A Fé Paulina

21/09/2012 09:49

 

Introdução

Auto-Apresentação Do Apóstolo

Ele argumenta que é judeu de nascimento (Gl 2,150, circundado ao 8o dia conforme o costume da raça de Israel (Fl 3,5), da tribo de Benjamim, hebreu filho de hebreu, fariseu segundo o zelo pela Lei (Fl 3,5-6; Gl 1,13-14; Rm 1,11). No que tange ao título de “hebreu”, há ainda bastante por esclarecer. De qualquer forma, Paulo endereça-se aos seus falando hebraico, pois o palco das controvérsias era a sinagoga (cf. At 9,19-25).

“Irmãos e pais, escutai a minha defesa, que tenho agora a vos apresentar. Tendo ouvido que lhes dirigia a palavra em língua hebraica, fizeram mais silêncio ainda. Ele prosseguiu: ‘Eu sou judeu. Nasci em tarso, da Cilícia, mas criei-me nesta cidade [Jerusalém], educado aos pés de Gamaliel na observância da Lei de nossos pais, cheio de zelo por Deus, como vós todos no dia de hoje. Persegui de morte este Caminho [a prática da Lei], prendendo e lançando à prisão homens e mulheres, como o podem testemunhar o sumo sacerdote e todos os anciãos. Deles cheguei a receber cartas de recomendação para os irmãos em Damasco e para lá me dirigi, a fim de trazer algemados para Jerusalém os que lá estivessem, para serem aqui punidos.”(At 22,1-5).

Paulo, dentro do grupo dos fariseus, pertencia ao grupo dos puritanos, onde circulava a “sabedoria” dos mestres e sábios dos fariseus (Gl 1,14). Esta era, no dizer do apóstolo, a seita mais severa da sua religião (At 26,5).

Das duas grandes escolas rabínicas representadas por Shamai e Hillel, a de Hillel é a mais “farisaica” ou, reconhecidamente, mais dura. Desta é que sai Gamaliel, mestre de Paulo. R. Bultmann e M. Bhlig preferem sustentar a influência e permanência maior de Paulo entre o helenismo que entre o judaísmo. Outros dizem que ele é mais judeu que grego, no seu proceder e pensar. As duas tendências justificam-se pelas seguintes razões:

a) uma corrente que sustenta Paulo mais helenista baseia-se nos seus grandes conhecimentos helenísticos e na sua forma de anunciar “kérygma” (Paixão e Ressurreição) entre os gregos;

b) para a outra corrente a base e o relato de Lucas quando ele afirma que Paulo fala “aos seus” em hebraico (At 22,2).

Para o Apóstolo a experiência e diferente: de um ódio aparece um ódio fulminante provindo da sinagoga por julgá-lo traidor (isto supõe sua iniciação judaica) e do outro, a desconfiança. Por ter sido perseguidor dos primeiros cristãos e por suas pregações liberais colocada em crise o judaizante, e desconfiança quanto à fidelidade e ao ensinamento dos apóstolos em Jerusalém (At 15,1-21). Por outro lado, o cristianismo experimenta um conhecedor da tradição helenística, que entra sem ter fronteiras, e nem limites.

O Casamento

Dentro dos esquemas da tradição judaica, terminado o período de formação escolar, por volta dos 18 anos, o rapaz deveria estar casando. Paulo contudo, jamais menciona a sua situação, nem nome de esposa. Em 1 Cor 7,7-8 ele se apresenta como “agámos” (não casado). Estes não são argumentos decisivos para justificar sua situação civil. Numa outra passagem ele reclama  o direito de levar uma mulher consigo, para missão, como os irmãos do Senhor e Cefas (1 Cor 9,4). Esta reclamatória não esclarece o problema, pois pode tratar-se de diaconisas e não de esposas. A questão permanece aberta, e parece que ele evita tocar no assunto. Por outro lado, trata-se de algo muito delicado, pois envolve o papel e a dignidade da mulher no seguimento do Cristo e no apostolado da mulher (cf. Lc 8,1-3).

Damasco

A data do evento de Paulo, nesta caminhada é muito insegura. As propostas vão, todavia, entre a morte de Jesus e o reinado de Calígula, no ano de 37 d.C. Alguns exegetas como Kümmel e Bornkamm, situam o episódio nos anos 31-32; A. Stuhl recua um pouco, até o ano 30, enquanto outros preferem postergar aos anos 33-34.

