Maior que meus desejos, que a vida, que o universo

19/09/2012 13:33

 

“ Então os que estavam no barco adoraram-no, dizendo: Verdadeiramente tu és Filho de Deus. ” (Mateus 14,1-33)

Existe uma pequena estorinha, de fundo moral, que conta a saga de 3 cegos tentando definir o que seria um elefante. O que segurava em sua perna achava que um elefante era igual a um tronco de árvore; o que tocava em seu rabo achava que um elefante era igual a um espanador, e o que tocava em sua orelha achava que um elefante era igual a um grande cobertor.

Cada um daqueles homens tinham sua própria definição de elefante, mas que não era condizente com a verdade.

Mateus nos fala de uma história muito semelhante e que nos ajuda a entender a forma como enxergamos a Jesus, ou tentamos enxergar, e nos ajuda também a entender a enxergá-lo como Ele realmente É.

Assim como os cegos na estorinha do elefante temos o tendência de definirmos Jesus segundo as circunstâncias em que nos encontramos na vida.

Jesus pode ser o pai que aponta o caminho, em determinados momentos o amigo em cujo ombro choro, o general de guerra que me ajuda em minhas batalhas, etc..., etc... mas nenhuma destas definições  de Jesus irá me falar quem Ele verdadeiramente É.

Precisamos de um milagre que abra os nossos olhos para que paremos de tatear no escuro e consigamos ver o que os nossos olhos cegos não conseguem enxergar. Isto tem uma importância muito grande nas nossas vidas, já que a forma como eu vejo a Jesus irá definir o meu relacionamento com Ele.

A revelação de Jesus como o filho de Deus é ponto central de toda a história humana, e sempre que estivermos incapacitados de o enxergá-lo  desta forma nosso visão da vida, do evangelho e do Reino de Deus estará seriamente prejudicada.

O capitulo 14 de Mateus, dos versículos de 1 a 33 nos ajudará a ajustar o nosso foco.

1. 1. “É um fantasma...”

A fala de Herodes é muito interessante pois ela nos ensina que nossa visão de Jesus é constantemente influenciada pelo meio que vivemos e pelas circunstâncias em que nos encontramos.

Herodes há pouco havia assassinado João Batista e um peso opressor em sua consciência fazia ele temer o desconhecido Jesus.

“é João Batista que ressuscitou...” aponta para uma mente escravizada em seus medos e atormentada pela possibilidade de punição vinda do “além”, justamente por estar influenciada pelo momento em que vive.

É justamente por isto que muitos se aproximam de Jesus por causa das dificuldades ao redor; seja pelo medo da enfermidade, da destruição familiar ou pelo medo do próprio castigo eterno por causa de uma vida afastada de Deus. Para este tipo de visão temos até um ditado infame dentro das igrejas ”quem não vem por amor vem pela dor”. O que mostra que nossa visão está totalmente fora de foco.

A multidão que cerca a Jesus, a multidão que o espreme nas praças e não permite a ele momentos de descanso é exatamente a mesma que diante de Pilatos solicita a sua crucificação.

O mesmo Herodes que queria ver Jesus realizar milagres, era o mesmo que tinha medo dele e o manda de volta para Pilatos e por pilatos é  crucificado.

Karl Barth afirmava que este é o significado que Jesus deve assumir nas nossas vidas “a investidura do filho do homem em filho de Deus”. (Barth, Karl – Carta aos Romanos, pg. 30 – Editora Fonte Editorial).

Quando Mateus inicia seu relato do ponto de vista de Herodes ele está enviando uma mensagem através dos tempos: ajuste o seu foco!!! não faça o juízo errado de quem Jesus é. Não seja como Herodes e nem como todos os outros que mataram Jesus e os profetas: Ele é o filho de Deus.

E para nos demonstrar isto Mateus incia seu discurso didático afirmando que...

2. 2.  Jesus é humano

“Jesus, ouvindo isto, retirou-se dali num barco, para um, lugar deserto, à parte”

O Verbo que se faz carne e que compartilha conosco de nossas fragilidades é um dos maiores mistérios do evangelho, e um dos pontos centrais para compreender o amor de Deus para com as nossas vidas.

O medo de Herodes em relação a Jesus, como João Batista que ressurgiu, é também o medo do desconhecido, e mais, o medo de um deus incapaz de entender as mazelas e as fragilidades do ser humano por viver separado desta humanidade.

A o afirmar que Jesus busca um lugar de refúgio ao saber da morte de seu primo, Mateus nos ensina que Jesus era humano e por isto capaz de entender as dificuldades pelas quais passamos nesta vida.

Isto serviu de grande consolo para aquele Igreja e de igual forma deve servir de grande consolo para esta igreja. Para a sua vida, para as nossas vidas. De que temos alguém a quem recorrer e que é capaz de compreender cada uma das nossas dificuldades.

3. 3.  Jesus está acima das necessidades

“compadecendo-se dela, curou os seus enfermos.”

A enfermidade é algo muito pessoal em relação a vida das pessoas e ela é capaz de modificar toda a nossa rotina de vida.

Estar enfermo ou ter alguém em nossas famílias enfermo é algo que transtorna o nosso viver e nos priva de usufruirmos a plenitude da vida. A enfermidade trás consigo dor, sofrimento, desilusão, abatimento, lágrimas, limitações e em alguns casos a própria morte.

Mateus então nos apresenta um Jesus que, como filho do homem, é capaz de se compadecer com tudo aquilo que nos limita como pessoas. Neste trecho específico Jesus está curando os enfermos, mas também em outros vemos ele expulsando demônios, denunciando o pecado, consolando corações...

A humanidade de Jesus não era para Ele impedimento para trazer a cada uma destas pessoas soluções para seus problemas pessoais.

