Gnosticismo 1

08/10/2012 13:41

 

Algumas concepções foram espalhadas nos primeiros anos do século II a respeito de Cristo. Tais concepções negavam a humanidade e a morte efetivas de Jesus, afirmando que ele não viera “na carne”, mas sim, no aspecto de um fantasma, aparência docética. Essas opiniões têm sido consideradas os pródromos do gnosticismo. É verdade que o conceito docético do Cristo era um dos característicos de grande parte do ensino gnóstico. Mais provável, porém, é que essas opiniões primitivas provinham mais da tentativa de explicar a aparente contradição entre o Jesus da história e o Cristo da fé, do que especulações puramente gnósticas. Tão grande era o contraste entre a vida terrena de humilhação e a preexistência e pós-exist6encia em glória, que a solução mais simples para o problema cristológico poderia ter sido a negação total da realidade da vida terreno do Cristo. Cristo - argumentavam - na realidade aparecei, e ensinou os seus discípulos. Mas, durante esse tempo, era um ser celestial, e não de carne e sangue.

O gnosticismo propriamente dito era algo de alcance muito maior. Chegou ao ápice de sua influência entre 135 e 160, aproximadamente, embora continuasse a existir muito depois dessa data. Chegou a representar séria ameaça à subsist6encia da fé cristã histórica e, por isso, suscitou a crise mais grave por que passou a Igreja cristã desde os dias da luta paulina por liberdade em relação à lei. Sua expansão e consequente perigo foram possibilitados pelo estado da Igreja nos seus primórdios, relativamente desorganizada e doutrinariamente indefinida. A Igreja conseguiu vencer o perigo e, ao fazê-lo, organizou-se de maneira mais firme e aprimorou um credo mais claramente definido - contrastando com a situação mais espontânea e carismática do cristianismo primitivo.        

O gnosticismo afirmava basear-se no “conhecimento” (gnosis), mas não no sentido em que usualmente entendemos essa palavra. O seu tipo de conhecimento era sempre uma sabedoria mística, sobrenatural, mediante a qual os iniciados eram levados a um verdadeiro entendimento do universo e salvos deste mundo mau da matéria. Na sua base estava uma doutrina da salvação. Nesse sentido, assemelhavam-se às religiões de mistério. Sua característica mais proeminente, porém, era o sincretismo. Apropriava-se de muitos elementos provindos de fontes as mais variadas e assumia formas diversas. Impossível se torna, por isso, falar de um único tipo de gnosticismo. No geral, era místico, mágico ou filosófico, segundo os elementos predominantes no seu sincretismo. De origens pré-cristãs, já existia antes de o cristianismo se manifestar. Havia os tipos judaico e pagão. Está presente na literatura hermética do Egito. Continha elementos provenientes da astrologia das antigas concepções religiosas babilônicas. Apregoava uma visão dualista do universo, de origem persa,  e uma doutrina de emanações de Deus no “pleroma”, ou esfera do espírito, provavelmente de raiz egípcia. O conceito provavelmente mais fundamental - o caráter totalmente mau do mundo dos fenômenos - vinha da combinação da teoria paltônica do contraste entre o mundo espiritual e real das “idéias”, e o mundo visível dos fenômenos, interpretada nos termos do dualismo persa. O primeiro seira bom, e a ele o homem devia esforçar-se por retornar. O segundo, totalmente mau, verdadeira prisão para o homem. O mundo de matéria é mau. Seu criador e governador, por conseguinte, não é o Deus sublime e bom, mas sim um ser inferior e imperfeito: o demiurgo. Para salvar-se, o homem tem de ser libertado da prisão do mundo visível e seus poderes, os poderes planetários. O instrumento de libertação é o “conhecimento” (gnosis), uma iluminação espiritual mística dos iniciados, que os põe em comunhão com o mundo real das realidades espirituais.

