O Espírito pós-moderno

21/09/2012 09:45

 

pós-modernismo nasceu em St. Louis, Missouri, no dia 15 de julho de 1972 às 15 horas e 32 minutos.

Logo que foi construído, o projeto de moradia de Pruitt-Igoe em St. Louis foi saudado como um marco da arquitetura moderna. Mais importante ainda, ele representava o epítome da própria modernidade, cujo objetivo era o emprego da tecnologia para a criação de uma sociedade utópica que beneficiasse a todos. Todavia, seus moradores, pouco impressionados, depredaram os edifícios. Os planejadores do governo envidaram muitos esforços para a renovação do projeto. No fim, contudo, depois de sacrificar milhões de dólares no projeto, os planejadores desistiram. Naquela fatídica tarde de meados de julho de 1972, o prédio foi implodido. Segundo Charles Jencks, que tem sido aclamado como "um dos proponentes de maior influência da arquitetura pós-moderna", esse evento simboliza a morte da modernidade e o nascimento da pós-modernidade.

Nossa sociedade está em meio a um deslocamento cultural de proporções imensas. Semelhantemente ao projeto de moradia de Pruittígoe, o edifício que abrigava o pensamento e a cultura na era moderna está ruindo. A medida que a modernidade sucumbe à nossa volta, parece que estamos entrando em uma nova época —a pós-modernidade.

fenómeno pós-moderno abarca muitas dimensões da sociedade contemporânea. No centro de todas elas, porém, acha-se uma atitude intelectual, um "ismo"—o "pós-modernismo".

Os estudiosos não estão de acordo quanto as implicações do pós-modernismo, entretanto, são unânimes em relação a um ponto: este fenómeno marca o fim de uma cosmovisão única e universal. O espírito pós-moderno resiste às explicações unificadas, abrangentes e universalmente válidas. Ele as substitui por um respeito pela diferença e pela celebração do local e do particular à custa do universal. O pós-modernismo, de modo semelhante, implica uma rejeição da ênfase na descoberta racional por meio do método científico, que era o fundamento intelectual da tentativa moderna de construir um mundo melhor. Em sua base, portanto, a perspectiva pós-moderna é antimoderna.

adjetivo pós-moderno, entretanto, não se limita a descrever somente uma atitude intelectual. A rejeição pós-moderna da ênfase na racionalidade, característica da era moderna, encontra expressão em várias dimensões da sociedade contemporânea. Em anos recentes, a estrutura mental pós-moderna aparece em vários dos veículos tradicionais de expressão cultural, dentre eles, a arquitetura, a arte e o teatro. Além disso, o pós-modernismo está cada vez mais presente na sociedade como um todo. Podemos detectar um deslocamento do moderno para o pós-moderno na cultura "pop" que vai dos vídeos musicais desconexos à nova série de Jornada nas estrelas chegando até aos aspectos cotidianos da vida contemporânea, como, por exemplo, a nova procura por espiritualidade no mercado e a justaposição dos diferentes estilos de roupas que muitas pessoas usam.

pós-modernismo tem a ver com uma atitude intelectual e com uma série de expressões culturais que colocam em questão os ideais, princípios e valores que se acham no centro da estrutura mental moderna. A pós-modernidade, por sua vez, refere-se a uma época emergente, à era em que estamos vivendo, ao tempo em que a perspectiva pós-modema molda cada vez mais nossa sociedade. A pós-modernidade é a era em que reinam as idéias, as atitudes e os valores pós-modernos —trata-se de um tempo em que a cultura é moldada pelo pós-modernismo. É a era da sociedade pós-moderna.

Nosso objetivo neste capítulo consiste em observar mais de perto o fenómeno pós-moderno de maneira mais abrangente e compreender um pouco do espírito da pós-modernidade. O que caracteriza as expressões culturais e as dimensões cotidianas mais amplas do mundo da "nova geração"? Que prova há de que uma nova estrutura mental está moldando a vida em nossa sociedade?

O Fenómeno Pós-moderno

pós-modernismo refere-se à atitude intelectual e às expressões culturais que estão se tomando cada vez mais predominantes na sociedade contemporânea. Tudo indica que estamos caminhando para uma nova época cultural, a pós-modernidade, todavia, é preciso que especifiquemos mais detalhadamente as implicações do fenómeno pós-moderno.

A Consciência Pós-moderna

As primeiras provas do espírito característico básico do pós-modernismo foram, em grande medida, negativas. Este espírito decorre da rejeição radical da estrutura mental do Iluminismo que deu origem à modernidade. Podemos achar traços do espírito pós-moderno por toda parte em nossa sociedade. Acima de tudo, porém, ele permeia a consciência da geração emergente e constitui uma ruptura radical em relação às suposições do passado.

A consciência pós-moderna abandonou a crença iluminista do progresso inevitável. Os pós-modernos não deram continuidade ao otimismo que caracterizou as gerações precedentes. Pelo contrário, demonstram um pessimismo corrosivo. Pela primeira vez na história recente, a geração emergente não compartilha da convicção de seus pais de que o mundo está se tornando um lugar melhor para viver. Dos buracos cada vez maiores na camada de ozônio à violência entre adolescentes, esta geração observa nossos problemas crescerem sem cessar. Eles não estão mais convencidos de que a engenhosidade humana será capaz de resolver esses conflitos tão grandes ou de que seu padrão de vida será mais elevado do que o de seus pais.

A geração pós-modema também está convencida de que a vida na Terra é frágil. Ela acredita que o modelo iluminista da conquista humana da natureza, que data de Francis Bacon, deve ceder lugar rapidamente a uma nova atitude de cooperação com a terra, pois, em seu entender, a sobrevivência da humanidade está ameaçada.

Além desse pessimismo sombrio, a consciência pós-moderna trabalha com uma visão de verdade distinta daquela que as gerações passadas apoiavam.

A compreensão moderna associava a verdade à racionalidade e fazia da razão e da argumentação lógica os únicos árbitros da crença correia. Os pós-modernos questionam o conceito da verdade universal descoberta e provada graças aos esforços racionais. Eles não estão dispostos a conceder que o intelecto humano seja o único determinante daquilo em que devemos crer. Os pós-modernos olham para além da razão e dão guarida a meios não-racionais de conhecimento, dando às emoções e às intuições um status privilegiado.

A busca de um modelo cooperativo e de uma maior valorização das dimensões não-racionais da verdade emprestam uma dimensão holística à consciência pós-modema. O holismo pós-moderno implica a rejeição do ideal iluminista do indivíduo fleumático, autónomo e racional. Os pós-modernos não procuram ser indivíduos totalmente dedicados a si mesmos, desejam, isto sim, ser pessoas "completas".

holismo pós-moderno implica a integração de todas as dimensões da vida pessoal —afetíva, intuitiva bem como cognitiva. A totalidade implica, também, uma consciência da conexão indelével e delicada com aquilo que jaz além de nós mesmos, em que nossa existência pessoal acha-se incluída e de que se nutre. Esse reino mais abrangente compreende, é claro, a "natureza" (o ecossistema). No entanto, envolve também a comunidade de humanos da qual participamos. Os pós-modernos estão bem cientes da importância da comunidade e da dimensão social da existência. A concepção pós-modema da totalidade estende-se também ao aspecto religioso ou espiritual da vida. Na verdade, os pós-modernos asseveram que a existência pessoal pode se dar no âmbito da realidade divina.

A convicção de que todas as pessoas acham-se inclusas numa comunidade humana específica leva a um entendimento conjunto da verdade. Os pós-modernos crêem que não somente nossas crenças específicas, mas também nossa compreensão da própria verdade encontram-se enraizadas na comunidade da qual participamos. Rejeitam a procura do Iluminismo pela verdade universal, supracultural e eterna e valorizam a busca da verdade como expressão de uma comunidade humana específica. Segundo os pós-modernos, a verdade consiste nas regras básicas que facilitam o bem-estar pessoal na comunidade e o bem-estar da comunidade com um todo.

Nesse sentido, portanto, a verdade pós-moderna tem a ver com a comunidade de que participa o indivíduo. Uma vez que são muitas as comunidades humanas, necessariamente serão muitas também as diferentes verdades. Muitos pós-modernos chegam a crer que essa pluralidade de verdades podem existir umas ao lado das outras. A consciência pós-moderna, portanto, implica um tipo radical de relativismo e pluralismo.

É claro que o relativismo e o pluralismo não são novidades. Todavia, a variedade pós-moderna é diferente das formas antigas. O pluralismo relativista da modernidade tardia era altamente individualista; exaltava o gosto e a escolha pessoais como o ápice da existência. Suas máximas eram "A cada um o que lhe pertence" e "Todos têm o direito a sua própria opinião".

A consciência pós-modema, pelo contrário, enfatiza o grupo. Os pós-modernos vivem em grupos sociais independentes, cada um dos quais possui sua própria linguagem, suas crenças e seus valores. Conseqüentemente, o pluralismo relativista pós-moderno procura dar espaço à natureza "local" da verdade. As crenças são consideradas verdadeiras no contexto das comunidades que as defendem.

A compreensão pós-modema da verdade leva os pós-modernos a se preocuparem menos do que os seus antepassados com o pensamento lógico ou sistemático. Assim como algumas pessoas sentem-se bem ao misturar elementos de vestuário tidos tradicionalmente como incompatíveis, os pós-modernos sentem-se bem ao misturar elementos de sistemas de crenças tradicionalmente considerados incompatíveis. Por exemplo, um cristão pós-moderno confessará tanto as doutrinas clássicas da capelania quanto idéias tradicionalmente não-cristãs. como a reencarnação.

Os pós-modernos não estão também, necessariamente, preocupados em provar que estão "certos" e os outros "errados". Para eles, as crenças são, em última análise, uma questão de contexto social e, portanto, é bem provável que cheguem à conclusão de que "O que é certo para nós talvez não o seja para você" e "O que está errado em nosso contexto talvez seja aceitável ou até mesmo preferível no seu".

Quando foi que surgiu a consciência pós-modema, com seu pessimismo, seu holismo, seu espírito de comunidade e seu pluralismo relativista?

O Nascimento da Pós-modernidade

Em certo sentido, a pós-modernidade atravessou um período de incubação muito longo. Embora os eruditos discordem quanto a quem teria cunhado pela primeira vez o termo, existe um consenso de que tenha aparecido por volta da década de 30.

Charles Jencks, um dos proponentes mais destacados do pós-modernismo, afirma que a génese do conceito acha-se na obra do escritor espanhol Federico de Qnis. Em sua Antologia de Ia poesia espanola e hispanoamericana (1934), de Onis parece ter introduzido o termo para se referir a uma reação dentro do modernismo.

uso primeiro do termo, o mais das vezes, é atribuído a Arnold Toynbee- em sua obra monumental de vários volumes Estudo de história. Toynbee estava convencido de que se havia iniciado uma nova época, embora, tudo indica, tivesse mudado de opinião quanto a ser a Primeira Guerra Mundial ou já a década de 1870 seu marco inicial.

Segundo Toynbee, a era pós-moderna"caracteriza-se pelo fim do domínio ocidental e pelo declínio do individualismo, do capitalismo e do cristianismo. Para o historiador inglês, a transição se deu quando a civilização ocidental desviou-se para a irracionalidade e para o relativismo. Nesse momento, segundo Toynbee, o poder passou da cultura ocidental para as culturas não-ocidentais e para uma nova cultura mundial pluralista.

Embora o termo tenha sido cunhado na década de 30, o pós-modernismo como fenómeno cultural não ganhou impulso senão três ou quatro décadas mais tarde. Sua primeira aparição foi na periferia da sociedade. Durante a década de 60, a atitude que caracterizaria o pós-modernismo cativou artistas, arquitetos e pensadores que buscavam propor alternativas radicais à cultura moderna predominante. Até mesmo teólogos deram sua contribuição, como foi o caso de William Hamilton e  Thomas J. J. Altizer, que invocaram o espírito de Nietzsche para proclamar a morte de Deus. Esses desenvolvimentos variados levaram o "observador culturaI" Leslie Fiedier, em 1965, a rotular de "pós-modema" a contracultura radical da época.

Durante a década de 70, o desafio pós-moderno à modernidade penetrou ainda mais na cultura tradicional. Em meados da década, ele produziu um de seus defensores mais articulados, lhab Hassan, aclamado como "o promotor mais consistente da idéia da virada pós-moderna". Esse autoproclamado porta-voz do pós-modernismo associou o fenómeno ao experimentalismo nas artes e à ultratecnologia na arquitetura.

espírito pós-moderno, entretanto, expandia-se rapidamente além dessas duas esferas. Professores universitários de vários departamentos de humanidades começaram a discursar sobre o pós-modernismo; alguns deles chegaram mesmo a se apaixonar pelas idéias pós-modernas.

Por fim, a adoção do novo espírito tornou-se tão disseminada que a designação "pós-moderno" cristalizou-se como um rótulo que designava um fenómeno social e cultural diverso. A tempestade pós-moderna estendeu-se sobre vários aspectos da cultura e várias disciplinas académicas, influenciando de modo mais significativo a literatura, a arquitetura, o cinema e a filosofia.

Na década de 80, o deslocamento da periferia para o centro já era total. Paulatinamente, a atitude pós-moderna invadiu a cultura "pop" e até mesmo o mundo cotidiano da sociedade como um todo. As idéias pós-modemas tomaram-se não apenas aceitáveis como populares: era "in" ser pós-moderno. Conseqüentemente, os críticos culturais podiam falar de uma "insustentável leveza do ser pós-moderno".O pós-modernismo nasceu logo que a pós-modernidade tornou-se parte da cultura.

A Mãe da Pós-modernidade

Entre 1960 e 1990, o pós-modernismo emergiu como fenómeno cultural. Mas, por quê? Como explicar a ascensão meteórica desse espírito tão característico em nossa sociedade? Muitos observadores associam a transição às mudanças por que passou a sociedade durante a segunda metade do século XX. Nenhum fator, entretanto, assoma com maior significação do que a chegada da era da informação. Na verdade, a difusão do pós-modernismo caminha lado a lado com a transição, e dela depende, para uma sociedade de informação.

Muitos historiadores rotulam a era moderna de "era industrial", porque foi um período em que predominou a manufatura. Concentrando-se na produção de bens, a modernidade produziu a sociedade industrial, cujo símbolo era a fábrica. A era pós-modema, diferentemente, enfatiza a produção de informações. Estamos testemunhando a transição de uma sociedade industrial para uma sociedade de informação, cujo símbolo é o computador.

As estatísticas de trabalho mostram claramente que estamos passando de uma sociedade industrial para outra de informações. Na era moderna, a grande maioria das oportunidades de emprego fora da agricultura concentravam-se no setor manufatureiro da economia e implicava a produção de bens. Em fins da década de 70, contudo, apenas 13% dos trabalhadores americanos trabalhavam na manufatura de bens, ao passo que 60% deles ocupavam-se da "manufatura" de informações. A medida que as linhas de montagem requerem cada vez menos trabalhadores, a preparação para carreiras relacionadas com a informação —quer na área de processamento de dados quer na de consultoria— tornou-se praticamente essencial.

A sociedade de informaçõesJproduziu uma classe totalmente nova de pessoas. _Q proletariado deu lugar à "comunidade de informações". Para a atividade empresarial, a emergência de uma sociedade pós-moderna significou a passagem de uma técnica moderna de controle centralizado para um novo modelo de "rede". As estruturas hierárquicas foram substituídas por outra modalidade de tomada de decisão com mais participação e descentralização.

A era da informação não somente modificou o trabalho que executamos como também aproximou o mundo de um modo jamais concebido anteriormente. A sociedade de informação opera com base numa rede de comunicação organizada que cobre todo o globo. A eficiência desse sistema integrado é impressionante. No passado, a velocidade de circulação das informações atinha-se à velocidade de deslocamento dos seres humanos. Atualmente, porém, elas podem atravessar o planeta com a velocidade da luz. Mais importante do que a capacidade moderna de viajar ao redor do mundo, de modo relativamente rápido e confortável, é a capacidade pós-modema de obter informação de praticamente todos os lugares da terra quase que instantaneamente.

Em decorrência do sistema de comunicação global, temos agora ao alcance das mãos o conhecimento de eventos ocorridos pelo mundo afora. Nesse sentido, somos de fato habitantes de uma aldeia global.

advento da aldeia global produziu efeitos contraditórios. A cultura de massa e a economia global que estão sendo criadas pela era da informação têm colaborado para a unificação do mundo de um modo que foi jocosamente descrito por um observador como "McMundo". Ao mesmo tempo, porém, que o planeta está se unindo num determinado nível, ele está se desmantelando em outro. O advento da pós-modernidade gerou, a um só tempo, uma consciência global e a erosão da consciência nacional.

nacionalismo perdeu forças no rastro de um movimento em direção à "retribalização", rumo a uma maior lealdade a um contexto mais local. Esse impulso está presente não somente em países africanos como também em locais onde menos se espera como o Canadá, que passa frequentemente por ameaças de separação em grande parte fomentadas pela província de fala francesa do Quebec e por sentimentos de marginal ização existentes em suas províncias ocidentais. As pessoas estão seguindo cada vez mais a máxima: "Pense globalmente, aja  localmente".

advento da sociedade de informação pós-industrial como sucessora da sociedade industrial moderna contribui para com o fundamento do espírito pós-moderno. A vida na aldeia global imbui seus cidadãos de uma consciência vívida da diversidade cultural de nosso planeta —uma consciência que parece estar nos encorajando a adotar uma nova atitude mental pluralista. Essa nova mentalidade compreende mais do que simplesmente a tolerância por outras práticas e pontos de vista: ela afirma e celebra a diversidade. A celebração da diversidade cultural, por sua vez, requer um novo estilo —o ecletismo— o estilo da pós-modernidade.