Mas Jesus é maior que a enfermidade e a morte. Jesus é maior que as doenças da alma,  e das doenças físicas. Jesus é maior que a morte que penetra sorrateiramente nossos relacionamentos familiares e em nossos casamentos: Jesus é muito maior. É exatamente por ser maior que ele é capaz de curar os seus enfermos!

4. 4.  Jesus está acima da vida

“Todos comeram e se fartaram; e dos pedaços que sobejaram levantaram doze cestos cheios”

O testemunho de Mateus é que 5.000 homens comeram, fora mulheres e crianças. Eu chutaria aproximadamente de 15 a 20.000 pessoas sendo alimentadas com apenas 5 pães e dois peixes. Verdadeiramente uma grande multidão!

Famintas. As necessidades corriqueiras de nossa vida. Comer, beber, dormir, trabalhar, descansar. As atitudes e ações naturais de todo aquele que precisa viver neste mundo, não as necessidades especiais da vida de cada pessoa, mas aquelas comuns, naturais, corriqueiras.

Nossas necessidades pessoais, exemplificadas no tópico anterior através das enfermidades que limitam o nosso viver, estão contidas e envoltas por algo muito maior: pela própria vida.

A vida é tão importante que a própria palavra nos dá o testemunho que Deus não se alegra com a morte de ninguém.

E cada uma das necessidades listadas acima são importantes para a preservação desta vida. É tão importante que Jesus não as ignora. Os seus discípulos sim tentavam ignorá-las mas Jesus não. O filho do homem tinha a capacidade de compreender a importância e o lugar que cada um destes aspectos ocupava no viver humano.

E as alimenta todas de tal forma que sobra comida e os cestos que sobram estavam abarrotados.

A mensagem não está nos 5 pães e 3 peixes, a mensagem não está nos quase 15.000 alimentados, a mensagem está nos 12 cestos cheios, abarrotados de pães e nas pessoas totalmente saciadas. Pois Jesus é maior que a própria vida.

Somos naturalmente insaciáveis. Sempre querendo mais, nunca satisfeitos, inconcebivelmente descontentes, nunca fartos.

Se arrumamos a casa, o marido não está bom. Se arrumamos o marido o salário está ruim. Se melhoramos o salário as roupas não estão boas. Sempre mais, sempre mais e mais.

E Mateus nos manda o recado: o suprimento que Jesus tem para sua vida é inesgotável, a tal ponto que você se fartará e ainda sobrará.

Mas nossos olhos precisam ajustar o foco! Estamos tão preocupados olhando para as enfermidades e desejando a cura que as vezes já não conseguimos enxergar aquele que é maior. Estamos tão ocupados em nosso dia a dia providenciando o alimento e o dinheiro para morar, viver e se vestir que as vezes não percebemos aquele que é maior que a própria vida e que está diante de nós.

5. 5.  Ele é maior que a própria criação

“Â quarta vigília da noite, foi Jesus ter com eles, andando sobre o mar”.

De todos os milagres de Jesus, inclusive a ressurreição de Lázaro e até mesmo a sua transfiguração, para mim este é o mais fantástico e surpreendente milagre de toda a bíblia.

Um homem, aparentemente comum, subjugando todas as leis da natureza através de um dos atos mais comuns de nosso cotidiano: caminhar. Um homem caminhando sobre as águas. Águas nada calmas já que o relato bíblico me informa que ventava muito naquela noite.

Sim todas as leis da natureza e o poder indomável da criação subjugados ao homem Jesus.

A reação dos discípulos é imediata, começam a gritar desesperadamente, apavorados. Nada diferente de algumas atitudes que temos quando não conseguimos perceber o sobrenatural de Deus, mas isto é assunto para uma outra pregação.

Assim como Herodes, assim como os enfermos doentes e a multidão alimentada, seus discípulos parecem não compreender que estão de frente para alguém que é maior do que o próprio universo que contém a nossa vida.

Muito interessante a forma que Deus usa Mateus para nos mostrar que o fantasma que os discípulos criam andar por sobre as águas se assemelha muito com o João Batista, morto, encarnado em Jesus segundo a visão de Herodes.

Este é um risco sério que a Igreja corre em todos os dias de sua existência neste mundo: de não conseguirmos perceber quem é este filho do homem. Corremos o risco de interpretá-lo errado segundo apenas a realidade que vivemos, ou de acordo com as nossas próprias necessidades ou quem sabe do ângulo de visão de nossas vidas.

Mas este filho do homem é maior do que tudo isto junto: maior que meus medos, que meus desejos, que minha vida e maior que o próprio universo que a contém

6. 6. Ele é Deus

“ Então os que estavam no barco adoraram-no, dizendo: Verdadeiramente tu és Filho de Deus. ”

Este é o clímax e o final da lição que Mateus nos dá. O filho do homem, o Jesus histórico, que caminhou no meio de nós, que se compadeceu dos enfermos e teve misericórdia dos famintos, que os curou, que os alimentou, que era capaz de ignorando as leis do universo subjugá-lo para ir em direção aos seus discípulos, sim! Este mesmo Jesus não é outro além do próprio filho de Deus habitando em nosso meio.

A partir daí, deste conhecimento de fé - não por compreensão da mente ou por experiência de vida, mas pela fé – sim a partir deste ponto nada mais importa.

Nos tornaremos como o homem que achou um tesouro em um campo e foi e vendeu tudo que tinha e adquiriu aquele campo. Seremos como aquela mulher cujo único tesouro que tinha era seu vaso de alabastro e dele se desfez para estar com o mestre, ou quem sabe como Lázaro que mesmo envolto pela negridão da morte decidiu sair de volta para a vida ao ouvir a voz do filho de Deus.

Que Deus nos abençoe.

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