CONFLITOS FAMILIARES – CONVIVENDO COM DECEPÇÕES

19/09/2013 10:39

Invariavelmente um conflito familiar passa por duas etapas ou razões primordiais e importantes: ciúmes e dinheiro. Um ou outro. Quando não os dois juntos. Conflito familiar não escolhe classe social, e ninguém está imune a ele. Certamente você tem uma história na sua família. Por vezes pai ou mãe são os fatores que fazem as aparências serem mantidas. Mas quando estes se vão…

Em muitos lares, aniversários, datas especiais e festividades de fim de ano, são comemoradas parcialmente porque irmãos não podem se encontrar no mesmo recinto. Você já presenciou alguma cena destas? Numa determinada família a cada final de ano os pais ceavam cinco vezes seguidas. Cada uma com um filho diferente. O irmão mais velho reclama do segundo, as duas irmãs reclamam uma da outra e o caçula reclama de todos.

Um filho intermediário de uma família numerosa desde pequeno mostrava intolerância para com seus irmãos. Tudo dele era melhor, mesmo que fosse inferior. Seus amigos eram melhores do que os amigos dos seus irmãos. Ciumento com suas coisas, tudo era guardado debaixo de segredos e segredos. Seus olhos por vezes ficavam vermelhos. O que era intolerância pueril, virou arrogância adulta. Sua situação financeira era péssima, pois negócios mal feitos o levaram a quase passar por necessidades. Para ele a culpa de ele estar naquela situação eram dos seus ex-amigos e ex-sócios, que segundo ele o haviam roubado e enganado. O conflito com seus irmãos ainda continuava, pois, beligerante não perdoava nada. Um carro novo, uma viajem, um relógio comprado eram motivos mais do que suficientes para a critica exasperada e continua. Na mesma hora que sorria, hostilizava, numa atitude de passionalismo exacerbada. Mesmo com toda esta carga emocional e de problemas um dos irmãos resolveu que devia ajudá-lo. Depois de muitos anos afastados somente se cumprimentando, mas não sendo inimigos, foi lhe dada a oportunidade de fazer alguns negócios, sobre a tutela do irmão.

O irmão deu carro, dinheiro, roupas, apresentou amigos e clientes, dando a chance de se restabelecer financeiramente. Durante uns poucos meses as coisas pareciam ir bem, mas novamente o ciúme e a inveja falaram mais altos e ele fez o que fizera a vida inteira: indispôs-se com seu irmão. Só que desta vez foi longe demais. O sucesso alheio o maltratava e logo ele revelou o seu verdadeiro eu.

Esta história faz lembrar do episódio da serpente venenosa com a espinha quebrada. Não adianta tratar dela. Tem de deixá-la à própria sorte, se você for cuidar dos ferimentos e ela se curar, cedo ou tarde ela vai te morder. É da índole e do caráter dela. Não há outro jeito.

Você, leitor pode dizer que a misericórdia divina deve superar cada obstáculo destes. É verdade. Mas vá dizer isto a gente que tem o caráter corrompido? Primeiro que o errado nunca vai reconhecer que está errado. Depois porque a arrogância e a empáfia dele jamais vai permitir que ele se humilhe diante dos seus irmãos. Daí o conflito tende sempre a se acentuar cada vez mais. Se tiver dinheiro envolvido na história então…

Qual então é o papel dos pais neste processo todo? O diálogo deve ser exercido de todas as formas e meios. Muitos são incapazes de detectar os conflitos e os sanearem. Não estamos abordando os relacionamentos de pais com filhos, de marido e mulher, ou dos demais graus de parentesco, somente os entre irmãos.

Invariavelmente o conflito familiar entre irmãos tem as suas origens na infância. O pai gosta mais de um do que de outro. A mãe aprecia mais o outro do que o um, e por ai vai. Há filhos que não sentem, mas via de regra ressentem-se pela vida afora.

Em qualquer família tem sempre aquele que se destaca em tudo o que faz, tem aquele que trata os pais com carinho e atenção, tem aquele que por motivos diversos se retrai, tem o expansivo e o tímido, o que explode por tudo e o que tudo tolera. Tem o sorridente e o que chora por nada. Há pais que tratam os diferentes como iguais e os iguais como diferentes. Há também a questão dos anos que se passam, nem sempre o amoroso da infância é o atencioso na idade adulta, o certo é que por vezes os conflitos familiares nascem nas disputas domésticas por um carrinho, um carinho, uma boneca, um pedaço diferente do bolo da mamãe, e atravessa armazenando raízes de amargura e ódio, para descambar em irreversíveis conflitos que jamais serão resolvidos.