A sociedade de informações tem testemunhado também um deslocamento da produção em massa para a produção segmentada. A fabricação repetitiva de objetos idênticos deu lugar à produção em rápida transformação de muitos objetos diferenciados. Estamos nos distanciando da cultura de massa da modernidade, que nos oferecia uns poucos estilos sujeitos à alteração conforme as estações, e rumamos para uma "cultura da experiência" fragmentada, que nos oferece uma variedade quase infinita de estilos. Os alunos do segundo grau, que se definiam antigamente com base em relativamente poucas categorias sociais, tais como os que eram bons no esporte e os que se destacavam nos trabalhos intelectuais, pensam agora em conformidade com dúzias de categorias diferentes, refletindo assim gostos e estilos distintos.

O Reino Descentralizado do Pós-modernismo

Essas características apontam para o fato de que, num certo sentido importante, o espírito pós-moderno não tem um centro de referência. Não há um foco definido que faça a união dos elementos diversos e divergentes da sociedade pós-moderna num todo único. Não há mais padrões comuns a que as pessoas possam apelar em seus esforços para medir, julgar ou valorizar idéias, opiniões ou opções de estilo de vida. Acabaram-se também as antigas lealdades a uma fonte única de autoridade e a um centro respeitado de poder legítimo a que todos podiam recorrer.

À medida que o poder se dissolve, nossa sociedade torna-se cada vez mais um conglomerado de sociedades.

Essas unidades sociais menores têm pouca coisa em comum à parte sua proximidade geográfica.

Michel Foucault, Filósofo pós-moderno, designa esse universo pós-moderno sem centro definido como "heterotopia". A designação empregada por Foucault ressalta o afastamento monumental em relação à modernidade que estamos testemunhando. A crença do Iluminismo no progresso inevitável contribuiu com a motivação para a visão utópica da modernidade. Os arquitetos da modernidade procuraram projetar uma sociedade humana perfeita em que a paz, a justiça e o amor reinariam —a utopia. Os pós-modernos já não sonham mais com a utopia. Em seu lugar, podem oferecer apenas a diversidade incomensurável da heterotopia pós-modema, o "multiverso", que substituiu o universo da procura moderna.

O Pós-modernismo como Fenómeno Cultural

A perda de um centro introduzida pelo espírito pós-moderno tomou-se uma das principais características de nossa situação contemporânea. Talvez seja mais evidente na vida cultural de nossa sociedade. As artes passaram por uma profunda transição à medida que passávamos da modernidade para a pós-modernidade.

A Celebração Pós-moderna da Diversidade

A característica central da expressão cultural pós-moderna é o pluralismo. Na celebração desse pluralismo, os artistas pós-modernos justapõem, deliberadamente, estilos aparentemente contraditórios derivados de fontes imensamente diferentes. Esta técnica não apenas serve para a celebração da diversidade como oferece também um meio para expressar uma sutil rejeição do predomínio da racionalidade de uma maneira divertida e irónica. As obras culturais pós-modemas apresentam, frequentemente, "duplicidade de código" e significado em dois níveis. Muitos artistas pós-modernos têm utilizado características de estilos mais antigos especificamente para rejeitar ou ridicularizar certos aspectos da modernidade.

Uma das técnicas de justaposição amplamente utilizadas é a da colagem, que proporciona ao artista um meio natural de unir materiais de fontes incompatíveis. Ao mesmo tempo, ao permitir a confiscação, citação ou repetição óbvias das imagens existentes, a colagem intensifica a crítica pós-moderna ao mito do autor único e criativo.

Uma tática de justaposição aparentada com a precedente é a da bricolagem, isto é, a "reconfiguração" de vários objetos tradicionais (em geral, elementos de estágios anteriores segundo a tradição do meio artístico), a fim de alcançar algum objetivo contemporâneo ou fazer uma afirmação irónica.

uso pós-moderno que o artista faz de diversos estilos significa que as obras pós-modemas refletem com frequência um ecletismo oriundo de muitas eras históricas. Os puristas consideram abominável esse tipo de justaposição sob a alegação de que viola a integridade dos estilos históricos só para causar uma impressão no presente. Esses críticos censuram a forma pós-modema de expressão porque transcende a história em direção a um presente plano, sem profundidade e sem extensão, em que os estilos e as histórias circulam de maneira intercambiável. Em sua opinião, falta ao pós-modernismo originalidade e é crassa sua ausência de estilo.

Existe, contudo, um princípio operante mais profundo nas expressões culturais pós-modemas. O objetivo das obras pós-modemas não é necessariamente destituído de gosto. Pelo contrário, os pós-modernos procuram com frequência minar o conceito de um autor poderoso e criativo. Eles buscam destruir aquilo que reputam como a ideologia modernista de estilo substituindo-a por uma cultura de estilos múltiplos. Para isso, muitos artistas pós-modernos confrontam seu público com uma multiplicidade de estilos, uma polifonia aparentemente discordante de vozes fora do contexto. Esta técnica —que pinça elementos de estilo de seu contexto histórico original— é denunciada por seus críticos como deslocamento e achatamento da História.

A despeito das opiniões desses críticos, porém, o pós-modernismo exerce uma influência poderosa na cultura ocidental contemporânea. A justaposição de estilos, acompanhada da ênfase na diversidade e da falta de destaque da racionalidade, tomou-se a marca de nossa sociedade e pode ser observada numa vasta gama de expressões culturais contemporâneas.

Arquítetura Pós-modema

Na arquitetura, como em outros aspectos da cultura, o modernismo prevaleceu até a década de 70. Os arquitetos modernistas em todo o ocidente desenvolveram o que veio a se tomar conhecido como Estilo Internacional. Como expressão de um espírito modernista mais amplo, esse movimento arquitetônico foi guiado pela fé na racionalidade humana e pela esperança da construção da utopia humana.

Imbuídos do movimento utópico moderno, os arquitetos construíram edifícios de acordo com o princípio da unidade. Frank Lioyd Wright mostrou o caminho para muitos outros quando declarou que o edifício moderno deveria ser uma entidade orgânica. Em sua opinião, um edifício deveria ser "algo grande" e não uma "coleção conflitante" de várias "coisas pequenas". Cada edifício deve expressar um significado único e essencial.

A dedicação moderna ao princípio da unidade produziu uma arquitetura caracterizada pelo que Charles Jencks designa por "univalência". Os edifícios modernos apresentam formas simples e essenciais tipificadas pelo padrão praticamente universal das estruturas quadradas de vidro e aço. Os arquitetos chegam à simplicidade das formas ao permitirem a predominância de um tema na construção, o que se consegue normalmente por meio de um dispositivo conhecido como "repetição". Ao mesmo tempo, por sua aproximação com a perfeição geométrica, os edifícios modernos constituem-se em exemplos de tipo de espiritualidade.

A medida que se desenvolvia, a corrente central da arquitetura moderna tornava-se um movimento universal izante. Ela promoveu o programa de industrialização e rebaixou a variedade característica da expressão local. Conseqüentemeníe, a expansão da arquitetura moderna destruía frequentemente o tecido urbano existente. Ela praticamente dizimou tudo o que estava no caminho da escavadeira, a principal ferramenta da procura moderna pelo "progresso".

Alguns arquitetos modernos não ficaram satisfeitos em limitar a visão moderna à sua própria disciplina. Criam que a arquitetura deveria tornar-se a expressão visível de uma nova unidade da arte, ciência e indústria.

A arquitetura pós-modema surgiu em respnstaj_certas tendências na arquitetura moderna. Em vez do ideal moderno da univalência, os pós-modernos celebram a "multivalência". Os arquitetos pós-modernos rejeitam como demasiadamente austera a exigência modernista de que os edifícios sejam projetados de modo que reflitam uma unidade absoluta. Suas obras, diferentemente, exploram propositadamente as incompatibilidades de estilo, forma e textura e procuram exibi-las.

A rejeição da arquitetura moderna é evidente em diversas características da reação pós-modema. Por exemplo, em resposta ao desprezo modernista por qualquer coisa supérflua ou não-essencial, os edifícios pós-modernos dão lugar à ornamentação. Além disso, enquanto os arquitetos modernistas procuravam demonstrar uma ruptura absoluta com o passado expurgando rigorosamente de seus projetos todas as reminiscências de épocas anteriores, os arquitetos pós-modernistas recuperavam os estilos e técnicas históricos.

Atrás da rejeição pós-moderna da arquitetura moderna há um princípio mais profundo. Os pós-modernistas afirmam que toda arquitetura é inerentemente simbólica. Todos os edifícios, inclusive os de estrutura moderna, falam um tipo de linguagem. Em sua procura pela simples funcionalidade, muitos arquitetos modernos tentaram banir essa dimensão. Todavia, depois que o bisturi moderno cortara tudo o que não se conformava com o princípio da utilidade, declaram os pós-modernistas, tudo o que sobrou foi a técnica da construção. Foi eliminada a dimensão artística que permite a uma estrutura representar um mundo imaginário ou transmitir uma história. Os pós-modernos queixam-se de que nenhuma das maravilhas arquitetônicas do passado, tais como as grandes catedrais, que apontam para outro reino, poderiam ter sido construídas durante o reinado do modernismo.

Por meio de artifícios como o acréscimo de ornamentação, os pós-modernos estão tentando restaurar aquilo a que designam de elemento "fictício" da arquitetura. Seu objetivo é resgatar a disciplina de seu cativeiro de pura utilidade e devolver-lhe seu papel pela criação de "lugares inventivos".

Todavia, a crítica pós-modema da arquitetura modernista vai mais longe ainda. O pós-modernismo desafia as reivindicações modernistas ao universalismo e suas afirmações de valor "transhistórico". Os pós-modernistas argumentam que, contrariamente às afirmativas dos modernistas, suas realizações arquitetônicas não foram tanto uma expressão da razão ou da lógica quanto o foram da articulações de uma linguagem do poder. Os edifícios modernos derivam sua linguagem das formas industriais e dos materiais da era moderna e do sistema industrial a que serviram. Estas formas e estes materiais dão expressão ao admirável mundo novo da ciência e da tecnologia.

Os pós-modernos querem abandonar essa linguagem de poder da qual os arquitetos modernos parecem não ter consciência. Eles desejam afastar-se daquilo que consideram uma uniformidade desumanizadora de uma arquitetura que fala a língua da produção em massa padronizada. Em seu lugar, os pós-modernos procuram explorar novas linguagens híbridas que incorporem os conceitos pós-modernos de diversidade e de pluralismo.

A Arte Pós-moderna

A arquitetura pós-modema nasceu da rejeição dos princípios da arquitetura predominantemente modernista do século XX. O pós-modernismo fez sentir sua presença no mundo da arte de maneira semelhante.

A arquitetura modernista busca livrar-se de todos os remanescentes dos estilos precedentes. Os teóricos da arte, tais como Clement Greenberg, definem a arte moderna em termos semelhantes. O modernismo toma-se o que é por meio da autocrítica, com o objetivo de expurgar de si mesmo o que não for moderno; os artistas modernos participam dessa espécie de autocrítica para que sua arte torne-se "pura". Portanto, a expressão do modernismo na arte, assim como sua expressão na arquitetura, segue o impulso da equivalência. Uma das grandes virtudes dos artistas modernos, pois, é a integridade estilística.

A arte pós-moderna, ao contrário, passa de uma consciência da associação entre aquilo que reconhece como seu e aquilo que exclui. Esta é a razão que a leva a abraçar a diversidade estilística, ou a "multivalência". Sua opção é pela "impureza" em lugar da "pureza" do modernismo.

Muitos artistas pós-modernos combinam a diversidade com a crítica tipicamente pós-moderna da justaposição. Conforme já observamos, uma de suas formas prediletas de composição é a colagem. Na verdade, Jacques Derrida, cognominado o "Aristóteles da montagem", considera a colagem a forma primordial do discurso pós-moderno. A colagem, naturalmente, leva o observador à produção do seu sentido, enquanto que a "heterogeneidade" da colagem assegura que o sentido por ela suscitado não seja unívoco e nem estável. Ela convida incessantemente o observador a descobrir um novo significado em sua justaposição de imagens.

Levada ao seu extremo, a justaposição artística transforma-se no que se conhece por vezes como pastiche.

objetivo dessa tática, empregada tanto nos contextos de alta cultura quanto nos de cultura "pop" (e.g., os videoclipes da MTV), consiste em torpedear o observador com imagens incongruentes, até mesmo conflitantes, que ponham em dúvida todo sentido de significado objetivo. Esse design desconexo e desarmônico de pastiche com seus esquemas de cores chamativas, de tipografia inconsistente e assim por diante, fez com que o mundo da arte de vanguarda passasse para o âmbito cotidiano das capas de livros, capas de revistas e publicidade dirigida ao grande público.

Os artistas pós-modernos não encaram a diversidade estilística simplesmente como um meio para chamar a atenção. A atração se dá num nível mais profundo. Ela faz parte de uma atitude pós-moderna mais geral; trata-se de uma vontade de desafiar o poder da modernidade conforme este se apresenta nas instituições e nas tradições canónicas. Os artistas pós-modernos procuram_desafiar n enfoque modernista sobre a  integridade estilística do trabalho individual e minar o que consideram o “culto” modernista do artista em sua individualidade. Seu objetivo é negar propositalmente a individualidade das obras de arte. Por meio de métodos como a confiscação, a citação, excertos, acumulação e repetições óbvias de imagens já existentes, os pós-modernos atacam a "ficção" do sujeito criador.

Um exemplo dessa crítica pós-modema radical encontra-se no trabalho da artista fotográfica Sherrie Levine. Em uma de suas exposições, Levine fotografou fotos artísticas muito conhecidas de Walker Evans e Edward Weston e apresentou-as como se fossem suas. Seu ato de pirataria era tão evidente que não havia como acusá-la de plágio. O objetivo da artista não era fazer com que as pessoas cressem que o trabalho de outros, na verdade, era seu, e sim pôr em dúvida a idéia de uma distinção entre um "trabalho original" e sua reprodução pública.

O Teatro Pós-moderno

Em certo sentido, talvez o teatro seja o espaço artístico mais adequado para a expressão da rejeição pós-moderna ao modernismo. O movimento modernista via a obra de arte como algo que transcendia o tempo e expressava ideais eternos. O espírito pós-moderno, diferentemente, celebra o transitório —e o transitório é próprio da encarnação.

Os pós-modernos encaram a vida, a exemplo da história contada no palco, como um conjunto de narrativas inter-relacionadas. Assim, não há melhor maneira de descrever o transitório e a encenação do que por intermédio do meio cultural que é intrinsecamente dependente dessas duas características.

Apesar dessa íntima ligação, é claro que nem toda produção teatral é expressão do espírito pós-moderno. Muitos estudiosos fixam o surgimento do teatro pós-moderno a partir da explosão da arte performática durante a década de 60. Suas raízes, porém, remontam à época do escritor francês Antonin Artaud na década de 30.

Artaud desafiou os artistas —particularmente os dramaturgos— a se rebelarem e a destruírem o que ele considerava ser a idolatria da arte clássica. Artaud advogava a substituição do palco tradicional e da produção de obras-primas teatrais por um "teatro da crueldade". Ele  pregava o abandono do velho estilo centralizado no texto e a adoção da linguagem intrínseca ao teatro, que compreendia a luz, as cores, o movimento, os gestos e o espaço. Além disso, Artaud declarava ser preciso transcender as distinções entre os atores e os observadores, levando a audiência a uma experiência dramática. O objetivo de Artaud era obrigar a audiência a confrontar a realidade original da vida que ultrapassa toda convenção social.

Na década de 60, alguns aspectos do sonho de Artaud começaram a se tomar realidade. A medida que os teóricos iam repensando a natureza da expressão teatral, passaram a exigir a libertação da encenação de sua subserviência ao que eles consideravam como poder repressivo das autoridades tradicionais.

Alguns dos novos teóricos chegaram à conclusão de que o poder repressivo era fruto do texto ou do script. Para respJyer esse problema, eliminaram o script e fizeram de cada performance algo único e imediato. Uma vez realizada, cada obra desapareceria efetivamente para sempre?

Outros teóricos atribuíram n poder repressor ao diretor. Sua tentativa de resolver o problema enfatizava a improvisação e a autoridade do grupo. Opondo-se a todas as convenções clássicas, celebravam a perda resultante do conceito da obra teatral com uma produção unificada.

Aperformance teatral pós-modemaergueu-se sobre essas experiências anteriores. Ela estabelece um conflito entre os diferentes elementos da performance, tais como o som, a luz, a linguagem, o cenário e o movimento. Assim, o teatro pós-moderno apresenta uma teoria de performance específica —uma "estética da ausência" em oposição à antiga "estética da presença". A estética da ausência rejeita a idéia de que a performance deva evidenciar um sentido de verdade subjacente e permanente.

Ela sustenta que o sentido de presença que & performance evoca pode ser nada mais do que uma "presença vazia". De acordo com o espírito pós-moderno de modo geral, o significado da performance só pode ser transitório, dependendo da situação ou do contexto em que ocorre.

Ficção Pós-moderna

A influência do espírito pós-moderno na literatura é particularmente difícil de avaliar. Os críticos literários continuam a debater qual elemento distingue especificamente a ficção pós-moderna de suas

Espírito Pós-Moderno de suas predecessoras. Não obstante, esse estilo de escrita reflete as características manifestas nos outros géneros artísticos de que já tratamos.

Seguindo o estilo pós-moderno geral, a ficção pós-moderna emprega a tatica da justaposição. Alguns autores pós-modernos uniram formas tradicionais de modos vários com o objetivo de proporcionar um tratamento irónico a temas que, não fora isso, seriam perenes. Outros fizeram a justaposição entre o real e o fictício.

Essa justaposição pode envolver os próprios personagens, alguns autores-narradores pós-modernos chamam a atenção para o caráter fictício dos personagens e de suas ações num determinado ponto e apresentam os mesmos personagens como participantes de um tipo de história num outro momento, evocando assim, da parte do leitor, o mesmo tipo de reação emocional que evocava a ficção realística tradicional.

