PENTECOSTAIS: ARMINIANOS OU CALVINISTAS?

14/08/2015 18:41

Escolhi abordar esse tema em vista da grande confusão existente na compreensão da doutrina da Salvação e sua relação com os sistemas calvinista e arminiano. Originalmente os Pentecostais descendem do movimento de rua Azuza que, por sua vez, desenvolveu-se a partir do movimento Holiness (Movimento de Santidade) motivado e propagado pelo metodismo. Para entender esse movimento precisamos compreender primeiro o calvinismo. O Calvinismo, nascido na reforma, é a adoção do sistema teológico (Platônico) defendido por Agostinho de Hipona aliado a uma forma de governo “teocrática” (Governo de Deus), sendo que prefiro o termo “eclesiocrática” (governo da Igreja). O Movimento de Santidade nascido de dentro das igrejas reformadas (principalmente metodistas), procura enfatizar a necessidade de uma conversão individual, uma conversão pessoal e verdadeira. Isso só pode ser entendido se conhecermos a doutrina da salvação pós-reforma: Sola Fide e Sola Gratia. Ambas as doutrinas – Sola Fide e Sola Gratia – foram escritas em oposição à Igreja Católica Romana que pregava as indulgências como forma de alcançar a salvação. Assim, para o catolicismo a pessoa só chega a Cristo por meio da Igreja; e na reforma protestante, a pessoa só se torna a igreja por meio de Cristo. Dessa forma as indulgências foram banidas e a salvação passou a estar unicamente em Deus, ocultas em Deus, nos seus decretos eternos. Somente Deus decide a salvação, nada, nem mesmo os “sinais de salvação” (que é a vida na Igreja) podem afirmar a salvação. Podemos concluir nesse super-breve resumo que a doutrina da salvação na fé reformada nasceu em oposição à fé católica, e foi desenvolvida numa prática nacionalista: A Alemanha é Luterana, Genebra é Calvinista, Inglaterra é Anglicana, etc... Essa perspectiva sem participação humana fez com que a salvação fosse algo nacionalista, todos que nascem na Alemanha são luteranos, não precisam aceitar Jesus, pois já nascem em uma nação protestante. O mesmo aconteceu com as nações calvinistas. Em oposição a essa perspectiva de salvação infrutífera e impessoal surgiu o movimento de Santidade procurando recuperar o vigor da Igreja Primitiva, retornar ao primeiro amor, encontrar o verdadeiro sentido da salvação. O principal advogado desse espírito de reavivamento foi Wesley. Sua principal mensagem foi a “segunda benção”, uma experiência de coração aquecido que despertava amor pelas almas. Wesley afirma que só se converteu verdadeiramente após seu aquecimento de coração. Essa mensagem produziu grande aversão no protestantismo da reforma, pois contrariava os “Sola’s” e pregava a necessidade de uma conversão genuína, duvidando da “conversão nacional”. Esse movimento de despertamento encontrou força no Arminianismo, uma vez que sua teologia (uma moderação do calvinismo) procurava levar as pessoas a participarem de sua salvação, a buscarem santidade e mudança de vida. Diante desse breve histórico esboço uma pequena teologia sistemática para compreensão do problema e definição de uma linha teológica para o pentecostalismo.

1 - Principais Crenças Pentecostais:

a) Os pentecostais crêem que se uma criança morrer na idade da inocência não vai para o inferno.

b) Os pentecostais crêem em livre arbítrio – O Homem é responsável por seus atos.

c) Os pentecostais não crêem que Deus escolheu uns para o céu e outros para o inferno. Mediante essas três afirmações esboçarei os erros teológicos comuns às teologias pentecostais contemporâneas e proporei um pequeno esboço de teologia que condiga coerentemente com nossa fé pentecostal.

2 - Erros Teológicos Comuns:

2.1 - Misturar Calvinismo com Arminianismo.