As Características Da Fé Paulina

Quando se buscam meios de expressar o que é mais característico da fé paulina, as três qualificações “carismática”, “escatológica” e “tipológica” parecem as mais apropriadas.

Uma Fé Carismática Radical

Com o termo “carismático” quero dar a entender que, de acordo com o seu sistema de convicções, a revelação (as convicções fundamentais) que estabelece a verdadeira identidade dos fiéis como “escolhidos por Deus” e como estando “na verdadeira relação com Deus” é descoberta primariamente na experiência presente dos fiéis e não se encontra numa tradição (não se trata de se apropriar de uma revelação passada). Quero também exprimir que esta revelação é descoberta diretamente pelos próprios fiéis e não por intermédio de uma instituição (p.ex., a instituição do templo como lugar onde os fiéis podem estar na presença de Deus por intermédio de sacerdotes). Com outras palavras, de fé dos fiéis é estabelecida através e por causa das intervenções de Deus na experiência deles: os dons (charismata), a graça (charis) e a revelação. Porém temos de recordar que aquilo que chamamos de “experiência dos fiéis” nãos e limita à experiência privada de um indivíduo: inclui tudo o que se relaciona com este fiel na vida diária, e, portanto, também outras pessoas que pertencem à sua experiência.

Esta fé carismática é de tipo todo especial. Os fiéis carismáticos costumam se considerar e ser considerados por seu seguidores como tendo autoridade religiosa sobre os outros. Realmente, Paulo tem autoridade sobre os fiéis, e assim ele não hesita em se chamar de seu “pai” (cf. p. ex., I Ts 2,11; Fm 10), termo que supõe autoridade comparável à de Deus Pai; e reclama para si o título de “apóstolo”, que supõe autoridade comparável à do Senhor. Ele menciona esta autoridade para garantir que as igrejas por ele fundadas darão ouvidos às suas exortações. Ao mesmo tempo, recusa constantemente usar esta autoridade sobre seus seguidores. Sem dúvida, ele tem autoridade para lhes dar ordens: ele é apóstolo (1 Ts 2,6), embaixador (de Cristo) e prisioneiro por Cristo (Fm 9), não é inferior aos “eminentes apóstolos”, os quais, em razão de seus dons espirituais, são considerados pelos coríntios como tendo autoridade (2 Cor 12,11). Pode orgulhar-se de tais experiências espirituais, mas, quanto a ele, procede como insensato se agir dessa forma. Não, ele não exigiu que os tessalonicenses reconhecessem sua autoridade como apóstolo (e lhe dessem “glória”; 1 Ts 2,6); ele é, antes, uma criança entre eles. Sim, ele é o pai deles, mas não como alguém que exige algo de seus filhos, e sim como alguém que se doa (uma ama) a seus filhos. Ora, como ele o diz em 2 Cor 12,14, “não são os filhos que devem acumular bens (reservar seus bens) para os pais, mas sim os pais para os filhos”. Não, ele não se vale do título “embaixador do Cristo” ou “prisioneiro do Cristo” para dar ordens a Filemon. Não quer vangloriar-se de sua experiência espiritual pessoal para impor sua autoridade sobre os coríntios. Antes, gloria-se das suas fraquezas, porque nelas se manifesta o poder de Cristo (2 Cor 12,9-10).

Assim, embora Paulo não se considere líder carismático que, devido a dons especiais de Deus, pode usar sua autoridade sobre seus seguidores, ele não nega o caráter carismático da sua fé. Com outras palavras, não nega que as revelações que descobriu na sua própria experiência sejam centrais para ele. De fato, são a própria base da sua fé, como ele o diz enfaticamente em Gl 1,11-17. Sua fé, que ele procura transmitir aos outros, é tão fundamentalmente carismática, que não pode imaginar que os fiéis, nas igrejas que fundou, possam ser meros seguidores que dependessem de sua fé carismática (das revelações que recebeu). Nesta hipótese, os fiéis teriam outro tipo de fé, diferente da fé de Paulo.