Alguns autores pós-modernos justapõem o real e o fictício por meio de sua própria interferência na obra. Podem até mesmo discutir os problemas e os processos envolvidos no ato da narração. Graças a esse dispositivo paradoxal, o autor torna difusa a distinção entre o real e o fictício. A tática ressalta igualmente a íntima associação entre o autor e a obra de ficção. A medida que a ficção é o veículo por meio do qual o autor fala, a voz do autor não pode mais ser separada da história de ficção.

A ficção pós-moderna justapõe reiteradas vezes dois ou mais mundos puros e autónomos. Nesse caso personagens que habitam a literatura estão sempre em dúvida quanto ao mundo em que estão e não têm segurança sobre como neste "encontro imediato".

Aqui, como em outros géneros, o uso da técnica pós-modema da justaposição tem o mesmo objetivo especificamente antimodernista. O propósito do autor modernista era a obtenção de um certo controle sobre a realidade complexa, não obstante singular. Os pós-modernos, diferentemente,  suscitam perguntas acerca da coexistência e da interpenetração de realidades tão diferentes.

A exemplo de outras expressões culturais pós-modernas, a literatura enfoca a contingência e o caráter temporal, negando implicitamente o ideal moderno de uma verdade atemporal e universal. A ficção pós-modema realça também a atenção sobre o temporal para deslocar o leitor em sua tentativa de observar o mundo de um ponto estratégico fora do tempo. Os autores pós-modernos querem deixar nu o leitor num mundo destituído de essências eternas imunes ao fluxo do tempo e às contingências do contexto temporal.

Ás vezes, os autores pós-modernos conseguem o mesmo efeito ao orporarem uma linguagem que quebra as estruturas de pensamentos ihados ou coloca em dúvida os cânones da razão como meio de negação de que qualquer discurso seja capaz de apresentar, em última alise, um relato do real.

Talvez a representaçâo-Jnais-bem-acabada da ficção moderna seja a historia de detetive. Obras de  ficção, tais como as aventuras de Sherlock Holmes, conduzem o leitor a uma busca da descoberta da verdade oculta debaixo da superfície perplexa da realidade. A despeito do número aparentemente insuficiente de pistas, os detetives experientes parecem sempre capazes de resolver finalmente o mistério. Geralmente, de modo quase que condescendente, eles revelam ao público (representa-do no texto por algum observador atónito, como, por exemplo, o Dr. Watson nas histórias de mistério de Sherlock Holmes) que os poderes humanos da observação e da razão aplicados aos fatos da situação conduziram inevitável e logicamente à conclusão correta. Assim, a narrativa aparentemente desconexa torna-se um todo unificado.

Uma forma típica de ficção pós-moderna é o romance de espionagem. Embora situado no contexto do mundo “real” contemporâneo, esse tipo de narrativa, na verdade, justapõe dois mundos radicalmente opostos.  O mais óbvio deles é o remo da aparência, que parece refletir o real mas que, não raras vezes, revela-se ilusório. Nos porões deste reino e em seu próprio âmbito de ação temos um segundo reino, um pouco mais sinistro, embora, de modo geral, seja mais autêntico do que o mundo "real".

Ao justapor esses dois reinos, a história mantém o leitor num estado de contínua incerteza. Será que essa pessoa é de fato quem diz ser? O que é efetivamente real e verdadeiro, e o que é engano e perigo?

A história jeespionagem leva-nos a levantar as mesmas perguntas sobre nosso próprio mundo. Será que também estamos vivendo entre dois mundos justapostos.9 Será que as pessoas e os acontecimentos à nossa volta são de fato o que aparentam ser?

A ficção científica é um género pós-moderno um pouco menos sutil. Sua rejeição à busca moderna é mais explícita. De modo geral, as histórias de ficção científica estão mais interessadas na exploração da alteridade do que na descoberta da verdade. Elas unem outros mundos ou outras realidades conflitantes a fim de ressaltar suas diferenças.

A ficção científica leva-nos a fazer as perguntas filosóficas sobre nosso mundo: o que é a realidade? O que é possível? Que forças estão efetivamente em ação?

Pós-modernismo como Fenómeno na Cultura Popular

A maioria de nós, provavelmente, teve seu contato mais direto com o pós-modernismo por meio da ficção científica e das histórias de espionagem, uma vez que é intensa sua penetração na cultura popular de hoje em dia. Todavia, graças à nossa imersão em nosso mundo, estamos continuamente expostos —e somos até mesmo bombardeados—, de modo inconsciente, pelo espirito pós-moderno.

Em certo sentido, a exposição ao espírito pós-moderno por intermédio da cultura popular é, por si só, característico do pós-modernismo. A recusa de elevar a "arte sofisticada" acima da cultura "pop" é um traço distintivo da pós-modernidade. O pós-modernismo é o único movimento, dentre os movimentos de vanguarda, cujo apelo não se dirige à elite artística, mas a todos aqueles envolvidos em atividades da vida cotidiana por meio da cultura popular e dos meios de massa.

Nesse sentido, as obras pós-modernistas frequentemente apresentam outro tipo de código dúplice. Elas falam uma linguagem e usam elementos acessíveis ao homem comum, bem como aos artistas e arquitetos profissionais. Assim, as expressões pós-modemas unem os reinos do profissional e do popular.

A Industria Cinematográfica como Elemento Fundador da Cultura Pós-moderna

Determinados desenvolvimentos tecnológicos facilitaram a penetração do pós-modernismo na mais influente das dimensões da cultura popular. Uma das mais significativas dessas dimensões foi o desenvolvimento da indústria do cinema.

A tecnologia da indústria cinematográfica adapta-se ao espírito pós-moderno à medida que seus produtos —filmes— dão a ilusão de ser o que não são. O filme parece ser uma narrativa unificada apresentada por um grupo específico de atores, porém, na realidade, trata-se de produto tecnológico montado por uma gama de especialistas com base numa série de materiais e em diversas técnicas que raramente aparecem de modo explícito no filme. Nesse sentido, a unidade do filme é, em grande medida, ilusória.

Por exemplo, o filme distingue-se da produção teatral porque quase nunca registra uma apresentação única de um grupo de atores. O que o espectador vê como representação contínua, coerente, na verdade, é um tipo de resíduo que emerge de uma sequência de eventos —a produção do filme— fragmentados no tempo e no espaço.

As próprias cenas participam da "farsa". O que parece ser uma narrativa contínua do começo ao fim é, de fato, uma compilação de eventos filmados várias vezes em diversas locações. Na realidade, a sequência em que as cenas são dispostas no filme raramente refletem a ordem em que foram filmadas. A unidade do filme, seja ela qual for, é imposição do diretor, responsável pela montagem das sequências que resultam no produto acabado.

Os personagens também não são necessariamente representados pêlos mesmos atores durante todo o filme. Os cineastas há muito empregam dubles, por exemplo, na filmagem de cenas perigosas. As novas tecnologias possibilitam a edição de estruturas individuais do filme para a inserção de imagens duplicadas de um ator, de atores antigos em novas produções, e até mesmo de imagens totalmente geradas por computador.

No fim das contas, o filme a que assistimos é o produto de uma tecnologia. Diferentes equipes utilizam a fotografia e outros métodos para a montagem de um vasto material combinado, a seguir, pelo editor (com a ajuda de outras técnicas para a preservação da ilusão) cujo objetivo é produzir o que parece ao espectador um todo unificado.

Porém, contrariamente à produção teatral, o filme deriva sua unidade da tecnologia e não da contribuição de atores humanos.

Uma vez que a unidade de um filme depende de técnicas do processo de filmagem e não da narrativa em si mesma, os cineastas têm considerável liberdade para fragmentar e manipular a história de diversas maneiras. Eles podem, por exemplo, justapor cenas em que aparecem tópicos e temas incompatíveis extraídos de sequências filmadas em locações separadas pelo espaço e pelo tempo sem comprometer a unidade do todo.

Os cineastas pós-modernos deleitam-se em pôr abaixo o espaço e o tempo transformando-os num aqui e agora sem fim. Seus esforços nesse sentido são facilitados por um número crescente de filmes previamente filmados de onde podem fazer extrações de todos os tipos para aumentar as novas sequências. Assim é que vemos Humphrey Bogart em cenas de £Lúlíimo zrande herói^ Groucho Marx num comercial de Pepsi Diet. A nova tecnologia promete tomar possível, cada vez mais, as fusões desconexas do "mundo real" com outras realidades em processos, tais como a justaposição de desenho animado e personagens huma-

nos em Uma cilada para Roger Rabbit, um grande sucesso de bilheteria.

A capacidade de justapor diversas sequências de modo que o espectador veja um todo integrado dá ao cineasta uma oportunidade única de obscurecer as distinções entre "verdade" e "ficção", "realidade"; e "fantasia". Os cineastas pós-modernos têm explorado essas possibilidades de expressão do espírito pós-moderno. Por exemplo, os filmes pós-modernos tratam o puramente fictício e fantástico com a mesma seriedade que o real (e.g., em Feitiço do tempo). Eles conferem a uma história totalmente fictícia um ar de documentário (por exemplo. Os deuses devem estar loucos). Misturam fragmentos do registro histórico com a especulação e passam o resultado final como se fosse históricamente exato (por exemplo, JFK). Utilizam técnicas de filmagem para colocar lado a lado mundos totalmente incongruentes habitados por personagens que não têm certeza sobre o que é real (por exemplo, Veludo azul).

Viver numa sociedade pós-modema significa habitar um mundo semelhante ao do cinema —um reino em que a verdade e a ficção se fundem. Olhamos para o mundo do mesmo modo que assistimos aos filmes, com a suspeita de que o que vemos à nossa volta talvez seja, na verdade, ilusório. Apesar das disjunções do filme, o observador pode ao menos ter certeza de que ele expressa algo relativo às mentes que o produziram; o cineasta contribui, frequentemente, para com um centro desamparado no mundo criado pelo filme. Por outro lado, quando observam o mundo, os pós-modernos não têm certeza de que haja uma Mente por trás dele.

A Televisão e a Disseminação da Cultura Pós-moderna

E provável que a tecnologia da indústria cinematográfica tenha colaborado para a fundação da cultura "pop" moderna, porém, a televisão mostrou ser um veículo mais eficiente para a disseminação do espírito pós-moderno por toda a sociedade

De certo modo, a televisão é simplesmente o meio mais eficaz atualmente para que os criadores do "filme" o entreguem ao público. Grande parte da programação da televisão consiste simplesmente em transmitir o que uma miríade de cineastas produzem com formatos diversos, de comerciais curtos a minisséries. A televisão é um meio por intermédio do qual o filme invade o dia-a-dia de milhões de pessoas e, nesse sentido, pode ser vista como um simples prolongamento da indústria do cinema.

Todavia, além de sua ligação com o cinema, a televisão apresenta características que lhe são peculiares. Em alguns aspectos a TV é mais flexível do que o cinema. Um filme é um produto estático e acabado. A televisão pode ir além disso e apresentar programas ao vivo. A câmera de televisão pode dar aos espectadores um panorama dos eventos que estão ocorrendo em quase todas as partes do mundo.

Essa possibilidade de proporcionar ao telespectador uma transmissão ao vivo de um acontecimento leva muita gente a crer que a televisão apresenta eventos reais em si mesmos —sem interpretação, edição ou comentário. Por esse motivo, a televisão tornou-se rapidamente o "mundo real" da cultura pós-moderna; a reportagem televisiva despontou como o novo teste do que é real. Muitos espectadores não consideram algo importante a menos que apareça na CNN, no Sixty Minutes (telej ornai diário de grande audiência) ou nas minisséries feitas para a televisão. Tudo o que não passar pelo "teste ontológico" de ser levado ao ar pela televisão é relegado à periferia da vida na sociedade contemporânea.

A televisão oferece a possibilidade de transmissão ao vivo dos fatos" que acontecem em nosso mundo e a disseminação dos produtos resultantes da originalidade do poder criativo do cineasta. Essa dupla possibilidade reveste a televisão de um poder singular. Ela tem a capacidade de justapor a "verdade" (aquilo que o público apreende como caso verdadeiro) e a "ficção" (aquilo que o público apreende como algo que jamais ocorreu no mundo "real") de uma maneira que é impossível ao cinema. Na verdade, a televisão contemporânea realiza essa façanha continuamente. Acontece, por exemplo, toda vez que uma transmissão Ao vivo é interrompida para "uma palavra do nosso patrocinador".

A televisão vai além da capacidade do filme no que se refere à concretização do espírito pós-moderno também em outro sentido. De fato, as transmissões da televisão comercial apresentam ao espectador uma variedade desmedida de imagens incompatíveis. O típico telejomal notumo, por exemplo, bombardeia o espectador com uma série de imagens desconexas em rápida sucessão —uma guerra num país remoto, um homicídio na vizinhança, um trecho de um discurso político, o  último escândalo sexual, uma nova descoberta científica, destaques de um evento esportivo. Essa colagem é entremeada de anúncios sobre pilhas, sabonetes, cereais e férias melhores. Ao dar a todas essas imagens variadas —histórias de cunho noticioso bem como propagandas— um tratamento praticamente igual, a transmissão deixa a impressão de que todas têm importância relativamente igual.

noticiário é seguido de uma pletora de programas no horário nobre que procuram atrair e segurar a audiência enfocando temas voltados para a ação, escândalo, violência e sexo. As comédias de situação e os dramas parecem ter o mesmo peso que as histórias mostradas horas antes pêlos noticiários. Assim, a televisão toma difusa a fronteira entre a verdade e a ficção, entre o que é verdadeiramente importante e o trivial.

Uma vez que a programação de um único canal não é suficiente para proporcionar ao telespectador uma quantidade suficiente de imagens desconexas, a televisão contemporânea oferece a seus espectadores dúzias —em breve serão centenas— de canais diferentes. As transmissões a cabo e via satélite colocam à disposição do telespectador uma variedade incrível de programas à sua escolha; de posse do controle remoto, pode-se trafegar incessantemente por uma terra árida em busca de algo interessante —um noticiário, uma luta de boxe, um relatório financeiro, um filme antigo, a previsão do tempo, um comediante, um documentário, um informativo comercial, ou qualquer outra coisa dentre as várias que pululam no vasto mar das comédias de situações, séries policiais, westerns, novelas, seriados médicos e outras reprises do acervo de mais de quatro décadas de programação televisiva.

Ao proporcionar essa colagem de imagens, a televisão, sem querer, coloca lado a lado o irreconciliável. Além disso, oblitera a distinção entre o espacial e o temporal. Fundem-se, assim, o passado e o presente, o distante e o local, unindo-se todas as coisas numa perpétua presentificação. —o "presente" do telespectador. Desse modo, a televisão manifesta intrinsecamente o que alguns críticos vêem como as duas características centrais dos textos pós-modernos: ela demole a fronteira entre o passado e o presente, situando o espectador num presente perpétuo.

Muitos observadores sociais falam da televisão como a representante da condição psicológica e cultural pós-moderna. A TV apresenta uma infinidade de imagens que são prontamente apartadas de sua referência com o real; imagens que circulam e interagem continuamente e sem um fluxo central preciso.

cinema e a televisão acabam de ganhar um novo canal de informação cada vez mais popular —o computador pessoal.

advento da "tela" —seja do cinema, da televisão ou do computador— sintetiza como o pós-modernismo embaralha o contraste tradicional entre o eu subjetivo e o mundo objetivo. A tela não é simplesmen-

te um objeto externo para o qual olhamos. O que acontece na tela não é algo totalmente alheio a nós (alguma coisa que simplesmente aparece na tela ), tampouco algo que nos seja indiferente por completo; sua ocorrência, isto sim, parece se dar em algum ponto entre os dois. A tela nos conduz ao seu mundo da mesma forma com que penetra o nosso. Do mesmo modo como os acontecimentos da tela se tomam uma extensão de nós mesmos, também nos tomamos uma extensão dela. A tela, porrtanto, toma-se uma forma personificada de nossos mundos psíquicos.

Viver na era pós-modema significa habitar um mundo criado pela justaposição de diversas imagens. O mundo da tela confunde as imagens indistintas num presente fragmentado; os pós-modernos comprometidos com esse mundo continuam na dúvida se não seria ele nada mais do que imagens difusas.

Outras Expressões do Pós-modernismo na Cultura "pop"

cinema talvez tenha tomado possível a cultura popular pós-modema, e a televisão possivelmente disseminou essa cultura, mas o rock, tudo indica, é a forma mais representativa da cultura "pop" pós-modema. As letras de várias músicas de rock fazem eco aos temas pós-modernos, porém, a associação entre o rock e a cultura "pop" pós-moderna é mais profunda. O rock encarna a marca central da pós-modernidade: seu enfoque duplo no global e no local.

rock contemporâneo desfruta atualmente de um público global que o reveste de capacidades de unificação de todo o mundo. Basta que nos lembremos de seus fãs internacionais, que permitem aos astros mais populares do rock realizarem "turnês mundiais" altamente lucrativas. Ao mesmo tempo, porém, o rock conserva um sabor local. Nas apresentações das grandes estrelas, e também nas de pequenas bandas locais, o rock reflete uma pluralidade de estilos tomados de empréstimo de formas musicais locais e étnicas.

Igualmente significativa como personificação do espirito pós-moderno é a vinculação com a produção eletrônica que o rock compartilha com a televisão e o cinema. Uma dimensão crucial da cultura do rock é a performance ao vivo de seus astros mais populares. Todavia, a experiência atual "ao vivo" não apresenta mais a forma tradicional de um concerto íntimo em que o artista procura se comunicar diretamente com a plateia. O mais das vezes, o show de rock consiste naquilo a que alguns observadores referem-se como "intimidade fabricada com a  massa".

concerto de rock contemporâneo é um evento tipicamente de massa com públicos que se contam na casa das dezenas de milhares. Grande parte dos fãs presentes ao show ficam longe demais dos artistas para poder vê-los claramente no palco. Mesmo assim, essas pessoas ainda são capazes de "vivenciar" aquele acontecimento. A apresentação chega-lhes por intermédio de gigantescas telas de vídeo em que são mostrados doses do artista. Essa técnica anula e dá nova ênfase, a um só tempo, à distância real existente entre o artista e a plateia. Os fãs, exultantes, sentem-se próximos de seu herói, a despeito do fato de que a presença do artista é artificial, já que mediada por uma tela. A tecnologia transforma a intimidade de uma "apresentação ao vivo" num  grande encontro de fãs que assistem juntos aos "vídeos" enquanto são bombardeados com efeitos especiais.