Há aqueles casos de que um dos irmãos fez com que a estabilidade financeira da família vá para o buraco, por imprevidência, por causa de negócios mal feitos ou mesmo por imprudência.

Os conflitos familiares são extremamente dolorosos e deixam as suas marcas indeléveis. O grande e crucial problema é que pais não sabem como resolvê-los. Por vezes as tragédias ou dores reaproximam os contendores, mas jamais as relações serão as mesmas, ficará no ar a mágoa e a dor. Permanecerá a desconfiança de que quem aprontou uma vez, fará de novo.

Como evitar conflitos familiares

A família e o dinheiro

Conforme já comentei em artigo anterior, creio ser bastante razoável dizer que a família é uma das principais fontes de influência na maneira que nós, brasileiros, pensamos em dinheiro – se não a maior. Em casa aprendemos desde a infância, observando e escutando os mais velhos (pais, tios, avós), a criar vínculos emocionais em relação a questões envolvendo receitas e despesas. E tais vínculos acabam aparecendo, de uma maneira ou de outra na vida adulta, ao constituir a própria família.

Apesar de não ser algo hereditário, transmitido pelos genes, acredito que boa parte do sucesso ou fracasso financeiro pessoal pode ser explicado pelos paradigmas aprendidos dentro de casa. E devido à relevância de tal assunto, decidi escrever o presente artigo, em que buscarei apresentar um caminho para aquelas famílias que, mesmo demonstrando muito carinho e afeto entre seus componentes, possuem sérias divergências quando o assunto se refere ao gerenciamento do orçamento doméstico.

Origem dos conflitos familiares

Conheço muitas pessoas que consideram a família a instituição mais importante de suas vidas – particularmente, esse é também meu ponto de vista. Porém, todos sabemos que a realidade não é um conto de fadas, e que em determinadas situações cria-se um ambiente hostil nas relações entre pais e filhos, irmãos, marido e esposa. São os chamados conflitos familiares, sendo que nosso foco se dará em relação às questões puramente financeiras.

Os conflitos familiares têm sua origem na diversidade de opiniões. Tomemos como exemplo o caso entre marido e esposa. Cada qual, por maior que seja a afinidade sentimental, possui uma criação peculiar, recebida de seus familiares, em relação ao dinheiro. Não é incomum encontrar casais que, constantemente, se desentendem sobre como gerenciar o orçamento doméstico, simplesmente por enxergarem a vida financeira sob óticas diferentes.

Portanto, por mais sintonizados que duas ou mais pessoas sejam, sempre existirão opiniões divergentes, pois nenhum ser humano é igual a outro. Em se tratando, especificamente, de finanças pessoais, conflitos familiares certamente surgirão. Porém, a sabedoria está exatamente em lidar com as diferenças, transformando a ocasião em um fortalecimento da família ao invés de desunião. É sobre isso que esse artigo se destina.

Pense ganha-ganha

Não é preciso ser um estudioso do comportamento humano para verificar que o pensamento ganha-perde está disseminado em nossa sociedade. Isso significa que ao buscar a solução de um conflito, busca-se defender os interesses pessoais em detrimento dos anseios alheios. O paradigma é: se alguém ganha, outro deve sair perdendo. Dessa forma, dissemina-se a ideia de que é preciso manipular a contraparte envolvida de modo a forçá-la fazer o máximo de concessões. Então, surgem discussões, brigas, até que alguém acabe cedendo.

Esse ponto de vista não é salutar em situação alguma, muito menos naquelas envolvendo o orçamento familiar. Toda vez que alguém sai perdendo num processo de negociação sobre como gastar o dinheiro da casa, é realizado um saque em sua poupança emocional. Talvez o autoritarismo ou manipulação de quem ganhou a lide pareça resolver o problema de imediato, mas existirão reflexos negativos nas futuras relações, principalmente naquelas que não envolverão dinheiro.

Portanto, se está lendo esse artigo e quer evitar conflitos familiares, é preciso pensar ganha-ganha. Principalmente se você for o(a) principal provedor(a) de sua família, em que tal posição acarretará na vontade de resolver tudo a seu modo quando houver discussão sobre como alocar os recursos financeiros. Pensar ganha-ganha pode ser traduzido como: defenda a visão da outra pessoa como se fosse a sua. Para quem está acostumado apenas a dar ordens, isso não será nada fácil, mas se estiver seguro de si, irá se espantar ao ver como as coisas serão diferentes.

Prepare-se emocional e mentalmente para rejeitar qualquer acordo que não seja satisfatório para todos os envolvidos da família. Mostre sua disposição em querer o melhor para o outro. Como consequência acabará desarmando essa pessoa e trazendo-a para junto de si. Escute (sem ataques prévios) a opinião alheia e use a diversidade de opiniões para aflorar sua criatividade – cogite soluções que nunca foram pensadas antes. Deixe bem claro: se alguém for sair perdendo, NADA FEITO: adia-se a decisão até que uma melhor solução apareça.