Sua fé é radicalmente carismática. Sim, Paulo é carismático. Foi diretamente escolhido por Deus, do qual recebeu uma revelação e a vocação de apóstolo dos gentios sem a intervenção de nenhum ser humano e sem recorrer a qualquer tradição (Gl 1,11-17). Sua pregação aos gentios não visa a transmitir-lhes um sistema fixo de convicções (aquele que lhe fora revelado), mas a ajudá-los a ter a mesma fé que ele tem, fé pela qual eles próprios descobrirão Deus em ação nas suas experiências presentes e receberão revelações diretas de Deus. Seu objetivo é levá-los a descobrir o poder de Cristo, a saber, manifestações de Deus semelhantes às de Cristo na experiência deles.  estas revelações diretas “suplantam” as de Paulo, não em qualidade (de fato, são do mesmo tipo), mas em novidade. essas revelações aos fiéis se referem ao que Deus faz em novas situações.

Pode ser útil aqui uma analogia tirada do alpinismo. Um líder carismático que exige que as revelações que recebeu sejam consideradas pelos seus seguidores como autorizadas é semelhante ao chefe de uma expedição que atingiu o cume de uma montanha, usando apenas sua força e habilidade (que podem ser comparadas com a “visão, força e bondade superiores” do líder carismático). Lá do alto, ele guia os outros membros da expedição na escalada, mostrando-lhes onde ele pregou os cravos na rocha e ajudando-os a subir com a corda que ele lhes conseguiu. Neste caso, os fiéis não têm a mesma fé que o líder. Não têm uma fé carismática. Ao contrário, Paulo pode ser comparado a um membro de um grupo de alpinistas avulsos, isto é, alpinistas que sobem cada qual como fez o líder da expedição no exemplo anterior. Nesta escalada particular, ele sobe primeiro até certo ponto. Os outros membros do grupo, vendo que ele foi capaz de fazê-lo, se sentem desafiados. Confiam que podem fazer tão bem quanto o primeiro, que agora os encoraja, mostrando como ele venceu dificuldades semelhantes às que eles estão encontrando; e ele continua a fazer isto, mesmo quando já o passaram e estão subindo acima do ponto onde ele está. Entretanto ele aplaude a façanha deles.

Esta analogia, não obstante suas limitações , ajuda-nos a entender como Paulo pode ao mesmo tempo dizer que tem autoridade sobre os fiéis nas igrejas que fundou e ter a mesma condição que eles. Porque os precedeu na fé, é de fato um tipo para eles, e assim está numa posição que lhe permite exortar e encorajar os fiéis novos. Olhando para ele e para a sua experiência, na qual pela fé ele descobriu Deus em ação, eles podem, por seu turno, descobrir o sentido, pela fé, da experiência deles e nela descobrir Deus em ação e assim revelações de Deus para eles. Com efeito, à medida que Paulo pertence à sua experiência, ele pode ser (e com freqüência foi) manifestação de Deus entre eles. Porque sua experiência é um  tipo para os novos fiéis (e eventualmente uma manifestação de Deus para eles), ele não pode tolerar que sua experiência seja distorcida ou menosprezada, pois isto significaria distorcer e menosprezar o próprio evangelho. Mas Paulo não é o único tipo. Qualquer que precede os fiéis na fé tem função semelhante e autoridade sobre eles. É este o caso dos companheiros de Paulo, das igrejas da Judéia e dos outros apóstolos e discípulos mencionados em 1 Cor 15,5-7, como também o daqueles que Paulo chama de “primícias”, os primeiros convertidos de uma região (cf. Rm 16, 5; 1 Cor 16,15), que podem também ser manifestação de Deus na experiência de convertidos posteriores. Embora esta prioridade cronológica dê certa autoridade a alguns fiéis sobre os outros, não lhes confere, porém, diferente condições. Todo aquele que partilha esta fé com Paulo é irmão, colaborador, ou companheiro de luta. Pela fé eles estão na mesma relação com Deus. Descobrem Deus agindo no seu presente, como Paulo o faz. Desta forma recebem revelações (eleições, vocações) que superam as recebidas por Paulo.

Do ponto de vista da fé radicalmente carismática de Paulo, só se podem considerar os novos fiéis como tendo tal fé carismática, caracterizada pelo mesmo específico princípio de organização das convicções. Por conseguinte, Paulo não pode nem deve impor um conjunto específico de convicções aos outros fiéis. Nem os fiéis devem fazê-lo entre si. Devem considerar os outros superiores a si mesmos, porque nos outros podem descobrir manifestações críticas (Fl 2,3), como Paulo também pode ver intervenções de Deus nos outros (como ele o exprime em suas ações de graças a Deus em relação a vários fiéis). Já que todos têm a mesma condição, devem consolar-se, encorajar-se e exortar-se mutuamente (cf. p. ex. 1 Ts 4,18; 5,11.14).