A tecnologia ofusca também a distinção entre a apresentação original e a sua reprodução. Ela fragmenta a distinção entre o "ao vivo" e as dimensões reproduzidas da experiência musical. Na verdade, a apresentação já não é mais uma realidade separada que se acha por detrás de um contexto específico em que ocorre. Ela é, de fato, uma mistura do que os artistas fazem e uma reprodução tecnológica de suas ações. A apresentação surge emaranhada na tecnologia que a comunica ao público.

Talvez mais sutil do que a interação entre o pós-modernismo e o rock seja a presença do espírito pós-moderno nos estilos de vestuário contemporâneo. As modas pós-modernas revelam as mesmas tendências encontradas em outras expressões culturais "pop". Isso é visível na popularidade de roupas que exibem de maneira explícita suas griffes e etiquetas de fabricação como, por exemplo, um detalhe que desfaz a diferenciação entre moda e propaganda.

A perspectiva pós-moderna é evidente, sobretudo, no que se chama "bricolagem". Num claro desafio à tentativa tradicional de coordenar as peças individuais do vestuário num "visual" coerente, o estilo pós-moderno justapõe, propositalmente, elementos incompatíveis ou heterogêneos, tais como roupas e acessórios pertencentes as duas últimas décadas.

Como em outras expressões do pós-modernismo, a combinação de elementos da moda tradicionalmente incompatíveis não é feita aleatoriamente. Trata-se de algo calculado com o objetivo de produzir um efeito irônico ou para parodiar as regras modernas do vestuário, ou talvez a indústria da moda moderna como um todo.

A cultura "pop" de nossos dias reflete o pluralismo sem centro definido da pós-modernidade e dá expressão ao anti-racionalismo pós-moderno. Como mostram as roupas que usam e as músicas que ouvem, os pós-modernos não estão mais convencidos de que seu mundo tenha um centro definido ou que a razão humana seja capaz de perceber alguma estrutura lógica no universo. Em seu mundo não há mais distinção entre a verdade e a ficção. Conseqüentemente, tornam-se coletores

de experiências, repositórios da transitoriedade, imagens fugazes produzidas e modeladas pela diversidade das formas de mídia inerentes à sociedade pós-modema.

pós-modernismo assume formas diversas. Ele aparece personificado em certas atitudes e expressões que tocam o dia-a-dia de inúmeras pessoas da sociedade contemporânea. Tais expressões vão da moda à televisão e compreendem aspectos penetrantes da cultura popular, como por exemplo a música e o cinema. O pós-modernismo está também encarnado numa variedade de expressões culturais que incluem a arquitetura, a arte e a literatura. Mas o pós-modernismo é, sobretudo, uma perspectiva intelectual.

pós-modernismo rejeita a idéia do erudito solitário nascido do Iluminismo. Os pós-modernos denunciam a pretensão dos que declaram ver o mundo de um ponto de vista estratégico com base no qual se acham capacitados a falar categoricamente à humanidade e em nome dela. Os pós-modernos substituíram esse ideal do Iluminismo pela crença de que todas as reivindicações à verdade —e, em última análise, à verdade em si mesma— estão condicionadas socialmente.

Cosmovisão Pós-modema

pós-modernidade talvez tenha surgido em St. Louis, numa tarde de julho de 1972, porém, foram necessários sete anos até que se tomasse um elemento da paisagem intelectual.

Em 1979, o Conseil dês Universities do governo de Quebec (Canadá) solicitou a elaboração de um relatório sobre "o conhecimento nas sociedades de mais alto grau de desenvolvimento". Para isso, foi requisitada a colaboração de Jean-François Lyotard, filósofo francês do Institute Polytechnique de Philosophie da Université de Paris, em Vincennes, França. Sua resposta veio na forma de um ensaio curto cujo título, despretensioso, era The postmodern condition: a report on knowledge [A condição pós-moderna: um relatório sobre o conhecimento].

A publicação de A condição pós-moderna colocou o pós-modernismo no mapa intelectual. O mérito do livro não se deve tanto ao fato de ter iniciado a discussão, e sim à descrição que faz, de maneira acessível, da revolução de perspectiva que permeia o fenômeno cultural em todo o mundo ocidental, bem como da base teórica e filosófica da visão moderna.

Mas, qual a perspectiva intelectual que dá sustentação a essa nova atitude na cultura ocidental e na sociedade? Da ótica de seu programa intelectual, o pós-modernismo denota uma nova maneira de ver a realidade. Trata-se de uma revolução tanto de nosso entendimento acerca do conhecimento quanto de nossa visão da ciência.

Pós-modernismo e Conhecimento

Conforme já observamos, o pós-modernismo desafia a descrição definitiva. Seja lá o que for além disso, ele implica a rejeição radical da perspectiva intelectual moderna. Trata-se de uma revolução no conhecimento. De modo mais específico, a era pós-moderna marca o fim do "universo" —o fim da cosmovisão que a tudo abrange.

Em certo sentido, os pós-modernos não possuem cosmovisão alguma. No centro do pós-modernismo há uma negação da realidade de um mundo unificado como objeto de nossa percepção. Os pós-modernos rejeitam a possibilidade da construção de uma cosmovisão única correia e contentam-se simplesmente em falarem de muitas visões e, conseqüentemente, de muitos mundos.

Ao substituir a cosmovisão moderna por uma multiplicidade de visões e de mundos, a era pós-moderna, na verdade, substituiu o conhecimento pela interpretação.

Pós-modernismo como Fim do "Mundo"

 

A perda da cosmovisão moderna assinala o fim do mundo objetivo do projeto iluminista.

De fundamental importância para a perspectiva moderna é a suposição da existência de um mundo objetivo à nossa volta. A cosmovisão moderna supõe que a realidade seja ordenada e que a razão humana é capaz de discernir essa ordem à medida que se manifesta nas leis da natureza. O projeto do Iluminismo baseia-se na suposição de que o caminho para a realização humana dá-se primordialmente pela descoberta e utilização dessas leis em prol da humanidade.

pós-modernismo rejeita a compreensão de nosso conhecimento do mundo que está na base do projeto do Iluminismo e da modernidade. Especificamente, a era pós-moderna abandonou a noção de um mundo objetivo.

Esse abandono do conceito do mundo objetivo resulta da rejeição pós-modema de um entendimento realista do conhecimento e da verdade em favor de um entendimento irrealista. Isto é, passamos de uma perspectiva "objetivista" para uma perspectiva construcionista.

Na maior parte do cotidiano, agimos segundo uma compreensão "objetivista" do mundo, do conhecimento e da verdade. Na realidade, aceitamos esse "bom senso" do mundo como evidente em si mesmo. Supomos que o mundo é objetivamente real, que ele manifesta uma ordem inerente a si mesmo e independente da atividade humana. A maioria de nós supõe que a mente humana seja capaz de refletir, de modo mais ou menos correio, essa realidade externa e não-humana; muitos de nós supomos também que a língua, como produto da mente humana, seja um meio adequado para comunicar a nós mesmos, e a outras pessoas, o que pensamos a respeito do mundo.

Ao fazer essas suposições "objetivistas", agimos segundo o que se designa como teoria da correspondência da verdade. De acordo como essa teoria, as afirmações ou são verdadeiras ou são falsas e nós somos capazes de determinar se são falsas ou verdadeiras comparando-as com o mundo. Se você disser: "Há uma torta de maçã na geladeira", basta que eu olhe na geladeira para avaliar se a afirmativa é falsa ou verdadeira. Ao agir com base em suposições "objetivistas", o realista define a verdade como a correspondência entre nossas afirmações e o mundo objetivo em relação ao g uai nossas fazemos.

entendimento "objetivista" geralmente funciona bem na vida cotidiana. Os realistas do Iluminismo, porém, não param por aí: eles universalizam essa abordagem numa teoria geral da verdade. Ao menos teoricamente, afirmam eles que a mente humana é capaz de apreender a realidade como um todo e, portanto, podemos elaborar uma descrição verdadeira e completa sobre a realidade do mundo. Esses teóricos estendem os limites da "realidade" que acreditam sermos capazes de captar e agregam a ela não somente os objetos do dia-a-dia que nos rodeiam, mas também o reino da natureza em conformidade com as explorações efetuadas pelas ciências naturais. Para eles, é-nos possível atingir um conhecimento seguro em todos os domínios do questionamento humano, inclusive no da história, a qual definem como o estudo da humanidade enquanto centro do cosmos.

Os pensadores pós-modernos já não acham mais possível concretizar esse grande ideal realista; Eles rejeitam a suposição sobre a qual ela se baseia —a saber, que vivemos em um mundo feito de objetos físicos facilmente identificáveis por suas propriedades inerentes. Para os pós-modernos, não deparamos simplesmente com um mundo "lá fora"; na verdade, construímos o mundo utilizando conceitos que trazemos para; ele. Eles afirmam que não dispomos de nenhum ponto estratégico —além de nossa própria estruturação do mundo— com base no qual poderíamos ter uma visão objetiva da realidade, qualquer que seja ela, do mundo lá fora.

realista do Iluminismo supõe também que exista um relacionamento simples e individual entre as partes da linguagem que usamos para descrever o mundo e as partes do mundo que buscamos conhecer. Os linguistas do século XX dizem que esta suposição é falsa. Simplesmente não casamos partes da linguagem com partes do mundo, tampouco uma determinada linguagem fornece um "mapa" preciso do mundo. As linguagens são convenções sociais que mapeiam o mundo de diversas maneiras, dependendo do contexto em que estamos falando.

Ludwig Wittgenstein era da opinião de que todas as palavras ("significadores lingüísticos*') estão embutidas em "jogos lingüísticos". Cada "jogo" lingüístico é definido por um sistema de regras que governam a maneira como as palavras são usadas naquele contexto. Nesse sentido, a linguagem se parece com um jogo de xadrez, por exemplo, cujas regras determinam a forma de movimentação das peças. Uma implicação importante dessa visão consiste no fato de que vários de nossos jogos de linguagem colorem e alteram a maneira como vivenciamos o mundo.

Tais reflexões levam os pensadores pós-modernos a abandonarem a visão realista em prol de uma visão não-realista ou construcionista. Os construcionistas enfatizam o papel da linguagem como facilitadora de acesso ao mundo. Para eles, o que chamamos "mundo real", na verdade, é uma criação social em constante mudança. Nosso mundo é "simbólico", é uma realidade social que edificamos por intermédio da linguagem de que compartimos. Dizemos que a neve é branca, que o céu é azul e que a grama é verde, porque escolhemos desse modo nossas categorias. Porém, em virtude do fato de que nosso contexto social está em constante mutação, os significados —e, conseqüentemente, o mundo que vemos graças à linguagem— estão igualmente em constante modificação.

Outro fator deu também sua contribuição para o aniquilamento da compreensão "objetivista". A postura do Iluminismo manteve sua credibilidade durante o tempo em que os ocidentais acreditavam que a sua civilização era a mais avançada do mundo. Os modernos simplesmente supunham que toda a humanidade viria finalmente apreciar e luta pela consecução dos benefícios do ideal ocidental. Na era pós-modema entretanto, esse sonho perdeu sua credibilidade: tornou-se vítima do fenômeno a que muitos chamam "globalização". Hoje em dia, as pessoas no Ocidente são confrontadas por uma variedade de culturas sendo que cada uma delas valoriza suas próprias crenças e sua própria visão do mundo.

Nossa situação globalizada e pluralista subverteu a visão do Iluminismo. Os pós-modernos argumentam que não podemos mais, que não é racional, atermo-nos à perspectiva da descoberta de um mundo único, simbólico e universal capaz de unir a humanidade num nível mais profundo do que o de nossas evidentes diferenças. Em vez disso, dizem eles, devemos enfrentar o fato de que vivemos num mundo de "múltiplas realidades". Diferentes grupos de pessoas constroem "histórias" distintas sobre o mundo com que deparam. Essas línguas diferentes, por sua vez, facilitam os diferentes modos de experimentar a vida. Conseqüentemente, as pessoas não compartilham meramente opiniões políticas e crenças religiosas diferentes; na verdade, habitam mundos diferentes no que se refere às questões básicas da identidade pessoal, do tempo e do espaço.

A compreensão pós-modema do conhecimento, portanto, ergue-se sobre duas suposições fundamentais: (l) os pós-modernos encaram toda explicação da realidade como construções úteis, mas não objetivamente verdadeiras; e (2) negam que tenhamos condições de alçarmos vôo fora de nossas construções da realidade.

Conseqüentemente, a perspectiva pós-moderna constitui-se num ataque ao moralismo em nome da razão. Uma vez que não nos é possível ver o mundo separadamente das estruturas que trazemos a ele, prossegue o raciocínio, somos incapazes de medir nossas teorias e proposições em relação a um mundo externo e objetivo. Pelo contrário, as teorias que inventamos criam os diferentes mundos em que vivemos.

Com base nesse tipo de argumentação, o pós-modernismo ergueu-se das supostas ruínas de uma teoria que sustentava todo o projeto moderno. Os pós-modernos adotaram uma visão pluralista do conhecimento. Tendo rejeitado a noção de um mundo único e objetivo como tal e, efetivamente, qualquer outra base única por meio da qual julgar a validade do pensamento e do conhecimento, os pós-modernos têm demonstrado um desejo de permitir que existam, lado a lado, construções concorrentes e aparentemente conflitantes. Para eles o ponto em questão não é "Será que esta proposição ou teoria está correia?", e sim "O que ela faz?" ou "Qual é o resultado?"

Alguns estudiosos pós-modernistas vêem a si mesmos como precursores da morte do realismo e responsáveis por trazer à luz os modos pêlos quais os conceitos geralmente assumidos como de bom senso ou universais são, na verdade, construções culturais. Se a linguagem fabrica de fato o significado (ao invés de revelar um significado objetivo já presente no mundo), segue-se que o trabalho do estudioso é desfazer ("desconstruir") esse processo de construção do significado. Ao desconstruir esses conceitos influentes, talvez possamos libertar nossos pensamentos e ações de seu domínio.

A perspectiva pós-moderna, semelhantemente, exige uma "sala de aula pós-pedagógica". O ensino não é mais a mera transmissão de uma disciplina do conhecimento que se antepõe à experiência educacional; em vez disso, ele deve abranger a produção ativa (bem como a desconstrução) do significado.

O Pós-modernismo como Fim de uma "Metanarrativa"

No centro do projeto iluminista está o desejo de explorar o mundo (bem como a humanidade) tal como se apresenta em si mesmo, à parte dessa atividade exploratória do homem. O explorador moderno descreve o mundo tomando como referência as "leis" universais ou princípios que governam a ação, supondo assim que a compilação dessas leis constituam o conhecimento do mundo.

Os arquitetos da modernidade criam que estavam construindo uma nova sociedade fundamentada exclusivamente na racionalidade universal. Seu propósito era o de ultrapassar guerras e conflitos, os quais acreditavam ser o resultado inevitável dos mitos e dos dogmas religiosos dos povos pré-modernos. Para a perspectiva moderna, o programa iluminista da descoberta era totalmente objetivo, isento da dependência pré-moderna dos mitos e histórias que explicavam o mundo. Os modernos acreditavam ser capazes de observar o mundo tal como ele realmente é. Na concepção pós-modernista, tal coisa não passa de ilusão.

A rejeição pós-moderna dessa arrogância do Iluminismo desenvolveu-se com base nas mutações por que passavam as percepções em várias sociedades. A medida que adentravam o século XX, os antropólogos tornavam-se cada vez mais cientes da importância fundadora dos mitos na sociedade humana. Alguns eruditos argumentavam que os mitos eram mais do que simples histórias contadas pelas culturas primitivas; na verdade, eles eram a encarnação do principal núcleo dos valores e das crenças de uma cultura num sentido fundamentalmente religioso. Sua pesquisa levou-os à conclusão de que todas as sociedades são entretecidas por um sistema de mitos e que estes preservamos relações sociais dando forma à sua reivindicação de legitimidade.

Os pensadores pós-modernos referem-se a esses sistemas de legitimação de mitos como "narrativas" (ou "metanarrativas"). Para eles, a narrativa exerce uma força à parte da argumentação e da prova e, na verdade, é ela que proporciona o principal meio por intermédio do qual toda comunidade legitima-se a si mesma.

A perspectiva moderna afirma ter substituído os mitos por postulados racionais, todavia, os pós-modernos afirmam que o projeto iluminista depende do atrativo da narrativa. O método científico que deu origem à modernidade, argumentam eles, nasceu de uma interpretação da  narrativa cristã que fala de um Deus racional, criador do universo e seu soberano. A era moderna via-se a si mesma como a personificação de uma narrativa do progresso —um mito que legitimou a invenção tecnológica e o desenvolvimento econômico como meio de criação de um mundo melhor para todos os seres humanos. Durante algum tempo, essa história foi desafiada por uma variante —a narrativa marxista de uma revolução inevitável que conduziria à utopia do socialismo internacional. No entanto, prosseguem os pós-modernos, em momento algum os modernos realmente se libertaram da força direcional do mito.