Já de si fortemente sincrético, o gnosticismo encontrou no cristianismo muitos elementos de que poderia lançar mão. A figura de Cristo, em especial, servia de centro definido e concreto para sua teoria de um conhecimento superior e salvador. Era ele o revelador do Deus supremo e perfeito, até então desconhecido dos homens. Mediante essa iluminação, todos os homens “espirituais”, capazes de recebê-la, seriam levados outra vez para o âmbito do Deus bom. Considerando que o mundo material é maior, o Cristo não poderia ter tido uma encarnação real, e os gnósticos explicavam seu aparecimento como sendo de natureza docética ou de fantasma, ou como uma habitação temporária do homem Jesus, ou como um nascimento aparente de uma virgem, sem participação na natureza material. O Deus do Antigo Testamento, criador do mundo visível, não pode ser o Deus supremo revelado por Cristo, mas sim um demiurgo inferior. Os gnósticos explicavam o fato de nem todos os cristãos possuírem o “conhecimento” salvador, dizendo que este era um ensino secreto transmitido pelos apóstolos aos seus discípulos mais íntimos, uma exposição de “sabedoria entre os perfeitos”. É verdade que, embora Paulo estivesse muito longe de ser um gnóstico, muita coisa há no seu ensino de que se serviam os gnósticos. o contraste violento entre carne e espírito, o conceito de Cristo como vitorioso sobre “principados e potestades” que são os “dominadores deste mundo tenebroso”, e a idéia do Cristo como Homem do Céu, todas essas são idéias paulinas de que os gnósticos podiam servir-se. Para eles, Paulo fora sempre o apóstolo principal.

O gnosticismo dividia-se em muitas seitas e apresentava-se em grande variedade de formas. Em todas elas o Deus supremo e bom é o chefe do mundo espiritual de luz, chamado em geral de “pleroma”.  Fragmentos desse mundo foram aprisionados neste mundo visível de trevas e mal. Nos últimos estágios do gnosticismo, esse elemento caído do pleroma é representado como o mais inferior de uma série de “eons”ou seres espirituais, emanações do Deus superior. Foi para resgatar essa porção decaída, os resquícios de luz presentes no mundo visível e mau, que Cristo veio trazer o verdadeiro “conhecimento”. Pelo seu ensino, os que estão capacitados para recebê-lo são restaurados ao pleroma. São poucos os que se encontram em tal situação. Em geral, as seitas gnósticas dividiam os homens em grupos: os “espirituais”, capazes de salvação, de um lado, e os “materiais”, que não podiam receber a mensagem. Posteriormente, o gnosticismo, notadamente a escola de Valentino, falava num tríplice divisão: os “espirituais”, os únicos capazes de atingir o “conhecimento”; os “psíquicos”, capazes de fé e de um certo grau de salvação, e os “materiais”, totalmente sem esperança.

A tradição cristã atribuía a Simão, o Mágico, a fundação do gnosticismo cristão: de concreto, pouco se conhece a respeito de suas relações com este. Podemos citar como líderes mais provadamente definidos a Satornilo de Antioquia, que viveu antes de 150; Basílides, que ensinou em Alexandria por volta de 130, e, com destaque espeical, Valentino, que trabalhou em Roma entre 135 e 165, aproximadamente, e edeve ser considerado um dos pensadores mais brilhantes da época.

O gnosticismo representava um enorme perigo para a Igreja. Solapava os fundamentos históricos do cristianismo. O seu deus não é o Deus do Antigo Testamento, o qual era por eles considerado obra de um ser inferior e até mesmo perverso. O seu Cristo não tivera encarnação, morte ou ressurreição reais. Sua salvação restringia-se aos poucos capazes de iluminação espiritual. O perigo era ainda aumentado pela circunstância de o gnosticismo ser representado por alguns dos cérebros mais brilhantes da Igreja do século II. Vivia-se uma era de sincretismos, e, em certo sentido, o gnosticismo não passava de fruto último e amadurecido do amálgama entre a perquirição filosófica helênica e oriental com primitivas crenças cristãs, amálgama esse que, nessa época, ainda estava em processo de maior ou menor desenvolvimento em todo o pensamento cristão.

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