Sempre de novo e de vários modos, Paulo exprime esta parte do seu sistema de convicções. Falando aos coríntios, muito preocupados com as experiências espirituais (êxtases, profecias, falar em línguas), ele se exprime em termos dos dons do Espírito. Contra os que se julgam superiores aos outros fiéis porque teriam dons espirituais superiores (e assim deveriam ser tidos como líderes carismáticos), afirma que “todos (os fiéis) bebendo de um só Espírito” (1 Cor 12,13). escreve ainda: “Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo; diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo; diversos modos de ação, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos” (1 Cor 12,4-6). Todos os fiéis participam desta fé carismática, através da qual descobrem intervenções de Deus no presente deles e recebem revelações e dons do seu Espírito. Há diferentes ofícios e funções na comunidade, mas estes ofícios e funções não colocam certos fiéis acima dos outros na fé. Todos eles são realizações do tipo Cristo e, portanto, todos eles são semelhantes ao Cristo e todos juntos formam o corpo de Cristo (1 Cor 12,27).

Uma Fé Escatológica

Paulo pode possuir esta fé carismática radical que exige que a pessoa considere os outros como iguais a si própria, porque sua fé é também “escatológica” por razões que diferem de acordo com o sistema de convicções e com as explicações teológicas.

De acordo com o sistema de convicções de Paulo  um metassistema de convicções  as únicas convicções absolutas e permanentes são as que serão estabelecidas para os fiéis no final dos tempos (no eschaton, na parusia). Como diz Paulo, agora vemos em espelho, e de maneira confusa, mas, depois, veremos faca a face. Agora o meu conhecimento é limitado, mas depois, conhecerei como sou conhecido”. (1 Cor 13.12). Já que só a revelação escatológica é absoluta, todas as outras revelações são relativas, parciais e incompletas: são “ver confusamente no espelho”. Isto também vale das revelações que Paulo ou qualquer outro cristão recebeu pela sua fé carismática. Mas então, se verdadeiros fiéis não consideram o seu sistema de convicções como absoluto, isso também significa que podem perceber os sistemas de convicções de outros fiéis como sendo, ao menos potencialmente, tão válido quanto, e possivelmente melhor que, seu próprio sistema de convicções (porém isso não quer dizer que todos os sistemas de convicções sejam válidos). Assim, porque a revelação absoluta, completa e final só é esperada para o futuro escatológico, cada cristão (e não somente um líder) pode ter fé carismática, isto é, pode-se esperar que cada cristão descubra novas revelações na sua experiência.

A fé carismática de Paulo também é adequadamente chamada de “escatológica”, porque as manifestações de Deus descobertas pelos cristãos são prefigurações das manifestações de Deus no final dos tempos (na parusia). Com outras palavras, esta fé carismática é caracterizada pela esperança, pela esperança escatológica. Como diz Paulo em 1 Cor 15,12-19, “a fé é nula e vazia” se não conduz a uma esperança assim. Este é um dos critérios que permitem a Paulo distinguir entre a verdadeira e a falsa fé carismática. As manifestações de Deus, que são descobertas pelos fiéis como revelatórias, devem ser também promessas da salvação escatológica, senão não podem ser verdadeiras revelações. “Se temos esperado em Cristo tão-somente para esta vida, somos os mais dignos de compaixão de todos os homens” (1 Cor 15,19).

Em suma, a fé de Paulo, como sistema de convicções, pode ser chamada de carismática e escatológica porque inclui as convicções que os fiéis descobrem no seu presente:

            1. Intervenções de Deus que são revelações da sua indentidade revelada escolhidos de Deus e como estando “na verdadeira relação com Deus”, e que também estabelecem para eles uma vocação específica definida, p. ex., pelos “dons’ recebidos pelos fiéis (cf. 1 Cor 12).

            2. Revelações que são promessas ou tipos para futuras manifestações de Deus e especialmente para as da parusia.

Tal sistema de convicções é, pois, intrinsecamente dinâmico, e implica um metassistema de convicções como sua base ou estrutura. Não é revelação completa e final. É promessa, e como tal aponta para além dela mesma, para outras revelações, as revelações escatológicas da parusia.