De acordo com pós-modernos como Lyotard, o declínio da modernidade não foi resultado de falta de fibra, ou de uma incapacidade de manter a fé em postulados racionais e não em mitos. Na verdade, sua ocorrência se deve ao fato de que as grandes narrativas que legitimavam a sociedade moderna vêm perdendo sua força. Tal situação não é de forma alguma incomum. Na verdade, a História pode ser vista como uma série de transições de um mito definidor para outro; é inevitável que as narrativas mais antigas desapareçam e cedam seu lugar para as novas.

que toma nossa condição "pós-modema" não se restringe somente ao fato de que as pessoas não se agarram mais aos mitos da modernidade. A perspectiva pós-modema implica o fim do apelo a qualquer mito legitimador dominante, seja ele qual for. As principais narrativas predominantes não somente perderam sua credibilidade, como também a idéia de uma narrativa grandiosa já não desfruta de crédito algum. Tomamo-nos não apenas cientes de uma pluralidade de histórias legitimadoras de conflitos, como entramos igualmente na era da morte da metanarrativa. Na era pós-modema, todas as coisas são "deslegitimadas". Conseqüentemente, a perspectiva pós-moderna requer uma investida contra tudo o que reivindica para si a universalidade —ela requer, na verdade, uma "guerra contra a totalidade".

A morte da grande narrativa significa que não buscamos mais um sistema único de mitos capaz de unir os seres humanos e toma-los um só povo ou de fazer do globo um "mundo" único. Embora tenham-se desviado de qualquer metanarrativa, os pós-modernos continuam a preservar as narrativas locais. Todos nós vivenciamos um mundo no contexto das sociedades em que vivemos, por isso, os pós-moderna continuam a construir modelos (ou "paradigmas") que lhes sirvam de guia em sua experiência em tais contextos.

Uma vez que percebem a vida como drama ou narrativa, suas principais preocupações têm a ver com o processo de fabricação das histórias que definem a identidade pessoal e dão propósito e forma à existência social. Os pós-modernos continuam a rejeitar a ilusão modernista —negam que os modelos modernistas representem a realidade— mas, por uma questão prática, admitem que esses modelos continuam a servir como "ficções úteis" na vida cotidiana.

O Pós-modernismo como Fim da Ciência

Lyotard define a condição pós-moderna como o fim da grande narrativa. Conforme já pudemos observar, sua reflexão acarreta implicações importantes para todos os aspectos da sociedade humana e para nossa compreensão do conhecimento. A principal preocupação de Lyotard, contudo, refere-se àquela dimensão que tem exercido uma influência formadora mais significativa do que qualquer outra na era moderna—a empresa científica. O pós-modernismo, diz ele, assinala o fim da ciência.

A ciência moderna surgiu, em parte, do desejo de dissipar do reino do conhecimento as crenças "pré-científicas", os mitos e histórias que os povos primitivos empregavam para falar sobre o mundo. No centro do método científico acha-se a dissolução de todo apelo a tais narrativas cujo propósito é a legitimação do conhecimento. O pós-modernismo marca o fim dessa tentativa.

De acordo com a avaliação pós-moderna, a ciência é incapaz de atingir seu objetivo, ou seja, a expulsão do mito do reino do conhecimento. Na verdade, a ciência deve, inevitavelmente, voltar-se ao próprio empreendimento que procura destruir —a narrativa— a fim de legitimar sua própria empresa.

Segundo Lyotard, desde a década de 1700 há duas narrativas principais que servem a esse propósito legitimador. Ambas encarnam a idéia do progresso em direção a um objetivo, proporcionando, cada uma, um fundamento unificador para as diferentes disciplinas que acolhe sob a rubrica de ciência.

A primeira delas é o mito político que legitima a ciência ao apelar para a liberdade. Todos os povos têm direito ao conhecimento científico, assevera o mito, contudo, são impedidos de alcançá-lo por sacerdotes e tiranos. Graças à ciência, a humanidade ergue-se livre e digna e emancipa-se tomando de assalto os bastiões da ignorância e da opressão.

A segunda narrativa é filosófica. Aqui, o sujeito envolvido na busca pelo conhecimento não é a humanidade, mas o conhecimento em si mesmo (ou o "espírito" ou "vida"). Essa narrativa afirma que a empresa científica é legítima porque facilita o aumento do conhecimento. Ela afirma também que as várias disciplinas científicas contribuem para a evolução gradual do conhecimento.

Ambas as narrativas legitimadoras do "avanço da ciência" fornecem a estrutura para a organização de outras narrativas "locais". Os intérpretes modernos adaptam as histórias das novas descobertas científicas ou das biografias dos heróis da tradição de acordo com essas metanarrativas. As narrativas locais ganham seu significado graças ao modo como repercutem e confirmam as grandes narrativas do progresso cientifico. O progresso da ciência une essas histórias pequenas e divergentes num todo histórico único.

De acordo com a análise de Lyotard, porém, a era do questionamento unificado chegou ao fim. Desde a Segunda Guerra Mundial, as grandes narrativas do progresso científico perderam sua credibilidade. Conseqüentemente, o apelo à ciência como categoria organizadora e unificadora está enfraquecendo. Especificamente, a noção de uma empresa científica única, subdividida em disciplinas paralelas bem definidas, está sendo substituída pela noção de um agregado de áreas de questionamento mal definidas e em constante mutação. Cada uma dessas especialidades ostenta seu próprio "jogo de linguagem" (método ou procedimento de pesquisa) e conduz seu trabalho sem recorrer a uma "metalinguagem" científica universal que una as ciências e proporcione um tribunal de recursos bem como um conjunto de princípios metodológicos confiáveis.

esfacelamento da ciência modificou o objetivo da pesquisa. Os estudiosos já não mais legitimam sua obra participando da procura do conhecimento científico. Sua meta agora é o "grau de desempenho" e não a "verdade". O patrocínio financeiro que ampara a pesquisa não tem por objetivo promover a emancipação da humanidade ou a ampliação do conhecimento; seu propósito é o crescimento de seu poder. A pergunta deixou de ser "Será verdade?" e passou a ser "Para que serve?" A questão da utilidade equivale à pergunta "Dá para vender?" ou, em contextos de ênfase no poder, "É eficiente?"

Embora reconhecendo os problemas potenciais relacionados com a perda da metanarrativa científica, os pensadores pós-modernos não lamentam a situação acarretada por essa perda. Lyotard saúda um mundo em que múltiplos jogos lingüísticos incompatíveis florescem lado a lado. Ele se alegra com o fato de que não somos mais governados pela preocupação moderna de que toda discussão deva resultar num consenso. Ele admite, de modo sugestivo, que não busca mais a reconciliação dos diferentes jogos lingüísticos

Para Lyotard, a condição pós-modema é benéfica porque intensifica nossa capacidade de lidar com a situação pluralista em que vivemos. Ela nos auxilia na tarefa de viver com as diferenças e de tolerar coisas que não podem ser reunidas num todo único. Todavia, mais importante ainda, ele antecipa que a era pós-moderna será uma época de grande inventividade. De acordo com Lyotard, a condição pós-modema fomenta a invenção porque é fruto da dissensão, e não do consenso.

Os arautos da pós-modernidade fazem coro com Lyotard na celebração do glorioso evento da morte da era moderna.

A Revolução Científica Pós-moderna

A era pós-moderná nasceu da perda da idéia moderna de "universo". Os pós-modernos não aceitam mais a validade da visão de um mundo único e integral. O espírito intelectual pós-moderno, diante disso, resiste a explicações consideradas abrangentes e válidas universalmente. Os pós-modernos tendem a valorizar a diversidade em detrimento da uniformidade, e a respeitar o local e o particular mais do que o universal. Por esse motivo, os pensadores pós-modernos não lamentam a perda da ciência como empresa unificadora. O pós-modernismo talvez seja o presságio do fim do "mundo", das "metanarrativas", e da "ciência", porém, assinala o começo de uma revolução no conhecimento.

A perspectiva pós-modema tem também outra ligação com a ciência. Em certo sentido, a visão pós-modema é o resultado final de alguns desenvolvimentos da ciência do século XX. Descobertas recentes revolucionaram o modo como os cientistas —especialmente os físicos— vêem o mundo e a natureza da pesquisa científica. No geral, esses desenvolvimentos corroeram nossa confiança numa ordem objetiva e nos absolutos conhecíveis.

A Nova Visão do Mundo Físico

A modernidade nasceu da revolução intelectual. A fagulha da dimensão científica específica dessa revolução foi lançada por Galileu (1564-1642) e atingiu o clímax com Newton (1642-1727).

A inovação de Galileu consistia em sua tentativa de interpretar o mundo de um ponto de vista estritamente quantitativo. A experiência que produz resultados quantificáveis (ou seja, números em vez de qualidades não-numéricas) tornou-se a principal técnica da empresa científica emergente. A ênfase nas medições numéricas deu aos cientistas um sentimento de que trabalhavam num campo de pesquisa que produzia conhecimento exato e sem ambigüidades Organizado em equações, tal conhecimento dá expressão a leis ou padrões no âmbito da própria natureza e, portanto, pode ser usado para predizer outras ocorrências "naturais".

impulso dado por Galileu e Newton levou os pensadores modernos a rejeitarem a visão orgânica do mundo que dominava a antiga compreensão, substituindo-a por uma compreensão mecanicista.

A perspectiva mecanicista reduz a realidade a um conjunto de elementos básicos ou de partículas e forças elementares (por exemplo, o electromagnetismo e a gravidade). Toda partícula elementar personifica uma essência que determina sua natureza e valor; cada uma delas é o que é à parte de outras partículas. Essas partículas autónomas unem-se para formar diversos tipos de "máquinas" naturais. Finalmente, segundo a visão mecanicista, esses elementos interagem uns com os outros mecanicamente —ou seja, empurram uns aos outros— porém, essas interações não afetam a natureza interior das partículas.

De posse do modelo mecanicista, os cientistas modernos ocuparam-se da tarefa de desvendar os mistérios do universo. Com base nesse modelo, que parecia oferecer uma visão incontestável do mundo, a empresa científica moderna comemorava uma descoberta após a outra. Em decorrência disso, a ciência impunha um respeito quase universal na sociedade moderna; os indivíduos modernos olhavam para os cientistas em busca de respostas para a vida e de orientação rumo ao aperfeiçoamento da condição humana.

Em meio ao maior de seus triunfos tecnológicos, contudo, determinados aspectos fundamentais da cosmovisão científica moderna foram abalados de dentro para fora. O desafio interno mais devastador veio da física, a disciplina que lhe proporcionara seu mais sólido fundamento. As descobertas em princípios do século XX puseram em dúvida a suposição moderna de que o universo apresentava uma ordem interna consistente, facilmente compreensível e imaginável pela mente humana. O modelo mecanicista, que parecera inqüestionável anteriormente, fora submetido a um fogo crescente à medida que acumulavam-se as provas de que há no universo muitas outras coisas praticamente indescritíveis e até inimagináveis.

No início do século XX, Max Planck declarou que, no nível atômico, a energia apresenta-se em "pacotes" distintos (quanta) e não em fluxo contínuo. Albert Einstein, por sua vez, observou que a luz não é somente uma onda, mas também uma torrente de grupos distintos de energia (fótons). Nieis Bohr relacionou tais fenômenos ao comportamento dos elétrons. Eles não orbitam em tomo dos núcleos atômicos a distâncias aleatórias. Pelo contrário, mantêm-se em órbitas especificas que são múltiplos de um quantum fundamental de energia. Além disso, "saltam" de uma órbita para outra à medida que a energia é aplicada ao átomo ou à medida que abandonam aquela energia. Em seguida, Louis de Broglie provou que toda matéria —inclusive o elétron— tem, a um só tempo, propriedades de partículas e similares à onda. Nascia a teoria do quantum: nossa visão do mundo nunca mais seria a mesma.

Paralelamente ao desenvolvimento da teoria quântica, houve uma outra série de descobertas a que nos referimos sob o título genérico de "teoria da relatividade". Foi graças à sua "teoria especial da relatividade" que Einstein solapou a noção aparentemente racional de que o espaço e o tempo são absolutos. Ele refutou a antiga crença de que o comprimento e o tempo podem ser medidos com base em padrões absolutos ao demonstrar que um foguete voando em alta velocidade encolherá um pouco em relação ao seu referencial fixo terrestre, e que um relógio colocado no interior desse foguete funcionará mais devagar. Essa teoria implica também que a matéria e a energia não são constates independentes, mas relacionam-se reciprocamente; uma pode ser transformada na outra de acordo com sua famosa equação: E=mc2.

A "teoria geral da relatividade" de Einstein também é de grande alcance, embora não seja tão amplamente conhecida do grande público. Segundo essa teoria inusitada, a gravidade é essencialmente uma curvatura do continuum espaço-tempo.

A exemplo da teoria da relatividade, a física quântica revela alguns dados surpreendentes sobre o universo que minam as bases do modelo mecanicista moderno e da moderna suposição acerca da certeza científica. Por exemplo, não existem modelos racionais capazes de nos ajudar a reconciliar a natureza dupla da matéria e da energia —refiro-me ao fato de que, às vezes, elas se portam como ondas e outras vezes como partículas, dependendo do modo como as examinamos. Semelhantemente, a imagem familiar de um elétron orbitando em tomo de um núcleo atômico como um planeta em torno do sol, mostrou-se totalmente inadequada para caracterizar o que realmente ocorre no nível subatômico. A física, em tal ambiente, não é tão mecânica e precisa. As provas indicam que as partículas subatômicas não se movem necessariamente de maneira contínua, por exemplo: elas podem viajar do ponto A para o ponto B sem que percorram cada um pontos existentes entre A e B. Werner Heisenberg, em seu agora famoso Princípio da Incerteza, observa que podemos determinar com segurança a posição de uma partícula subatômica ou seu momento, porém, não podemos determinar essas duas características numa partícula específica num tempo determinado. A certeza simplesmente evapora no nível subatômico, deixando-nos à mercê de probabilidades e de paradoxos apenas.

As teorias mais recentes derrubaram a idéia de um universo totalmente "substancial". O universo não consiste em partículas individuais dotadas de essências específicas em seu interior, dizem os novos físicos; as partículas elementares são, na verdade, muito mais dependentes em seu contexto —em seu relacionamento umas com as outras— do que é capaz de prever o modelo mecanicista. Efetivamente, em seu nível mais fundamental, a realidade física não parece ser composta de forma alguma por partículas de existência independente, e sim por relações dinâmicas.

A teoria do quantum exige também que admitamos as limitações da pesquisa científica. A empresa científica moderna ergue-se sobre a suposição de que o cientista aborda o universo como observador neutro O mundo é um objeto que o cientista investiga. Os físicos contemporâneos, contudo, destruíram de fato essa compreensão.

A adesão a um conjunto de procedimentos aceito pela comunidade científica pode nos garantir uma objetividade relativa da parte do observador, mas nenhum relato experimental é capaz de produzir uma observação puramente objetiva e sem envolvimentos. Nas observações realizadas no nível subatômico, fica mais fácil ver a operação do princípio geral de que o ato de observação do cientista afeta sua investigação, já que as técnicas de observação são tantas e tão complexas e os fenômenos observados tão delicados e efémeros. Parece que isso se aplica a outros tipos de observações também: não podemos separar nitidamente o objeto observado do sujeito que o observa. Com isso, cai por terra a suposição moderna de que os "fatos" estão presentes na natureza independentemente de algum observador particular. Os pós-modernos insistem em que não somos espectadores que simplesmente contemplam o mundo, e sim participantes daquilo que procuramos conhecer.

Desenvolvimentos recentes colocam também outra limitação à empresa científica. A ciência moderna foi edificada sobre a suposição de que o universo está aberto, ao menos em princípio, à descrição total e completa e de que a natureza, quando sujeita ao escrutínio da observação científica distanciada e impessoal dos fatos, produz um conhecimento objetivo sobre seus segredos mais profundos.

Quando, porém, Heisenberg formulou seu Princípio da Incerteza em 1927, firmou a existência de uma indeterminação essencial acerca de todos os fenômenos que nenhum acúmulo de observação é capaz de superar. Em certo sentido, ele firmou a idéia de que o universo, em última análise, é um mistério insondável. David Bohm produziu uma alternativa intrigante ao princípio de Heisenberg conhecido como o "potencial do quantum" —a noção de que todas as partículas estão unidas umas às outras numa gigantesca teia entrelaçada que lhes permite a cada uma saber instantaneamente o que as outras estão fazendo. Seja como for, o reino atual do físico não é mais o mundo simples de partículas independentes descritas pelo modelo mecanicista.

Os desenvolvimentos na física, desde o advento da teoria da relatividade e da física quântica, fizeram-se a um ritmo impressionante. A lista de partículas subatômicas identificadas aumentou. Os buracos negros foram descobertos. O Big Bang foi analisado em seus mínimos detalhes. Dizem-nos os físicos que vivemos numa superfície curva de um universo em expansão.

As novas descobertas levaram os cientistas contemporâneos a uma conscientização cada vez maior acerca da complexidade do universo. Na verdade, alguns estudiosos falam do advento de uma terceira revolução científica caracterizada por uma "nova física da complexidade". A "explosão da complexidade" está a um passo de sepultar a suposição de que podemos ter um conhecimento sem ambigüidades sobre o universo. O consenso emergente é o de que nosso mundo é relativo e participativo.

mundo complexo dos novos físicos é totalmente diferente do universo simples, estático e objetivo de Galileu e Newton. Não se trata tanto de um mundo criado, e sim em processo de criação. O universo não é uma entidade existente que tem uma história; nada disso, ele é a história.

O Novo Conceito da Natureza da Investigação Científica

A mudança da compreensão acerca do mundo desencadeou uma modificação em nosso entendimento do que é o conhecimento e como chegamos a conhecer. A ciência não mais assoma como um porto de objetividade no mar da relatividade cultural. Nem mesmo o discurso científico deixa de participar do mundo que procuramos compreender. Na verdade, as ciências constituem um exemplo a mais dos jogos lingüísticos de que falara Ludwig Wittgenstein.

A exemplo de todo discurso humano, a empresa científica é uma forma de atividade lingüística (um jogo). Não se trata simplesmente de um meio neutro para a descoberta da natureza da realidade. Em vez disso, à semelhança de outros tipos de linguagem, o discurso científico é dirigido à realização de certos fins. Simplesmente não há fatos que sejam culturalmente neutros.