O principal erro teológico na maioria dos teólogos pentecostais é entender que teologia é salada de fruta, podendo colocar e tirar o que quiser e quando quiser. A teologia SISTEMÁTICA indica que existe um sistema de idéias interligadas, ou seja, a doutrina de Deus está ligada com a doutrina do homem e com a doutrina de Cristo, Salvação, Espírito Santo e Escatologia, uma alteração na doutrina do homem, ou em qualquer outra, e todo o sistema estará comprometido. Veja o seguinte exemplo bem comum: “[...] a Biblia não só revela o primeiro estado do homem, como relata a história da perda do seu primeiro estado de santidade, pela Queda, e também a possibilidade de sua restauração (Cl 3:10; Ef 4:24)”; “Portanto, já nascemos espiritualmente contaminados (Rm 5:12) [...] o homem tem dentro de si uma natureza pecaminosa [...]”; “Segundo a Bíblia, o pecador não sabe escolher o bem; ele sempre opta pelo mal [...] a causa é o pecado congênito em nossa natureza decaída”; “Deus não elege uns para a salvação, e outros, para a perdição. O homem é capaz de fazer a livre-escolha. E a graça de Deus não é irresistível, como muitos ensinam [...]”(GILBERTO A, et all, Teologia Sistemática Pentecostal, Rio de Janeiro:CPAD, 2008, pp.306,344,346,367). “Adão e Eva foram criados “bons” (p.267) [...] o pecado de Adão afetou muito mais que a ele próprio [...] Esta questão é chamada pecado original [...] Por estar a natureza humana tão deteriorada pela Queda, pessoa alguma tem a capacidade de fazer o que é espiritualmente bom sem a ajuda graciosa de Deus.”; “Se o pecador optar por arrepender-se e crer, Deus é o único agente ativo. Se o pecador optar por não se arrepender ou não crer, a culpa é inteiramente deste” (HORTON S. M. Teologia Sistemática, Rio de Janeiro:CPAD, 2002, p. 267-269;p.367) Ambos os autores (Assim como muitos outros teólogos pentecostais) produzem um erro teológico grotesco: Como uma pessoa que tem sua natureza caída pode chegar a crer sem a atuação de Deus? Como uma pessoa com a natureza caída pode possuir livre escolha? Como alguém com natureza deteriorada pela Queda pode escolher arrepender-se e crer? O sistema calvinista possui uma resposta que condiz com seu sistema: A Eleição Eterna e Incondicional de Deus, já os pentecostais querem que o homem possua uma natureza caída e sejam capazes de escolher crer ou não crer.

2.2 - Desconsiderar a Causalidade.

Outro erro conseqüente do primeiro é ignorar a causalidade em um sistema. Todo sistema, para ser um sistema, deve ter princípios de causalidade (Causa e Efeito). Assim, a crença na doutrina da Queda produz os seguintes efeitos: A Queda pressupõe estado de Graça Original, que por sua vez pressupõe o Pecado Original, que pressupõe a total incapacidade humana; que pressupõe a Eleição e Salvação unicamente por Deus. Ou seja, crer na Queda é o mesmo que crer na eleição incondicional para o céu e para o inferno, e crer que as crianças serão condenadas, mesmo na inocência.

3 - Construção de uma Teologia Arminiana Moderna

O Arminianismo original também acreditava na Queda, o que gerava uma crise em seu prédio teológico (heresia), motivo por que foi condenado no sínodo de Dort. Assim, uma teologia pentecostal equilibrada com suas crenças salvíficas deve:

1) Acreditar na Criação perfeita, mas sem algo como a Graça Original. No máximo, podemos afirmar que a graça original era a presença de Deus que o homem perdeu.

2) A consequência será a eliminação da doutrina da Queda e do Pecado Original. (Termos que a propósito, nem aparecem na Bíblia). O Pecado não deturpou a natureza humana, mas afastou o homem de Deus. O homem tem a capacidade de decidir-se por Deus em Cristo desde que tenha sido alcançado pela ação (externa) da palavra, da Igreja e do Espírito Santo.

3) Essa doutrina possibilitará uma doutrina da Salvação mais equilibrada, onde o homem pode decidir seguir ou não a Cristo, mas sem Cristo, sua palavra e seu testemunho, o homem não tem como decidir-se pela salvação. Ele pode escolher, mas apenas em Cristo. O Homem não se salva, mas encontra a salvação.

4) A salvação não é uma regeneração natural de um pecado natural passado de pai para filho, mas a aproximação do homem a Deus mediante Jesus Cristo.

5) O Espírito Santo não é um agente interno para salvação (Sendo derramado nos corações para convencer os homens do pecado), mas um agente externo de testemunho da palavra de Deus por meio dos sinais e do poder e missão da Igreja. O Espírito fortalece o crente para testemunhar e alcançar os perdidos.

6) Eclesiologia: Ser igreja é viver o IDE

7) Escatologia: Aproximação e Identificação de toda humanidade com Deus por meio de Cristo.

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