Escrituras.

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