Do ponto de vista das explicações telógicas, esta fé pode também ser chamada de escatológica, mas por motivos diferentes. Para começar, a convicção de que Deus intervém na experiências presente dos fiéis é explicada por Paulo em função da evolução da história sagrada. Os fiéis vivem no último período foi inaugurado pela morte e ressurreição de Cristo, pelas quais o mundo foi reconciliado com Deus e deus pode intervir (e de fato intervém) nos assuntos da humanidade no presente, como os fiéis descobrem pela fé. Nesta perspectiva teológica, a fé de Paulo é escatológica, porque o presente já pertence ao período escatológico que culminará na parusia. Assim também, a convicções de que as presentes intervenções de Deus são promessas, prefigurações, ou mesmo manifestações preliminares do que será plenamente manifestado na parusia, é explicado teologicamente enfatizando a iminência da parusia. Mas, como qualquer explicação teológica, esta pode ser mudada para levar em conta situações concretas ou culturais. Assim, enquanto na primeira aos Tessalonicenses Paulo esperava que a parusia acontecesse num futuro tão próximo que a maioria dos seus leitores e ele próprio estariam vivos no momento dela, mais tarde (p. ex., ao escrever a primeira e a segunda aos Coríntios) já não tem esta expectativa, embora ainda pense que parusia chegará num futuro relativamente próximo.

Uma Fé Tipológica

Esta fé escatológica, carismática também precisa ser chamada de tipológica. As intervenções presentes de Deus e as revelações que elas implicam são verdadeiras e válidas somente à medida que podem  ser consideradas como realizações dos tipos que são as experiências dos fiéis das épocas passadas, de Cristo e das personagens bíblicas, e/ou como cumprimentos das promessas feitas anteriormente (especialmente as promessas verbais e as contidas na Escritura). A fé dos cristão é “nula e vazia” se não os levar a ver esta experiência como realização da morte e ressurreição de Cristo (cf. 1 Cor 15,12-19).

Com efeito, para Paulo estes tipos são as condições para a possibilidade da fé carismática. Para entendermos esta afirmação, precisamos primeiro notar que Paulo tem a convicção de que Deus age na presente experiência de todo ser humano. Esta convicção vem expressa repetidas vezes nas suas afirmações teológicas (ou, mais exatamente, é pressuposta por esta afirmações) sobre reconciliação e justificação (no sentido de reconciliação). “Deus em Cristo reconciliava o mundo consigo” (2 Cor 5,19). “Da obra de justiça de um só homem segui-se para todos os homens justificação que traz a vida” (Rm 5,18). Isto vale até dos pagãos que rejeitaram a Deus: “Porque o que se pode conhecer de Deus é manifesto entre eles, pois Deus lho revelou... Tendo conhecido a Deus, não o honraram como Deus nem lhe renderam graças” (Rm 1,19.21). Na experiência dos pagãos, existem revelações/manifestações de Deus. E, obviamente, isso vale também dos judeus. O fato lastimável de eles não terem fé (a fé carismática) não deve ser interpretado como se Deus os tivesse rejeitado. “De modo algum!” (Rm 11,1). Ao reconciliar o mundo consigo, Deus reconciliou também os judeus consigo. Mas o judeus (ou sua grande maioria) “estavam empedernidos”. Em suma, Paulo tem a convicção de que Deus está em ação e se revela na experiência de todos os seres humanos, inclusive na dos judeus.

Mas as manifestações de Deus no presente dos fiéis não são em si suficientes para provocar a fé. Essas manifestações de Deus não são tais que se imponham sobre todos os seres humanos, de modo que o única resposta possível fosse o reconhecimento atônito de que Deus está agindo no seu presente. Com outras palavras, as manifestações de Deus são “ambíguas”. A cruz é realmente uma intervenção de Deus (cf. 1 Cor 15,3-4). É um evento que pertence à experiência de muitos habitantes da Jerusalém daquela época. Mas a maioria deles não viu neste fato uma intervenção de Deus. Só se pode descobrir a cruz como intervenção de Deus nos assuntos humanos com o auxílio da escritura, isto é, com o auxílio dos tipos e promessas contidos na Escritura e realizados por ela. Assim também, com o auxílio da Escritura, as aparições de Jesus após sua morte não podem ser reconhecidas como aparições do Cristo ressuscitado e portanto como resultantes de uma intervenção de Deus. Podemos acrescentar que os fiéis não podem reconhecer Deus agindo na sua experiência sem o auxílio destes outros tipos, que são expressos na proclamação sobre Cristo e no testemunho de Paulo e dos outros fiéis que o precederam. A fé carismática, que reconhece novas manifestações revelatórias de Deus, não pode existir, enquanto a Escritura, o querigma sobre Cristo e o testemunho dos cristão anteriores não forem reconhecidos como tipos fidedignos. A confiança nas promessas contidas nas manifestações precedentes de Deus (os tipos) faz parte necessariamente da fé carismática de Paulo.

