Gnosticismo

08/10/2012 13:42

 

Literatura gnóstica

A real origem do gnosticismo não foi plenamente elucidade. Há quem considere o gnociticismo uma transformação sincretista do cristianismo; outros opinam por uma gnose pré-cristã, proveniente do judaísmo heterodoxo tardio ou do mundo do helenismo não fortemente diferenciado em sua estruturação, atingindo o máximo de energia e expressão apenas no cristianismo do século II. Outros sustentam que existe sempre a possibilidade de seu reaparecimento em movimentos espirituais análogos, revestidos de peculiar modalidade de seu sistema especulativo e de sua concepção do mundo.

Entre as características do gnosticismo se destacam tanto um dualismo absoluto de: Deus-Mundo, Espírito-Matéria, Bem-Mal, como ainda uma seqüência de emanações do Deus transcendente e supremo, a se desdobrarem até o mundo ínfimo da Matéria e do Mal. Também o homem foi implacavelmente arrastado à luta entre a luz e as trevas, ou seja, pelo pendor à caduciade, do qual só pode ser salvo pelo conhecimento (gnosis) das reais interdependências das coisas.

No decurso do século II, a literatura gnóstica ultrapassou largamente a literatura eclesiástica, em extensão e forma. Todavia , com exceção de apócrifos neotestamentários e alguns outros fragmentos, quase todos os escritos gnósticos se haviam perdido, até a recuperação de parte notável deles, graças às descobertas de tradições coptas.

A maior parte da literatura antignóstica do século II sofreu igual sorte. Sabemos, no entanto, que Agripa Castor escreveu contra Basílides; Filipe de Gortina, Modesto e Rhodon, discípulo de Taciano, originário da Ásia Menor refutaram Marcião. Musano combateu os encratitas. Cândido, Apião, Sexto e Heráclito polemizaram, ao que parece, também contra os gnósticos, bem como Hegesipo. Preserveram-se somente obras antignósticas completas de Ireneu, Clemente de Alexandria, Tertuliano e Hipólito.

Escritos gnósticos na tradição copta

Até os tempos modernos, o conhecimento dos numerosos escritos gnósticos dos séculos II e III se limitou aos fragmentos contidos nas refutações de escritores eclesiásticos; paralelamente pode-se afirmar que grande parte dos apócritfos neotestamentários têm colorido gnóstico ou que são de autoria gnóstica. No início da segunda parte do século XIX, foram editados três manuscritos, abrangendo originais gnósticos mais extensos, em língua copta: o “Código Askwianus; o “Código Brucianus” e, finalmente, o “Papyrus Berolinensis 8502”.

As obras gnósticas de tradição copta (mss. De “Chenoboskion”, mais 3 mss. Coptas, e um fragmento grego) podem ser dividas em três grupos: textos, em forma de apócrifos bíblicos; obras de mestres gnósticos, em estilo de tratado sistemático, de carta doutrinal ou de homilia; finalmente, textos herméticos, de uso gnóstico.

1.   O segundo escritos, integralmente conservado, do “Código Brucianus”é um Tratado sobre o mundo supraterreno, provavelmente de autoria setiana entre 170-200.

2.   O Evangelho da verdade, por valentinianos. Não possui, de modo algum, o estilo de evangelho; trata-se antes de uma homilia, redigida com o intuito de apresentar a gnose da salvação como boa-nova. O escrito é dos meados do século II. O fato de Ter utilizado a epístola aos Hebreus e o Apocalipse lhe dá inestimável valor para a história do Cânon bíblico.

3.   Sobre a ressurreição, carta doutrinal, interpreta a ressurreição da carne, com atenuados trços gnósticos; refere-se a palavras paulinas, à transfiguração e à ressurreição de Jesus. Afirma que, pela fé, o homem já ressucitou nesta vida, espiritualmente; entrará, imediatamente depois da morte, no céu. O escrito não menciona juízo escatológico.

4.   O tratado Das três naturezas começa com uma exposição da doutrina gnóstica acerca da Trindade (Pai, Filho e Igreja preexistente); está escrito em copta inclulto, em estilo pesado e rústico. Seguem-se uma cosmogonia e uma interpretação alegórica da narração paradisíaca. A história percorre o estádio da matéria, passa pela religião judaica, até atingir a pura espiritualidade; o redentor, finalmente, opera a separação das três naturezas, a saber: dos pneumáticos, dos psíquicos e dos “hylicoi”.

5.   O Evangelho de Filipe, cuja existência talvez seja pressuposta pela “Pistis Sophia”. Trata-se antes de uma coleção rica e variada de meditação gnósticas, na qual prevalecem idéias valentinianas. Os temas mais destacados são: Adão e o paraíso; esposo, esposa e o tálamo nupcial; os mistérios gnósticos do batismo, da eucaristia e da crisma; peculiarmente, contudo, o ministério da tálamo nupcial.

6.   A Hipóstase dos arcontes. Assim se chama o tratado de um mestre gnóstico, versando sobre a origem dos arcontes, sobre Adão e Eva e a construção da arca; Norea, finalmente, mulher de Set, comunica as revelações de um anjo.

7.   Da Origem do mundo. Este tratado, contra Hesíodo e os filósofos gregos, pretende demonstrar que no início não era o caos; ao contrário, o caos, os arcondes e o mundo restante nasceram da Pistis Sophia, e no fim da evolução, a luz será novamente segregada das trevas. A base bíblica da obra é Gn 1-3, com adaptação às idéias gnósticas. A contribuição de elementos cristãos é insignificante. O escrito possui nítido caráter compilatório, referindo-se o próprio autor à transcrição de outros escritos gnósticos e manifestando idéias análogas às da Sophia Jesu Christi e às da Hipóstase dos arcontes.

8.   A Carta de Eugnostos. Trata de Deus ingênito e da origem do mundo superior (cosmogonia, emanações). Em vão se procurariam elementos bíblicos ou cristãos; a carta foi cristianizada meramente em sua forma exterior, quando aproveitada na Sophia Jesu Christi.

9.   O Apocalipse de Adão. Contém revelações recebidas por Adão e legadas a seu filho Set. Adão narra sua perda da glória e da gnose. Aparecem-lhe três pessoas, revelando por menores referentes aos descendentes gnósticos de Set, salvos do dilúvio, do fogo, do pez e do enxofre. Depois, apresenta-se o gnóstico Foster, que faz revelações aos filhos de Cam e Jafé. Há um excurso, em 14 exposições diferentes, sobre a formação de Foster. Os povos fazem penitência e se salvam por um batismo gnóstico. A obra não encera traços cristãos, servindo de prova da existência de uma gnose pré-cristã, com elementos judaicos, iranianos e helenistas.

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