Todavia, a exposição pós-modema do mito da ciência vai um pouco mais longe. A empresa científica moderna operava com base na suposição de que a ciência progride de maneira lógica. O cientista observa o mundo, apresenta uma hipótese sobre o seu modo de funcionamento e, em seguida, elabora uma experiência que substancie ou rejeite sua hipótese. O resultado provê o fundamento para o próximo ciclo de observação, formulação de hipótese e experimentação. Os filósofos da ciência desafiam agora esse entendimento de concepção linear do surgimento do conhecimento científico. Muitas vozes têm se feito ouvir ao longo desse desenvolvimento, porém, talvez a declaração mais importante, mais original —e controversa— seja a de Thomas S. Kuhn em sua obra .A estrutura das revoluções científicas (1962).

Kuhn foi pioneiro de uma nova análise sobre o modo de desenvolvimento da ciência. Para ele, as alterações do fundamento na teoria não são simplesmente modificações lógicas ou reinterpretações de um conhecimento passado. Tampouco os cientistas simplesmente acrescentam um fato ao outro de maneira mecânica e objetiva. Pelo contrário, a ciência é um fenômeno histórico dinâmico. As modificações teóricas são transformações radicais no modo como os cientistas observam o mundo. De tempos em tempos, segundo Kuhn, os cientistas deixam sua trilha linear e têm súbitas explosões criativas chamadas "mudanças de paradigma".

De acordo com Kuhn, um paradigma é uma construção social da realidade. O termo refere-se à "totalidade da constelação de crenças, valores, técnicas e assim por diante, compartilhadas pêlos membros de uma dada comunidade". De modo mais específico, trata-se de um sistema de crença que prevalece numa determinada comunidade científica num tempo específico da história. Kuhn emprega também o termo de maneira mais restrita quando se refere a algum elemento de importância especial nessa constelação de crenças e cuja utilidade se revela no auxílio que nos presta quando tentamos explicar os quebra-cabeças armados pela comunidade científica.

Embora dotado de grande poder de interpretação, nenhum sistema de crença ou de solução de quebra-cabeças jamais pôde dar uma explicação para todos os dados. Frequentemente, os pesquisadores deparam com anomalias ou descobertas que não podem ser explicadas pela teoria dominante. As anomalias se agravam. Então, alguém propõe um novo sistema explanatório que dá conta das anomalias de modo mais satisfatório até que, por fim, este novo sistema substitui o antigo. Essa transição de um sistema explanatório para outro constitui uma revolução científica.

A obra de Kuhn e de outros têm levado a um reconhecimento cada vez maior de que os fundamentos do discurso científico —e, segue-se daí, da "verdade" científica— são, em última análise, sociais. A ciência não é meramente a observação neutra de dados, conforme propõe a perspectiva moderna.

Tampouco a ciência nos conduz a declarações definitivas sobre o mundo como realidade objetiva "lá fora". Na verdade, uma teoria recente, a tese de Duheim-Quine, nega que uma experiência possa testar uma predição teórica de modo definitivo, porque o próprio teste depende da validade de várias outras teorias que dão embasamento à experiência. Toda experiência, em última análise, repousa sobre uma rede de teorias, opiniões, idéias, palavras e tradições —isto é, sobre a cultura ou comunidade em que ocorre.

De acordo com o novo entendimento, o conhecimento científico não é uma compilação de verdades universais objetivas, e sim uma coleção de tradições investigadoras amparadas por comunidades específicas ou por pesquisadores. Seu discurso —seu jogo lingüístico— é, em grande parte, ininteligível fora da prática viva de tais comunidades.

Kuhn, porém, adiciona um outro dado inusitado. Os paradigmas, diz ele, não consistem somente na empresa científica, mas também no mundo do cientista. O paradigma dominante determina o que os cientistas vêem quando observam o mundo. Há paradigmas específicos que influenciam até mesmo as operações e medições escolhidas pêlos cientistas para a realização de experiências.

pós-modernismo leva a sério esse aspecto das crenças paradigmáticas. Ele afirma que o mundo não é dado, que não se trata de um objeto "ali fora" que vem ao nosso encontro e do qual podemos extrair o conhecimento. Pelo contrário, ele afirma que, por meio da linguagem, criamos nosso mundo, e que há tantos mundos diferentes quantas são as linguagens criadoras de mundos.

Essa pluralidade de mundos caracteriza a cosmovisão pós-moderna.

Jornada nas Estrelas e a Geração Pós-moderna

 

A câmera focaliza uma espaçonave futurística tendo por pano de fundo um cenário onde se vêem galáxias distantes. A voz do narrador anuncia orgulhosamente o famoso bordão: "O espaço —a fronteira final. Estas são as viagens da nave espacial Enterprise em sua missão de 5 anos de explorar novos mundos, novas civilizações, corajosamente indo aonde o homem jamais esteve".

Essas palavras marcavam o início de cada um dos episódios da série de TV, de grande audiência, Jornada nas estrelas e, depois, A nova geração, cuja temporada final encerrou-se em maio de 1994.

Sob muitos aspectos, A nova geração foi simplesmente uma versão atualizada da antiga série Jornada nas estrelas, agora situada num tempo futuro, depois da resolução de algumas dificuldades políticas galácticas que atormentavam o universo dos viajantes espaciais da série clássica. Todavia, pouco tempo depois que a nova estirpe de exploradores, sob o comando de Jean-Luc Picard, assumiu o controle da Enterprise, comandada em tempos passados pela tripulação do Capitão Kirk, mas agora remodelada, os criadores da série descobriram que o mundo de sua audiência estava em meio a um sutil deslocamento de paradigma: a modernidade estava gerando a pós-modernidade. Conseqüentemente, A nova geração tomou-se um reflexo —talvez até mesmo um modelador— da cosmovisão da geração emergente.

As mudanças evidentes na transição de Jornada nas estrelas para Jornada nas estrelas: A nova geração refletem um processo de transição mais profunda na sociedade ocidental.

Da Modernidade à Pós-modernidade

Há um consenso entre muitos observadores sociais de que o mundo ocidental está em meio a transformações. Na verdade, tudo indica que estamos passando por um deslocamento cultural só comparável às inovações que marcaram o nascimento da modernidade dos escombros da Idade Média: estamos fazendo a travessia da era moderna para a pós-modema. E claro que os períodos de transição são terrivelmente difíceis de descrever e de avaliar. Tampouco sabemos com certeza que características terá esse período emergente. Não obstante, vemos sinais de que essas alterações monumentais estão engolfando todos os aspectos da cultura contemporânea.

termo pós-moderno talvez tenha sido cunhado e empregado pela primeira vez na década de 30 para se referir a uma importante transição histórica que já estava em andamento e também como designação para certos desenvolvimentos nas artes. Todavia, o pós-modernismo não ganhou atenção generalizada até a década de 70. Primeiramente, denotava um novo estilo de arquitetura. Em seguida, invadiu os círculos acadêmicos, primeiramente como um rótulo para as teorias expostas nos departamentos de Inglês e de Filosofia das universidades. Por fim, tornou-se de uso público para designar um fenômeno cultural mais amplo.

Quaisquer que sejam os outros significados que se possam atribuir ao pós-modernismo, conforme indica o termo, sua significação relaciona-se com o deslocamento para além do modernismo. Ele implica, especialmente, uma rejeição da atitude mental moderna, embora tenha sido lançado no âmbito da modernidade. Portanto, para entender o pensamento pós-moderno, é preciso vê-lo no contexto do mundo moderno, que o deu à luz, e ao qual ele se opõe.

A Mente Moderna

Muitos historiadores fixam a data do nascimento da era moderna no alvorecer do Iluminismo, logo após a Guerra dos Trinta Anos. O cenário, contudo, fora armado anteriormente —na Renascença, que elevara a humanidade ao centro da realidade. Típico da nova perspectiva era a visão de Francis Bacon de que os homens podiam dominar a natureza se descobrissem os segredos dela.

Bebendo na fonte da Renascença, o Iluminismo elevou o indivíduo ao centro do mundo. René Descartes lançou as bases filosóficas do edifício moderno ao privilegiar o papel da dúvida, concluindo daí que a existência do ser pensante é a primeira verdade que não pode ser negada pela dúvida —um princípio formulado por meio de sua apropriação da máxima de Agostinho Cogito ergo sum [Penso, logo existo]. Descartes, portanto, definiu a natureza humana como uma substância pensante e a pessoa humana como um sujeito racional autónomo. Posteriormente, Isaac Newton deu à modernidade seu arcabouço científico ao descrever o mundo físico como uma máquina cujas leis e regularidade podiam ser apreendidas pela mente humana. O ser humano moderno pode muito bem ser descrito como a substância autónoma e racional de Descartes, cujo habitat é o mundo mecanicista de Newton.

O Projeto do Iluminismo

Os postulados do ser pensante e do universo mecanicista abriram o caminho para a explosão do conhecimento sob a égide daquilo a que Habermas se referia como "Projeto do Iluminismo". A busca intelectual do ser humano elegera como seu objetivo revelar os segredos do universo para pôr a natureza a serviço do homem, criando assim um mundo melhor. Essa busca culminou na modernidade característica do século XX, cujo empenho tem sido infundir na vida um gerenciamento racional capaz de aperfeiçoar a existência humana por intermédio da tecnologia.

projeto do Iluminismo traz em seu fundamento algumas suposições epistemológicas. A mente moderna supõe, especificamente, que o conhecimento é preciso, objetivo e bom. Além do mais, os modernos supõem que, em princípio, o conhecimento é acessível à mente humana.

A demanda por um determinado tipo de conhecimento faz com que o pesquisador moderno busque um método que demonstre a correção fundamental das doutrinas filosóficas, científicas, religiosas, morais e políticas. O método iluminista coloca muitos aspectos da realidade sob o escrutínio da razão e avalia aquela com base neste critério. Isto significa que este método crê piamente nas capacidades racionais do ser humano.

A perspectiva iluminista supõe que o conhecimento não somente é exato (e, portanto, racional) como também objetivo. A suposição da objetividade faz com que o modernista reivindique o acesso ao conhecimento desapaixonado. Os sábios modernos professam ser mais do que meros participantes condicionados do mundo que observam: declaram-se capazes de vê-lo como observadores imparciais —isto é, contemplam o mundo de uma posição estratégica situada fora do fluxo da história.

A busca pelo conhecimento desapaixonado divide o projeto científico em disciplinas distintas e confere um status diferenciado ao especialista como observador neutro cuja perícia é fruto de um campo limitado de esforços.

Além de supor que o conhecimento é exato e objetivo, os pensadores iluministas supõem também que ele é inerentemente bom. Para o cientista moderno, por exemplo, a descoberta de que o conhecimento é sempre bom é axiomático. Essa suposição da bondade inerente do conhecimento torna otimista a perspectiva do Iluminismo. Ela conduz à crença de que o progresso é inevitável, que a ciência, associada ao poder da educação, acabará por nos libertar de nossa vulnerabilidade à natureza, bem como de toda escravidão social.

otimismo iluminista, juntamente com o enfoque dado à razão, intensifica a liberdade humana. São suspeitas todas as crenças que pareçam reduzir a autonomia ou que se baseiem em alguma autoridade externa e não na razão (e na experiência). O projeto do Iluminismo compreende a liberdade, em grande parte, em termos individuais. Na verdade, o ideal moderno defende a autonomia do eu, o sujeito autodeterminante que existe fora de qualquer tradição ou comunidade.

Modernidade e Jornada nas Estrelas

À semelhança da ficção moderna de modo geral, a série clássica Jornada nas estrelas refletia muitos aspectos do projeto do Iluminismo e da modernidade tardia. A tripulação da Enterprise era composta por pessoas de várias nacionalidades que trabalhavam juntas para o bem comum da humanidade. Elas eram a síntese da antropologia universalista moderna. A mensagem era óbvia: somos todos humanos, temos de vencer nossas diferenças e unir nossas forças para cumprir aquilo a que nos propomos: a busca pelo conhecimento preciso e objetivo do universo inteiro, do qual o espaço revela-se como a "fronteira final".

Um dos heróis do antigo seriado era o Sr. Spock. Embora fosse o único membro da tripulação oriundo de outro planeta (ele era parte humano e parte Vulcano), seu lado não humano, na verdade, servia como um ideal humano transcendente. O Sr. Spock era o homem ideal do Iluminismo, completamente racional e sem emoções (ou, pelo menos, capaz de contê-las). Sua racionalidade desapaixonada foi várias vezes a responsável pela solução dos problemas que sobrevinham aos tripulantes da Enterprise. Nessas ocasiões, os roteiristas pareciam interessados em defender a idéia de que, no fim das contas, podíamos resolver nossos problemas se puséssemos em prática nossa perícia racional.

pós-modernismo representa a rejeição do projeto iluminista e das suposições básicas sobre as quais ele se ergueu.

A Mente Pós-moderna

A modernidade tem sido atacada pelo menos desde que Friedrich Nietzsche (1844-1900) desferiu o primeiro golpe contra ela no fim do século XIX; contudo, o ataque frontal em grande escala só começou na década de 70. O impulso intelectual imediato para o desmantelamento do projeto iluminista veio com o surgimento do desconstrucionismo como teoria literária, influenciando um novo movimento na filosofia.

Pós-modernismo Filosófico

A desconstrução surgiu como um prolongamento de uma teoria literária chamada "estruturalismo".

Segundo os estruturalistas, a linguagem é uma construção social e as pessoas desenvolvem documentos literários —textos— na tentativa de prover estruturas de significado que as ajudarão a dar sentido ao vazio de sua experiência. Os estruturalistas argumentam que a literatura equipa-nos com categorias que nos auxiliam a organizar e a compreender nossa experiência da realidade. Além do mais, todas as sociedades e culturas possuem uma estrutura comum e invariável.

Os desconstrucionistas (ou pós-estruturalistas) rejeitam este último princípio do estruturalismo. O significado não é inerente ao texto em si, dizem eles, emerge apenas à medida que o intérprete dialoga com o texto. Uma vez que o significado de um texto depende da perspectiva de quem dialoga com ele, são muitos os seus significados, como são muitos também os seus leitores (ou leituras).

Os filósofos pós-modernos aplicaram as teorias do desconstrucionismo literário ao mundo como um todo. Assim como um texto terá uma leitura diferente conforme o leitor, dizem eles, da mesma maneira a realidade será "lida" diferentemente por todo ser dotado de conhecimento que com ela depare. Isto significa que o mundo não tem apenas um significado, ele não tem nenhum centro transcendente para a realidade com um todo.

Com base em idéias semelhantes a estas, o filósofo francês Jacques Derrida reivindica o abandono tanto da "ontoteologia" (tentativa de estabelecer descrições ontológicas da realidade) como da "metafísica da presença" (a idéia de que algo transcendente está presente na realidade). Já que não há nada transcendente que seja inerente à realidade, diz ele, tudo o que emerge no processo de conhecimento é a perspectiva do eu que interpreta a realidade.

Michel Foucault acrescenta uma inusitada nuança moral à alegação de Derrida. Segundo Foucault, toda interpretação da realidade é uma declaração de poder. Já que o "conhecimento" é sempre o resultado do uso do poder, nomear algo significa exercer poder e, portanto, fazer violência ao que é nomeado. As instituições sociais, prossegue Foucault, envolvem-se inevitavelmente em violência quando impõem sua própria compreensão ao fluxo sem centro definido da experiência. Portanto, contrariamente a Bacon, que buscava o conhecimento para dominar a natureza, Foucault declara que toda afirmação de conhecimento é um ato de poder.

Richard Rorty, por sua vez, desfaz-se da concepção clássica da verdade como a natureza reflexa seja da mente ou da linguagem. Segundo Rorty, a verdade não é estabelecida quer pela correspondência de uma afirmação com a realidade objetiva quer pela coerência interna das afirmações em si mesmas. Rorty argumenta que deveríamos simplesmente abandonar a busca pela verdade e nos contentarmos com a interpretação. Ele propõe a substituição da "filosofia sistemática" clássica pela "filosofia da construção", cujo "objetivo é dar prosseguimento ao diálogo e não à descoberta da verdade".

A obra de Derrida, Foucault e Rorty reflete o que parece ter se tornado o axioma central da filosofia pós-moderna: "Tudo se resume à diferença". Essa visão bane o "uni" de "universo" que buscava o projeto do Iluminismo. Ela abandona a procura por um significado unificado da realidade objetiva. Segundo essa visão, o mundo não possui centro algum, somente pontos de vista e perspectivas distintas. Na verdade, até mesmo o conceito de "mundo" pressupõe uma unidade objetiva ou um todo coerente que não existe "lá fora". No fim das contas, o mundo pós-moderno não passa de um palco onde se assiste a um "duelo de textos".

A Atitude Pós-moderna

Embora filósofos como Derrida, Foucault e Rorty sejam influentes nos campi universitários, eles constituem tão-somente uma vertente de um deslocamento maior do pensamento que se verifica na cultura ocidental. O que dá coesão à diversidade de opiniões do tecido pós-modernista é o fato de ele questionar as suposições centrais da epistemologia iluminista.

No mundo pós-moderno, as pessoas não estão mais convencidas de que o conhecimento é inerentemente bom. Ao evitar o mito iluminista do progresso inevitável, o pós-modernismo substitui o otimismo do último século por um pessimismo corrosivo. Já não há mais a crença de que diariamente, de todos os modos, estamos melhorando cada vez mais. Os membros da geração emergente não crêem mais que a humanidade será capaz de resolver os grandes problemas mundiais ou até mesmo que sua situação econômica sobrepujará a de seus pais. A vida na Terra, para eles, é algo frágil: acreditam que a humanidade só continuará a existir se adotar uma nova atitude de cooperação, e não de conquista.

A ênfase dos pós-modernos no holismo tem a ver com sua rejeição à segunda suposição do Iluminismo —ou seja, de que a verdade é exata e, portanto, puramente racional. A mente pós-moderna recusa-se a limitar a verdade à sua dimensão racional e, portanto, destrona o intelecto humano de sua posição de árbitro da verdade. Segundo os pós-modernos, existem outros caminhos válidos para o conhecimento além da razão, o que inclui as emoções e a intuição.