Ainda podemos ser mais explícitos e dizer que é a confiança ou a fé em Deus como tipo que pertence necessariamente à fé carismática de Paulo, pois é óbvio que, entre estes tipos, a morte me a ressurreição de Cristo têm lugar preeminente. Com efeito, pode-se dizer que, para Paulo, Cristo é o tipo normativo. A Escritura, por causa de sua associação com o “ministério da condenação”, é em si mesmo obscura, velada, sem esplendor, em comparação com a “glória que lhe é muito superior” (2 Cor 3,7-11). A Escritura e seus tipos estão velados “até hoje” para os judeus, mas por meio de Cristo, e só por meio dele, o véu que cobre a Escritura é retirado (cf. 2 Cor 3,14-16). Quando este véu que esconde a glória de Deus é retirado, os fiéis podem “contemplar a glória de Deus”, a saber, perceber diretamente a manifestação do Senhor. Então eles “estão sendo transfigurados na sua imagem”, tornam-se semelhantes a Cristo (cf. 2 Cor 3,18). Podemos, pois, dizer que os tipos da Escritura só se tornam disponíveis para os fiéis porque primeiro são realizados em Cristo. assim, também, Paulo e os fiéis precedentes são tipos para os posteriores só a medida que eles próprios são semelhantes a Cristo, na sua semelhança. A validade de todos os outros tipos depende, pois, da sua conformidade com Cristo, o tipo normativo.

Então, deste ponto de vista, qualquer manifestação de Deus é semelhante à de Cristo. Por conseguinte, a expressão teológica (histórico-sagrada) desta convicção pode afirmar que, antes de “assumir a condição de servo”, ele tinha “a condição divina” (Fl 2,6-7). Além disso, o que se diz na Escritura sobre o Senhor Deus pode ser tido como aplicável ao Senhor Cristo. Com outras palavras, as intervenções de Deus no tempo bíblico são semelhantes às de Cristo. De modo semelhante, a intervenção de Deus ou a manifestação do Espírito de Deus após a ressurreição de Cristo podem também ser chamadas de intervenção do Cristo ressuscitado, obedecendo à lógica da evolução da história sagrada. Já que Cristo ressuscitou e voltou a vida como Senhor, ele intervém na experiência dos fiéis e vai intervir no final dos tempos. Estas observações nos ajudam a entender por que Paulo tão facilmente atribui o mesmo papel a Deus, a seu Espírito e ao Cristo Senhor. Este é o mesmo fenômeno que discutimos várias vezes. Com base no sistema de convicções de Paulo, é possível falar de qualquer estágio da corrente tipológica em função dos outros, falar de cristão de origem judaica como se ele fosse cristão de origem pagã, de Abraão como se ele fosse Cristo, e assim por diante. Assim, muito embora Cristo exerça função predominante e realmente normativa na tipologia, ele permanece um tipo, uma promessa apontando para novas intervenções e revelações de Deus que são semelhantes às de Cristo. E assim a fé carismática que descobre estas novas revelações precisa incluir a confiança nas promessas contidas em Cristo, com outras palavras, a crença ou a fé em Cristo, no sentido de confiança nas promessas contidas em Cristo como tipo.

Ao discutir a situação dos judeus, Paulo enumera as condições da possibilidade da fé. Podemos agora entender o que afirma na carta aos Romanos:

“Mas como poderíamos invocar aquele em que não creram? E como poderiam crer naquele que não ouviram? E como poderiam ouvir sem pregador? ... Assim, a fé vem da pregação e a pregação é pela palavra de Cristo (Rm 10,14,17).