Ao invés do autoritarismo ou manipulação, use da franqueza, sinceridade e honestidade. Isso melhorará exponencialmente a comunicação dos membros da família. Obviamente tal atitude exigirá grandes sacrifícios iniciais, em que será preciso deixar em “banho-maria” os próprios interesses para entender o dos outros. É o tal “dar um passo atrás para, só depois, dar dois à frente”. Lembre que está fazendo algo transformador em prol da instituição mais importante de sua vida, que é a família. Essa será sua fonte de energia interna para ter a paciência necessária de forma a criar um novo ambiente, com o mínimo de conflitos.

Exemplos de diálogos

A seguir, veja exemplo de dois diálogos, em que a Situação 1 representa o ganha-perde, e a Situação 2 a busca de um ganha-ganha.

Situação 1 (ganha-perde):

Esposa: precisamos trocar o meu carro.

Marido: nem pensar, não temos dinheiro para isso.

Esposa: mas…

Marido: pare com essa conversa; sou eu quem cuido do dinheiro da casa.

Situação 2 (em busca do ganha-ganha):

Esposa: precisamos trocar o meu carro.

Marido: o que te leva a pensar assim, amor?

Esposa: ele está dando alguns problemas e não quero mais carro sem direção hidráulica.

Marido: em relação aos problemas do carro, amanhã vou levá-lo ao mecânico para ver se dou um jeito. Pode ser?

Esposa: Ok, mas isso não resolve a questão da direção hidráulica. O que acontece é que aquele desconforto que tenho no ombro, você sabe né? Acho que está se agravando com essa direção dura. Quando dirijo o dia todo, o ombro dói muito a noite.

Marido: o que você acha de ficar com o meu carro, que tem direção, daí eu fico com o seu?

Esposa: mas assim você sai prejudicado…

Marido: é que agora parece ser o que podemos fazer. Se trocarmos de carro agora, precisaremos contrair uma dívida que não virá em boa hora. Não creio que trocar de carro seja a melhor opção, no momento. O que pensa sobre isso?

Esposa: bem… e se revezássemos o uso do carro com direção hidráulica? Nos dias em que eu precisar usá-lo o dia todo, fico com o hidráulico. Naqueles em que só precisarei sair para levar nosso filho à escola, você fica com ele. Acho que já melhoraria bastante a meu desconforto com o ombro.

Marido: eu ainda acho que pode ficar com o meu todos os dias. Mas vamos fazer esse teste, de revezarmos o carro, na próxima semana? Se ficar ruim, achamos outra solução. Ah, e prometo fazer uma massagem no seu ombro sempre que estiver doendo. Se persistir, vamos ao médico tratar esse problema.

Esposa: perfeito, vamos tentar… te amo.

 

Deu para perceber a diferença no diálogo, logo na primeira frase do marido? É isso que chamo de usar a liberdade de escolha de maneira inteligente. Treinar a reação para chegar a uma solução melhor que as duas alternativas óbvias, de trocar ou não o carro da esposa. É encontrar uma terceira alternativa, que satisfaça a ambos, que só é possível de prosperar se houver uma relação de plena confiança entre as partes. A chave para isso é desejar ao próximo algo tão bom quanto deseja a si.

Considerações finais

Ao escrever esse artigo lembrei-me de um conceito econômico, bastante adequado ao tema, denominado Eficiência de Pareto. Atingir tal eficiência significa que não haverá mais a possibilidade de melhorar a situação de alguém, sem prejudicar de outrem. Visto de outra forma, uma melhoria de Pareto significa encontrar uma alternativa que melhore a vida de ao menos uma pessoa, sem prejudicar as outras envolvidas.

Essa ideia, de um economista italiano (Valfrido Pareto) nascido no século XIX, vem bem a calhar quando o assunto é resolução de conflitos familiares. Em um ambiente em que o ganha-ganha é instaurado, todos se sentem mais confortáveis em dar suas opiniões, respeitando sempre o ponto de vista alheio. É difícil colocar tais ideias em prática? A resposta é sim, mas acredito ser essa a melhor (e única) saída para uma construção verdadeira e duradoura de cumplicidade familiar.

Para finalizar, me ocorreu um trecho de uma música de Raul Seixas, perfeita para sintetizar o que há por trás do ganha-ganha: “sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só; mas sonho que se sonha junto, é realidade”.

Boa sorte em suas finanças e vida pessoal.

—————

Voltar