Finalmente, a mente pós-modema já não aceita mais a crença iluminista de que o conhecimento seja objetivo. O conhecimento não pode ser meramente objetivo, dizem os pós-modernistas, porque o universo não é mecanicista e nem dualista, e sim histórico, passível de relacionamento e pessoal. O mundo não é simplesmente um dado objetivo que está "lá fora" à espera de ser descoberto e conhecido; a realidade é relativa, indeterminada e participável.

Ao rejeitar a suposição moderna da objetividade do conhecimento, os pós-modernos rejeitam também o ideal iluminista do sábio desapaixonado e autónomo. Eles argumentam que o trabalho dos cientistas, como o de qualquer outro ser humano, é condicionado histórica e culturalmente e que nosso conhecimento é sempre incompleto.

A cosmovisão pós-moderna opera com um entendimento da verdade embasado na comunidade. Assim, o que quer que aceitemos como verdade, e até mesmo o modo como a vemos, depende da comunidade da qual participamos. Além disso, e de modo ainda mais radical, a cosmovisão pós-moderna afirma que essa relatividade se estende para além de nossas percepções da verdade e atinge sua essência: não existe verdade absoluta; pelo contrário, a verdade é relativa à comunidade da qual participamos.

Com base nessa suposição, os pensadores pós-modernos abandonaram a procura iluminista por uma única verdade universal, supracultural e eterna. Em vez disso, concentram-se naquilo que é tido por verdadeiro no espaço específico de uma comunidade. Asseveram que a verdade consiste nas regras fundamentais que facilitam o bem-estar da comunidade da qual se participa. Em conformidade com essa ênfase, a sociedade pós-modema tende a ser comunitária.

O Pós-modernismo e A Nova Geração

A perspectiva pós-moderna aparece no novo seriado de Jornada nas estrelas: A nova geração. A característica da tripulação mudou —é mais diversificada, pois inclui representantes de outras partes do universo. Essa mudança representa a universalidade mais ampla do pós-modernismo: a humanidade já não é mais a única forma avançada de inteligência, pois a evolução espalhou-se por todo o cosmo.

 

Ainda mais importante, a compreensão da busca do conhecimento mudou. A humanidade não é capaz de executar sozinha aquilo a que se propôs; tampouco o fardo da procura recai unicamente sobre os seres humanos. A tripulação da Enterprise simboliza a "nova ecologia" da humanidade em parceria com o universo. Sua missão não é mais ir com ousadia "aonde nenhum homem jamais esteve" mas "aonde ninguém jamais foi".

Na Nova geração, o Sr. Spock é substituído por Data, um andróide. Em certo sentido, Data é uma versão mais integralmente completa do pensador racional do que Spock, capaz de façanhas intelectuais sobre-humanas. Não obstante isso, a despeito de seu intelecto aparentemente perfeito, ele não é o ideal transcendente humano encarnado por Spock, pois trata-se de uma máquina. Diferente de Spock, ele quer não apenas compreender o que significa ser humano como quer também de fato tornar-se humano. De algum modo, ele se acha incompleto porque não possui senso de humor, emoções e a habilidade de sonhar (e, na verdade, sente que se tomou mais completo ao descobrir posteriormente que o seu criador programara uma capacidade de sonhar em seus circuitos).

Embora Data sempre contribua de modo inestimável para a resolução de problemas, ele é apenas mais um dentre vários que colaboram para a busca de soluções. Além do "mestre da racionalidade", a tripulação da Enterprise compõe-se também de pessoas com habilidades nas dimensões afetivas e intuitivas da vida humana. Destaca-se de maneira especial nessa área a Conselheira Trói, uma mulher dotada da habilidade de perceber os sentimentos ocultos dos demais.

As novas viagens da Enterprise conduzem sua heterogênea tripulação a um universo pós-moderno. Nesse mundo novo, o tempo não é simplesmente linear, a aparência não é sinonimo de realidade e o racional nem sempre é confiável

Diferentemente do seriado clássico, que, em sintonia com a tendência moderna, geralmente ignorava as questões relativas a Deus e à fé religiosa, o mundo pós-moderno de A nova geração demonstra interesse pelo sobrenatural, o que se pode ver, por exemplo, no estranho personagem "Q". Todavia, sua formulação do divino não se limita meramente àquela da teologia cristã tradicional. Embora possua os atributos divinos clássicos da onisciência e onipotência, "Q", o ser de traços divinos, é moralmente ambíguo e manifesta tanto a benevolência quanto uma inclinação pelo cinismo e pela autogratificação.

Pós-modernidade e Cristianismo Evangélico

É correta a conclusão de George Marsden de que, sob alguns aspectos, o movimento evangélico —com sua ênfase no pensamento científico, na abordagem empírica e no senso comum— é filho da primeira fase da modernidade. Nossa sociedade, porém, está no meio de uma transição monumental: da modernidade para a pós-modernidade.

A geração que está surgindo foi formada num contexto moldado menos pela aquiescência ao projeto do Iluminismo como se vê em Jornada nas estrelas do que pela visão pós-modernista de Rorty e de Jornada nas estrelas: A nova geração.

A transição da era moderna para a pós-modema coloca um sério desafio à capelania e à sua missão no contexto de sua nova geração. Confrontados por esse novo estado de coisas, não podemos cair na armadilha do desejo nostálgico pelo retomo daquela modernidade primitiva que deu à luz o movimento evangélico, pois não somos chamados a ministrar a uma época remota, mas aos dias de hoje, cujo contexto acha-se sob a influência da pós-modern idade.

pós-modernismo apresenta alguns perigos. Não obstante, seria irônico —na verdade, seria trágico— se os evangélicos se tornassem os últimos defensores da modernidade já moribunda. Para alcançar as pessoas no novo contexto pós-moderno, devemo-nos lançar à tarefa de decifrar as implicações do pós-modernismo para o evangelho.

Imbuídos da visão do programa de Deus para o mundo, devemos reivindicar o novo contexto pós-moderno para Cristo, assumindo a fé cristã segundo critérios compreensíveis para a nova geração. Resumindo, sob o pendão da cruz, temos de estar "corajosamente indo aonde nenhum homem jamais esteve".

O Evangelho e o Contexto Pós-moderno

Os evangélicos têm laços muito próximos com a modernidade. Filho da Reforma, do pietismo e dos "espirituais" despertamentos, o movimento evangélico nasceu nos primórdios do período moderno. No caso norte-americano, ele atingiu a maturidade em meados do século XX —no auge da era moderna.

Como pensadores modernos, os evangélicos sempre utilizaram os instrumentos da modernidade, tais como o método científico, a abordagem empírica da realidade e o realismo do senso comum. Todavia, essas ferramentas tomaram-se sobremodo importantes no século XX, à medida que os intelectuais evangélicos procuravam entender e dar expressão ao evangelho com olhos voltados para o desafio colocado pela cosmovisão da modernidade tardia —o secularismo.

Os evangélicos do século XX têm se empenhado com muita energia na tarefa de demonstrar a credibilidade da fé cristã a uma cultura que glorifica a razão e deifica a ciência. O modo como apresentam o evangelho, frequentemente, tem sido acompanhado de uma apologética racional

que recorre a provas para demonstrar a existência de Deus, a confiabilidade da Bíblia e a historicidade da ressurreição de Jesus. As teologias sistemáticas dos evangélicos, de maneira geral, têm privilegiado o conteúdo proposicional da fé, na tentativa de produzir uma apresentação lógica da doutrina cristã. Resumindo, os evangélicos modernos saíram-se bem ao desenvolverem uma visão da fé cristã em conformidade com a sociedade da série clássica de Jornada nas estrelas.

Agora, porém, estamos rumando para um contexto novo. O mundo ocidental —da cultura "pop" à acadêmica— está se desfazendo dos princípios do Iluminismo que contribuíram para com o fundamento da modernidade. Estamos entrando em uma era pós-moderna.

espírito pós-moderno exerce uma influência muito importante sobre a nova geração —entre jovens adultos que encaram com naturalidade a era da informação, os inúmeros canais de TV a cabo e a MTV. Essa geração foi criada num contexto cuja conformação foi obra muito mais de Jornada nas estrelas: a nova geração e seus sucedâneos do que da série clássica. Nesse contexto, a suspeita de Foucault com relação a toda "ordem presente", o questionamento de Derrida à razão pela razão e o pragmatismo radical de Rorty incorporaram-se à linguagem cotidiana das pessoas, mesmo daquelas que nunca ouviram os nomes desse gurus filosóficos da cultura pós-modema.

A passagem do território familiar da modernidade para o terreno desconhecido da pós-modernidade tem sérias implicações para os que procuram viver como discípulos de Cristo nesse novo contexto. É preciso que ordenemos nosso pensamento segundo as ramificações das mudanças fenomênicas em desenvolvimento na sociedade ocidental, de modo que possamos compreender a fé cristã e saibamos como apresentar o evangelho à nova geração.

De que forma, portanto, devemos fazer frente ao espírito intelectual do mundo pós-moderno em ascensão? Para facilitar a reflexão sobre esse assunto, gostaria de concluir minha pesquisa acerca do pós-modernismo com uma avaliação do fenômeno pós-moderno.

A Crítica Pós-moderna do Modernismo

Conforme já observei diversas vezes ao longo deste livro, a busca pela ruptura com o projeto iluminista da modernidade é inerente ao pós-modernismo. Não importa no que se transforme o pós-modernismo no fim das contas, no início, foi ele uma rejeição à mentalidade moderna que se desenvolveu na esfera da modernidade. Em conformidade com essa orientação —em grande medida negativa—, essa rejeição do passado imediato, os intelectuais pós-modernos, de modo geral, não procuram apresentar novas propostas construtivas de quaisquer tipos que sejam. Seu objetivo primordial tem sido o de estabelecer uma crítica contundente ao projeto do Iluminismo com base nos princípios de suas próprias teorias.

De que forma devemos avaliar essa crítica?

Tomada de Posição: Não à Rejeição da Metanarrativa

Os cristãos que se defrontam pela primeira vez com as idéias de pensadores como Foucault, Derrida e Rorty tendem a recuar horrorizados diante da possibilidade de que o projeto iluminista tenha ido longe demais.

Em relação a um aspecto importante do programa pós-moderno, tal sentimento justifica-se. O pós-modernismo pôs de lado a verdade objetiva, ao menos o entendimento clássico a seu respeito. Foucault, Derrida e Rorty opõem-se ao princípio epistemológico que, há séculos, reina absoluto —a teoria da correspondência da verdade (a crença de que a verdade consiste na correspondência entre proposições e o mundo "lá fora"). Essa rejeição da teoria da correspondência conduz não somente ao ceticismo, que solapa o conceito de verdade objetiva de modo geral;  ela mina também as reivindicações cristãs de que nossas formulações doutrinárias apresentam a verdade objetiva.

choque do pós-modernismo com os postulados cristãos desenrola-se num nível mais profundo do que o do debate acerca da teoria epistemológica que devemos adotar. O desespero pós-moderno, no que se refere à busca pela descoberta da verdade total, é algo mais radical do que a rejeição da teoria da correspondência. Na verdade, o espírito pós-moderno resulta da suposição de que não existe um todo unificado a que possamos chamar "realidade". Os pensadores pós-modernos abandonaram a busca pela verdade universal e final porque estão convencidos de que não há nada mais a descobrir exceto uma miríade de interpretações conflitantes ou uma infinidade de mundos criados pela linguagem.

abandono da crença na verdade universal implica a perda de todo critério final, graças ao qual podem-se avaliar as várias interpretações da realidade que se entrechocam na esfera intelectual contemporânea. Nesse caso, todas as interpretações humanas —inclusive a cosmovisão cristã— são igualmente válidas porque todas são igualmente inválidas. (De fato, como adjetivos que descrevem objetivamente as interpretações, válido e inválido tornam-se palavras sem sentido.) No máximo, dizem os pós-modernos, podemos julgar essas interpretações somente com base em padrões pragmáticos, ou seja, com base "naquilo que funciona".

ceticismo pós-moderno, portanto, deixa-nos num mundo que se caracteriza por uma luta sem fim contra as interpretações rivais. Ele nos coloca numa situação que faz lembrar a guerra de Hobbes contra todos.

Nosso compromisso para com o Deus revelado em Cristo obriga-nos a resistir ao menos a um aspecto ou a um desdobramento do ceticismo radical do pós-modernismo: a perda de um "centro".

Como cristãos, só podemos nos permitir acompanhar Derrida até um certo ponto, por exemplo, em sua luta incansável contra a "metafísica da presença" e o "logocentrismo". Diferentemente do pensamento pós-moderno, cremos que a realidade possui um centro unificador. Mais especificamente, reconhecemos em Jesus de Nazaré, a Palavra eterna presente em nosso meio, a manifestação desse centro.

Em outras palavras, podemos dizer que, em virtude de nossa fé em Cristo, não podemos afirmar que o princípio central do pós-modernismo seja, conforme a definição de Lyotard, a rejeição à metanarrativa.

Podemos acolher com simpatia a conclusão de Lyotard quando aplicada à preocupação principal de sua análise —ou seja, a empresa científica. Na verdade, é possível viver muito bem sem mitos tais como o do progresso do saber. Todavia, não podemos assentir à extensão da tese de Lyotard à realidade como um todo.

Nosso mundo é mais do que uma coleção de narrativas locais e conflitantes. Contrariamente às implicações da tese de Lyotard, cremos firmemente que as narrativas locais das diversas comunidades humanas encaixam-se perfeitamente numa única e grandiosa narrativa: a história da humanidade. Existe uma única metanarrativa que abarca todos os povos de todas as épocas.

Como cristãos, declaramos conhecer essa narrativa magnífica. Trata-se da história da ação de Deus na história para a salvação da humanidade decaída e a finalização das intenções de Deus com relação à criação. Proclamamos corajosamente que o enfoque dessa metanarrativa é a história de Jesus de Nazaré, o qual, testificamos, é o Filho encarnado, a segunda Pessoa do Deus Trino.

Os pensadores pós-modernos chamam com razão nossa atenção para a ingenuidade da tentativa iluminista de descobrir a verdade universal recorrendo tão-somente à razão. Em última análise, a metanarrativa que proclamamos ultrapassa os limites da razão a ser descoberta ou avaliada. Portanto, concordamos que, neste mundo, testemunharemos a luta entre as narrativas conflitantes e as interpretações da realidade. Devemos, porém, acrescentar que, embora todas as interpretações sejam, de certo modo, inválidas, não são inválidas todas elas igualmente. Cremos que as interpretações conflitantes podem ser avaliadas segundo um critério que, de algum modo, transcende a todas elas. E nossa crença que "a Palavra fez-se carne" em Jesus Cristo, por isso estamos convictos de que esse critério é a história da ação de Deus em Jesus de Nazaré.

Resumindo, não podemos simplesmente permitir que o cristianismo seja relegado ao status de mais uma fé entre outras. O evangelho é, em sua essência, uma mensagem missionária em expansão. Cremos não somente que a narrativa bíblica faz sentido para nós, como é também mensagem de boas-novas para todos. Ela proporciona a satisfação dos desejos e das aspirações de todos os povos. Ela incorpora a verdade —a verdade de toda a humanidade e para toda a humanidade.

Uma Posição em Comum: A Rejeição da Epistemologia Iluminista

Como cristãos, devemos nos opor à rejeição pós-moderna da metanarrativa. Simplesmente não compartilhamos do desespero pela perda da universalidade que conduz ao ceticismo radical da era em ascensão. Ao mesmo tempo, não devemos permitir que nosso "Não!" bem sonoro ao pós-modernismo nessa questão fundamental nos cegue quanto à validade de sua crítica à modernidade. Pelo contrário, uma investigação mais aprofundada do fenômeno deveria nos convencer de que estamos fundamentalmente de acordo com a rejeição pós-moderna da mentalidade moderna e sua epistemologia de cunho iluminista.

Conforme observamos anteriormente, a modernidade ergue-se sobre a suposição de que o saber é certo, objetivo e bom. O pós-modernismo rejeita essa suposição. Infelizmente, os evangélicos aceitam, com muita frequência e de modo acrílico, a visão moderna do saber, apesar do fato de que a crítica pós-moderna, em determinados pontos, seja mais conforme aos pontos de vista teológicos do cristianismo.

A Certeza do Conhecimento

pós-modernismo questiona a pressuposição do Iluminismo de que o conhecimento seja preciso e de que o critério para a certeza repousa em nossas capacidades racionais humanas.

Semelhantemente, a fé cristã implica a negação de que o método racional e científico seja a única medida da verdade. Afirmamos que certos aspectos da verdade encontram-se fora da esfera da razão e não podem ser por ela perscrutados. Nas palavras de Blaise Pascal: "O coração tem razões que a própria razão desconhece".

Além disso, os cristãos assumem uma postura cautelosa e até mesmo desconfiada em relação à razão humana. Sabemos que em decorrência da queda da humanidade, o pecado é capaz de cegar a mente humana. Estamos conscientes de que a obediência ao intelecto, às vezes, pode nos desviar de Deus e da verdade.

A Objetividade do Conhecimento

Do mesmo modo, é louvável o questionamento pós-moderno da suposição iluminista de que o saber é objetivo e, portanto, desapaixonado.

Conforme já pudemos ver, a epistemologia moderna foi edificada sobre o encontro do eu cartesiano com o universo de Newton como objeto externo. Todavia, diferentemente do ideal moderno do observador desapaixonado, afirmamos a realidade da descoberta pós-modema, segundo a qual nenhum observador pode ficar de fora do processo histórico. Tampouco podemos ter acesso a um saber universal e culturalmente neutro na qualidade de especialistas não-condicionados. Pelo contrário, somos participantes de nosso contexto histórico e cultural, e todos os nossos esforços intelectuais estão, inevitavelmente, condicionados por essa participação.

