POR UMA TEOLOGIA BÍBLICA

27/05/2014 10:54

O mundo bipolar, mesmo no século 21, não se rendeu aos ares heteropolares. Nos mínimos aspectos da nossa via a dualidade dos extremos surge. Basta uma campanha eleitoral uma discussão teológica e, a velha e boa bipolaridade surge, vitaminada – com pitadinhas de um niilismo coquete.

É claro que não podemos negar a existência do bem e do mal, de Deus e do diabo, mas desde que em 1895 Gustave le Bon escreveu seu Psicologia das Massas, gente que vai de Freud a Ortega y Gasset, passando por Reich, Fromm, Elias Canetti, (desaguando no Barry Glassner de A Cultura do Medo), falou a mesma cousa: esse construto chamado ser humano se reúne em torno do líder que lhe aponta um culpado, um bode expiatório qualquer.

Ao contrário do que se diz, raros é aquele, sobretudo em uma discussão teológica, que capaz de enxergar tons de cinza. O mundo bipolar é isso aí: ou você está do lado do bem, ou você está do lado do mau. É o que em lógica se chama do princípio do terceiro excluído, o tertium non datur. Não há uma terceira opção. Ou temos uma penca de mocinhos, ou uma penca de bandidos. É a dualidade humana atuando no sagrado. Vemos isso na mulher samaritana que pergunta “neste ou naquele”, é também o que fizeram nossos primeiros apóstolos: “Barnabé ou Matias”.

Calvinistas e Arminianos, imersionistas e aspercionistas, pentecostais e não-pentecostais, se esmeraram nos últimos 2000 anos em explorar essa bipolaridade. Auto-santificados, ignoram os próprios erros e amplificam os desvios de opositores. Não se vislumbram possibilidades de pactos pela busca de uma teologia bíblica não “partidária”. Ambos são frutos ruins da mesma árvore teológica: insuflam “projetos de poder e domínio”, não “projetos de busca da verdade”.

É óbvio que “projeto de busca da verdade” necessita de um esforço conjunto e exercício de humildade para reconhecer seus próprios vícios e as virtudes alheias: e o menos disfuncional deles é polarizar e apontar um bode expiatório a ser exterminado.

Cada época pensou, e ainda pensa, a sua própria teologia de acordo com os instrumentos de que dispõe.

A bandeira que agrega os retalhos dessas teologias bipolares incompletas é o dictum de Sarte em sua peça Hui Clos, de 1935: o inferno são os outros.

Sejam nazistas ou talibãs, as vítimas do fundamentalismo e do fanatismo são capazes de marchar ao próprio extermínio em prol de cumprir seus próprios conceitos de verdade. E todos aqueles cegos pela luz necessitam de um bode expiatório para justificar suas existências. Isso é apenas a ponta do Iceberg, ponta no espetáculo. Mas em ano eleitoral, essas monstruosidades vêm a tona. Sangue nos olhos e faca na bota, teólogos serão capazes de matar em prol da bipolaridade que lhes dá sentido à vida. Preferem crucificar a Cristo do que reconhecerem que suas verdades eram meros enganos e que mesmo sendo verdades, estas poderiam mudar. Recusaram-se a levantar as próprias cabeças e correrem o risco de descobrirem que o horizonte vai muito mais além do que os dois passos que tinham diante de si.

Os melhores termômetros para que você ou eu notemos o quanto esta bipolaridade se faz presente, ou não, são os produtos cultuais e as liturgias de invenção, recheadas com o fogo estranho de Nadabe e Habiú, incapazes de perceber que fora o próprio descuido que apagara o fogo do altar. Afinal o preço do retorno do fogo exige julgamento pessoal, arrependimento, renúncia, mudança de vida, enfim sair do nosso “lugar de conforto”. É removermos as bases onde nós mesmos nos colocamos, que mesmo que seja frágil, pelo menos nos coloca no topo, mesmo que seja por um pouco de tempo e com um risco imenso não apenas para si que está no alto, como para aqueles que estão embaixo. É a eterna vigilância, notou o biólogo Richard Lewontin.

A trilha racional humana tem algumas máximas como: “o inimigo, ao infringir o contrato social, deixa de ser membro do Estado, está em guerra contra ele. Merece a morte” (Rousseau); “aquele que abandonar o contrato do cidadão perde todos os seus direitos” (Fichte); “em casos de alta traição contra o Estado, o criminoso não deve ser castigado como súdito, mas como inimigo” (Hobbes); “quem ameaça constantemente a sociedade e o Estado, quem não aceita o "Estado Comunitário-Legal", deve ser tratado como inimigo” (Kant).

Porém o cristianismo nos dá outros caminhos: "Preferem crucificar a Cristo do que reconhecerem que suas verdades eram meros enganos e que mesmo sendo verdades, estas poderiam mudar. Recusaram-se a levantar as próprias cabeças e correrem o risco de descobrirem que o horizonte vai muito mais além do que os dois passos que tinham diante de si." (1 Pe 3.15); "Traze estas coisas à memória, ordenando-lhes diante do Senhor que não tenham contendas de palavras, que para nada aproveitam e são para perversão dos ouvintes. Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade." (2 Timóteo 2:14-15)

Se você reparar na bipolarização, nos argumentos brandidos nas discussões, vai saber, agora, de onde tem vindo tudo isso. Não vivemos um processo de melhoria da teologia: mas na vivificação de uma razão humana que afasta-se cada vez mais da própria Bíblia que lhe condena.

O desconhecido, o estrangeiro, o outro, brotam no inconsciente como a imagem de um demônio a ser combatido e não como uma nova visão para nos ajudar a alcançar a verdade.

A Bíblia nos ensina: "Se alguém ensina alguma outra doutrina, e se não conforma com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo, e com a doutrina que é segundo a piedade, é soberbo, e nada sabe, mas delira acerca de questões e contendas de palavras, das quais nascem invejas, porfias, blasfêmias, ruins suspeitas, contendas de homens corruptos de entendimento, e privados da verdade, cuidando que a piedade seja causa de ganho; aparta-te dos tais." (1 Timóteo 6.3-5) "... A ciência incha, mas o amor edifica. E, se alguém cuida saber alguma coisa, ainda não sabe como convém saber." (1 Coríntios 8:1,2).

Assim, "Duvidar de tudo ou crer em tudo. São duas soluções igualmente cômodas, que nos dispensam, ambas, de refletir." (Henri Poincaré).  Logo a saída é: "Examinai tudo. Retende o bem." (1 Tessalonicenses 5:21) e "Nas coisas essenciais, a unidade; nas coisas não essenciais, a liberdade; em todas as coisas, a caridade." Agostinho.

 

 

—————

Voltar