Os epistemologistas pós-modernos, na verdade, estão fazendo eco a Agostinho quando asseveram que nossas convicções pessoais não somente ornamentam nossa busca pelo saber como também facilitam o processo da compreensão.

O Saber como Algo Bom

Finalmente, podemos ratificar a rejeição pós-moderna à suposição do Iluminismo de que o saber seja inerentemente bom.

Os acontecimentos do século XX testemunham de maneira pungente o fato de que, apesar de seus benefícios, a explosão do saber não produzirá a utopia. Os avanços tecnológicos tornam possível não apenas o advento do bem, como o do mal. Um exemplo óbvio disso é a divisão do átomo. Essa descoberta abriu a porta para o Armagedom nuclear e gerou um novo tipo de lixo não-descartável. Tudo o que podemos fazer é imaginar os efeitos terríveis que advirão das investigações sobre a estrutura genética humana.

A compreensão cristã da situação humana dispõe de fundamento próprio para a rejeição da suposição do Iluminismo de que o saber é bom e que isto lhe é inerente. Cremos que o problema humano seja uma questão, não de mera ignorância, mas também de vontade mal direcionada. Para nós, o mito do saber que expulsa a ignorância e traz a era de ouro está calcada numa perigosa meia-verdade. Não precisamos ser salvos apenas de nossa ignorância, é preciso que passemos também por uma renovação e por um redirecionamento de nossa vontade.

Contornos de um Evangelho Pós-moderno

Uma parte da vocação cristã consiste em avaliar todos os novos espíritos característicos que moldam a cultura na qual Deus chama os crentes para viverem como povo seu. Um dos objetivos dessa tarefa consiste em equipar a capelania de modo que ela expresse claramente o evangelho e o encarne no contexto daquela cultura. Atualmente, somos desafiados a viver em conformidade com nosso compromisso cristão em meio a uma cultura e a proclamar o evangelho a uma geração que, cada vez mais, é pós-moderna em seu modo de pensar.

Essa ordem exige que exploremos os contornos do evangelho num contexto pós-moderno. Que ênfases bíblicas relativas à obra redentora de Deus soam conformes aos desejos e preocupações da geração em ascensão? De que modo podemos expressar o evangelho mediante as categorias do novo contexto social?

A situação pós-moderna exige que encarnemos o evangelho de modo pós-individualista, pós-racionalista, pós-dualista e pós-noeticêntrico.

Um Evangelho Pós-individualista

Em primeiro lugar, uma expressão pós-moderna do evangelho cristão será de caráter pós-individualista.

Uma das marcas da modernidade é a promoção do indivíduo. O mundo moderno é individualista, um reino da pessoa humana autónoma dotada de direitos que lhe são inatos

"Esse enfoque moderno corresponde a certas dimensões centrais do ensino escriturístico. Conseqüentemente, não devemos perder totalmente a ênfase na importância da pessoa humana individual como indicadora de modernidade. Na verdade, devemos ter sempre em vista os temas bíblicos do cuidado de Deus para com cada pessoa, a responsabilidade de todo ser humano diante de Deus e a orientação individual que faz parte da mensagem de salvação.

Além disso, os exemplos de totalitarismo do século XX são lembretes marcantes de que devemos nos opor continuamente à tirania do coletivo em suas diversas formas.

Todavia, embora conservemos a ênfase individual em nossas apresentações do evangelho, devemos nos libertar do individualismo radical que veio a caracterizar a mentalidade moderna. É preciso que afirmemos, em coro com os pensadores pós-modernos, que o saber —inclusive o que se refere a Deus— não é simplesmente objetivo, descoberto meramente pelo eu conhecedor neutro.

Neste ponto podemos aprender com os eruditos contemporâneos que advogam a vida em comunidade e que uniram-se ao ataque pós-moderno à fortaleza epistemológica do modernismo. Eles rejeitam o paradigma moderno com seu enfoque no sujeito auto-reflexivo, autodeterminante e autónomo que se situa fora de toda tradição ou comunidade. Em seu lugar, os novos adeptos da vida comunitária apresentam uma alternativa construtiva: o indivíduo-no-interior-da-comunidade.

Os comunitários assinalam o papel inevitável da comunidade ou da rede social na vida da pessoa humana. Eles dizem, por exemplo, que a comunidade é essencial no processo do conhecimento. Os indivíduos somente se aproximam do saber por meio de uma estrutura cognitiva mediada pela comunidade da qual participam. De modo semelhante, a comunidade de participação é essencial para a formação da identidade. Um sentido de identidade pessoal se desenvolve por intermédio da exposição de uma narrativa pessoal, a qual está sempre contida na história das comunidades das quais participamos. A comunidade é mediadora de uma história transcendental que é comunicada a seus membros e que apresenta as tradições da virtude, do bem comum e do significado último.

Devemos levar a sério as descobertas dos comunitários contemporâneos. Eles estão ecoando o grande tema bíblico de que o objetivo do plano de Deus é o estabelecimento da comunidade em seu sentido mais elevado.

No mundo pós-moderno, não podemos mais seguir o caminho que nos aponta a modernidade, que situa o indivíduo no centro dos acontecimentos. Em vez disso, é preciso que nos lembremos de que nossa fé é altamente social. O fato de que Deus é a trindade social —Pai, Filho e Espírito— dá-nos uma certa indicação de que o propósito divino para a criação tem como alvo o inter-relacionamento do indivíduo. Nosso evangelho deve se dirigir à pessoa humana no contexto das comunidades a que ela pertence.

Tendo por foco a comunidade, o mundo pós-moderno nos estimula a reconhecer a importância da comunidade de fé em nossos esforços evangelísticos. Os  membros da nova geração, geralmente, não se impressionam com nossas apresentações verbais do evangelho. O que desejam ver são pessoas que vivenciam o evangelho em relacionamentos integrais, autênticos e terapêuticos. Centrando-se no exemplo de Jesus e dos apóstolos, o evangelho cristão da era pós-modema convidará outras pessoas a participarem da comunidade daqueles cujo alvo de lealdade maior é o Deus revelado em Cristo. Os participantes dessa comunidade procurarão atrair outros a Cristo incorporando o evangelho à comunhão de que partilham.

Um Evangelho Pós-racionalista

Além de pós-individualista, um expressão pós-moderna do evangelho cristão será também pós-racionalista.

Uma segunda marca da modernidade é a valorização da razão. O enfoque na argumentação lógica e no método científico livrou-nos de uma série de superstições que grassavam entre os povos pré-modernos. Esse enfoque equipou-nos também com as ferramentas necessárias à edificação da sociedade moderna, a qual oferece tantos benefícios a seus cidadãos.

A despeito dos desafios à fé que afligiam os cristãos na era da razão, o cristianismo conseguiu encontrar um lar no mundo moderno. Os evangélicos modernos contribuíram para com esse processo. Eles demonstraram detalhadamente que a fé cristã não é necessariamente irracional. Em resposta aos céticos modernos, declaram corajosamente que ninguém precisa cometer suicídio intelectual para se tornar cristão.

A incorporação pós-moderna do evangelho não deve se tornar anti intelectual e abandonar completamente o que foi ganho com o Iluminismo. Todavia, a crítica pós-modema à modernidade apresenta-se como lembrete necessário de que nossa humanidade não consiste somente na dimensão cognitiva. Somos seres intelectuais, porém, somos mais do que simplesmente o "animal racional" de Aristóteles. E preciso reconhecer que a reflexão intelectual e a empresa científica, tão-somente, não nos podem colocar em contato com toda a dimensão da realidade ou conduzir-nos à descoberta de todos os aspectos da verdade divina.

Isto significa que não podemos simplesmente comprimir a verdade nas categorias de certeza racional que são típicas da modernidade. Em vez disso, ao entender e expressar a fé cristã, temos de dar espaço para o conceito de "mistério" —não como complemento irracional ao racional, mas como algo que nos lembra que a realidade fundamental de Deus transcende a racionalidade humana. Embora preserve a racional idade, o apelo ao nosso evangelho não deve se limitar ao aspecto intelectual da pessoa humana. E preciso que ele compreenda outras dimensões de nosso ser também.

De fundamental importância para nossa tarefa de pensar segundo a fé num contexto pós-moderno é a obrigação de repensar a função das afirmações sobre a verdade ou proposições. Não devemos deixar de reconhecer a importância fundamental do discurso racional, porém, nossa compreensão da fé não deve se limitar à abordagem proposicional que nada mais vê na fé cristã a não ser a correção da doutrina ou a verdade doutrinária.

Os teóricos pós-modernos podem nos ajudar nisso. Esses pensadores estão tentando substituir o racionalismo de fundamento individualista do pensamento ocidental moderno por uma compreensão do conhecimento e da crença como elementos de constituição social e lingüística. Assim procedendo, oferecem-nos insights muito úteis sobre o papel das proposições para nossas vidas.

Nenhuma experiência ocorre no vácuo; nenhuma transformação nos chega à parte de uma interpretação facilitada por conceitos —a "teia da crença"— que trazemos conosco. Pelo contrário, a experiência e os conceitos interpretativos relacionam-se reciprocamente. Nossos conceitos facilitam o entendimento das experiências que temos em vida; nossa experiência molda os conceitos interpretativos que empregamos ao falar sobre nossas vidas.

âmago da experiência cristã é um encontro pessoal com Deus em Cristo que nos dá forma e expressão. Com base nesse encontro, procuramos acolher num todo inteligível os diversos fios de nossa vida pessoal recorrendo a certas categorias. Dentre estas, as mais importante são "pecado" e "graça", "alienação" e "reconciliação", "desamparo" e "poder divino", "estava perdido" e "agora fui salvo". É nesse contexto de vida assim entendida, no qual narramos a história de uma experiência religiosa transformadora, que as proposições doutrinárias tornam-se importantes. Portanto, o encontro com Deus em Cristo é facilitado e expresso em categorias de natureza preposicional. As categorias que formam o berço dessa experiência, por sua vez, formam a grade por meio da qual o crente passa a ver toda a vida.

As proposições, por conseguinte, pode-se dizer que têm importância secundária. Servem tanto para a experiência da conversão quanto resultam de nosso status como crentes. Conseqüentemente, nosso objetivo ao proclamarmos o evangelho não deve se resumir a fazer com que outros concordem com uma lista de proposições correias. Em vez disso, devemos empregar proposições teológicas tais como "pecado" e "graça" para que outros encontrem a Deus em Cristo e, em seguida, unam-se a nós na grandiosa jornada que busca compreender o significado daquele encontro para toda a vida.

pós-racionalismo é uma das formas por meio da qual o evangelho pode se exprimir. Neste caso, a ênfase não recai mais sobre as proposições como conteúdo central da fé cristã. Em vez disso, leva-se a sério a compreensão dinâmica do papel da dimensão intelectual da experiência humana e nossas tentativas de compreender a vida.

Um Evangelho Pós-dualista

Em terceiro lugar, uma expressão pós-moderna do evangelho será também pós-dualista. E preciso que ele extraia coragem da crítica pós-moderna ao dualismo modernista para que se desenvolva um holismo bíblico.

projeto iluminista ergueu-se com base na divisão da realidade em "mente" e "matéria". Esse dualismo fundamental afetou a visão iluminista da pessoa humana como "alma" (substância pensante) e "corpo" (substância física).

Não podemos negar que esse dualismo há muito tem influenciado o pensamento cristão. Os cristãos impregnados da perspectiva do Iluminismo frequentemente dão expressão a um evangelho dualista. Sua preocupação principal, senão única, consiste em salvar "almas". E possível que cultivem um interesse secundário pêlos "corpos", mas estão convencidos de que a dimensão física da pessoa humana não tem importância eterna.

Se, porém, vamos ministrar no contexto pós-moderno, devemos estar cientes de que a nova geração está cada vez mais interessada na pessoa humana como um todo. O evangelho que proclamamos deve se dirigir às pessoas humanas em toda a sua inteireza. Isto não significa dar mais ênfase, pura e simplesmente, aos aspectos emocionais e afetivos da vida juntamente com o aspecto racional. Pelo contrário, o evangelho que proclamamos implica a integração do aspecto emocional-afetivo, bem como físico-sensual, juntamente com o intelectual-racional, tendo em vista a pessoa humana como um todo. Em outras palavras, parafraseando Jornada nas estrelas: a nova geração, devemos estar dispostos a reconhecer que, em nosso interior, o Conselheiro Trói e Spock (ou Data) dependem um do outro.

holismo cristão pós-moderno, porém, deve fazer mais do que unir novamente a alma e o corpo separados pelo Iluminismo. Conforme observamos anteriormente, nosso evangelho deve também situar a pessoa humana novamente no contexto social e ambiental que nos forma e nos nutre. Não devemos nos delongar unicamente no indivíduo em si mesmo, mas também no indivíduo como ser que se relaciona.

Nossa antropologia deve encarar com seriedade a verdade bíblica de que nossa identidade compreende um relacionamento com a natureza, com outros, com Deus e, conseqüentemente, com nós mesmos de maneira genuína. Todas essas ênfases são óbvias no ministério de nosso Senhor, que falou sobre as pessoas e a elas ministrou como seres integrais e que se relacionam.

Um Evangelho Pós-noeticêntrico

Finalmente, uma expressão pós-moderna do evangelho será também neoticêntrica. Isto é, nosso evangelho deve afirmar que o objetivo de nossa existência implica mais do que a mera acumulação de conhecimento. Temos de declarar que o objetivo da doutrina correia consiste em propiciar a obtenção da sabedoria.

Iluminismo deu à humanidade um grande legado quando privilegiou o conhecimento. Ele concentrou os esforços humanos na busca por conhecimento, que passou a ser visto como algo inerentemente bom.

Na verdade, o conhecimento é um bem. Como herdeiros cristãos do Iluminismo, temos de centrar nossos esforços intelectuais na descoberta do conhecimento sobre Deus em suas várias formas. Podemos afirmar também que o pensar correio é um objetivo importante no processo de santificação, pois estamos convencidos de que as crenças correias e as doutrinas correias são vitais para a vida cristã.

Não devemos, porém, restringir nosso objetivo ao acúmulo de riqueza de conhecimento em si mesmo. Tampouco devemos nos iludir de que a posse do conhecimento —mesmo o conhecimento bíblico ou a doutrina correia— seja inerentemente boa. Paulo condenou terminantemente tais crenças entre os coríntios (l Co 8.1). O conhecimento é bom quando facilita a produção de um bom resultado —especificamente, quando fomenta a sabedoria (ou a espiritualidade) no conhecedor.

evangelho cristão pós-noeticêntrico ressalta a relevância da fé em todas as dimensões da vida. Ela não permite de forma alguma que o comprometimento com Cristo estacione simplesmente num esforço intelectual, deixando que se transforme unicamente num assentimento a proposições ortodoxas. O comprometimento com Cristo deve também achar guarida no coração. Na verdade, o mundo pós-moderno dá-nos ocasião para que nos reapoderarmos da velha crença pietista segundo a qual uma cabeça boa não tem valor se o coração também não for bom.

evangelho cristão cuida não somente da reformulação de nossos compromissos intelectuais, mas também da transformação de nosso caráter e da renovação de toda a nossa vida como crentes que somos. Para isso, um evangelho pós-noeticêntrico estimula um ordenamento conveniente de ativismo e quietismo. Já não podemos mais obedecer à perspectiva moderna, que vê na atividade não dissimulada, na conduta ou em decisões específicas, o único parâmetro de espiritualidade. No fim, essa ênfase leva tão-somente a uma espiritualidade árida que acaba se deteriorando completamente. O espírito pós-moderno entende corretamente que o ativismo deve ser o resultado de recursos interiores. O evangelho pós-moderno nos fará lembrar de que seremos capazes de manter a ação correia somente quando ela fluir dos recursos do Espírito Santo, o qual nos renova continuamente em nossa pessoa interior.

Esse enfoque nos leva novamente ao papel auxiliar do conhecimento. As crenças são importantes porque moldam a conduta. Nossa estrutura fundamental de crença reflete-se em nossas ações. Como cristãos, portanto, devemos nos preocupar em obter conhecimento e nos manter apegados à doutrina correia afim de que possamos atingir a sabedoria para a vida e assim agradar a Deus com nosso viver.

Na opinião de muitos, nossa sociedade está no limiar de uma transição monumental: da modernidade para a pós-modernidade. Seja como for, a geração em ascensão —os que pertencem ao mundo de Jornada nas estrelas: A nova geração e seus sucessores— está impregnada de muitos dos aspectos da mente pós-moderna. Nossa tarefa não consiste em defender o modernismo, fazendo com que a maré atual favoreça novamente o Iluminismo. Pelo contrário, somos chamados para compreender o novo clima intelectual segundo a ótica cristã.

Esse projeto implica a utilização das ferramentas da nossa fé para avaliar os pontos fortes e fracos do espírito pós-moderno. O pós-modernismo têm muitas deficiências em diversas áreas. Portanto, não devemos simplesmente "acompanhar os novos tempos" e abraçar acriticamente a última moda intelectual. Ao mesmo tempo, o envolvimento crítico com o pós-modernismo não pode terminar com uma rejeição simplista de todo o seu espírito. Nossas reflexões críticas devem nos levar a determinar os contornos do evangelho que falará aos corações dos indivíduos pós-modernos. Devemos nos envolver com o pós-modernismo para que possamos discernir a melhor maneira de expressar a fé cristã para a próxima geração.

evangelho de Jesus Cristo foi proclamado em todas as eras com poder para converter os corações humanos. Hoje em dia, o evangelho é a resposta para os anseios da geração pós-moderna. Nossa missão como discípulos de Cristo consiste em encarnar e expressar as boas novas eternas de salvação de modo que a nova geração possa compreendê-las. Somente desse modo poderemos nos tornar veículos do Espírito Santo, possibilitando assim às pessoas experimentarem o mesmo encontro transformador com o Deus trino de quem toda a nossa vida extrai significado.

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