A fé, a fé carismática que permite aos fiéis invocar o Senhor, não pode existir enquanto não crerem em Cristo, isto é, confiarem que nele, e especialmente na sua morte e ressurreição, deus agia e que estes acontecimentos são promessas que Deus realiza na experiência deles. Sem esta confiança nas promessas de Deus em Cristo, os fiéis não podem descobrir o que Deus (ou Cristo ou o Espírito) está fazendo no presente. Mas para crerem em Cristo como tipo, precisam ouvir a respeito de Cristo, e portanto Cristo deve ser anunciado.

Porém, como vimos em vários textos, Paulo acha que a proclamação de sua própria experiência e da dos outros fiéis é igualmente necessária e eficaz para estabelecer a fé dos seus leitores (cf. nossa análise da primeira aos Tessalonicenses, Filipenses, primeira aos Coríntios 15 e também a de Gálatas). Qual então é a singularidade do tipo Jesus Cristo? Antes de colocar este problema temos de considerar outros aspectos do sistema de convicções de Paulo.

A Fé De Paulo Como Se Manifesta Em 1 Ts (4,13-18)

O ensinamento de Paulo sobre os que morreram (1 Ts 4,13-18) mais uma vez ostenta o princípio de organização que encontramos em 1,3-2,16. Aplica o princípio de organização das convicções a uma situação que até então não tinha sido integrada no sistema de convicção dos tessalonicenses (ou seu universo semântico). Como tal, esta passagem nos dá oportunidade de rever os resultados da nossa leitura dessa carta.

Os tessalonicenses estão na ignorância a respeito do destino dos cristãos que morreram. Isso quer dizer que Paulo deixou de dar-lhes instrução sobre o assunto. Mas o que precisamente eles não sabiam? Não é bem claro. Ignoravam tudo a respeito da ressurreição dos mortos? A afirmação de 1 Ts 4,13 parece implicar que estavam sem esperança com relação aos que tinham morrido. Entretanto os versículos seguintes não frisam a ressurreição como tal, mas antes que “Deus há de levar em sua companhia os que adormeceram”. (4,14b), isto é, que os mortos, depois de serem ressuscitados, participarão na parusia. Serão levados para o céu pelo Cristo, junto com os fiéis que estiverem vivos (4,17). Na parusia, os que estiverem vivos não precederão os que estiverem mortos (4,15). Será que os tessalonicenses já sabiam da ressurreição dos mortos e apenas não sabiam que os fiéis ressuscitados haveriam de participar dos eventos da parusia? Parece ser este o caso. “Não ter esperança” não é ser ignorante quanto a uma doutrina (aqui, a ressurreição dos mortos), mas ser incapaz de perceber as correspondências da experiência do homem (que inclui a morte) com, de um lado, a promessa (tipo) que é a experiência de Jesus e, de outro lado, com o cumprimento último na parusia. Paulo, portanto, lhes mostra o que é esperar.

Paulo baseia seu ensinamento a respeito de ressurreição na referência à morte e ressurreição de Jesus em 1 Ts 4,14. Como Jesus morreu, estes fiéis morreram. Como Jesus ressurgiu dos mortos e subiu para o céu para a mão direita de Deus, Deus levará os fiéis com ele para o céu. Isto pressupõe que ele também os fará ressurgir dos mortos (4,16). Por isso, a experiência dos fiéis defuntos na parusia corresponde às promessas contidas na experiência de Jesus e as cumpre. Todavia, esta correspondência e, portanto, também estas promessas não são válidas para todos, mas somente para os fiéis, os que morreram em Cristo (4,16) ou por Cristo (assim também é possível entender 4,14). Quaisquer que sejam seus outros sentidos, a expressão “mortos em Cristo” exprime que a morte dos fiéis corresponde à de Jesus. Uma vez estabelecida a correspondência entre este elemento da experiência dos fiéis e da de Jesus, fica também estabelecida a correspondência entre os outros elementos de suas respectivas experiências. Assim há esperança para os fiéis.

É este o modo como o princípio de organização das convicções da fé de Paulo é aplicado a novas situações e como ele o incorpora no seu sistema de convicções. Essas observações a respeito de 1 Ts 4,13-18 também salientam que o traço mais característico deste princípio de organização das convicções é o estabelecimento de correspondência entre várias experiências (ou situações). Ademais, essas experiências não são meras duplicações umas das outras: em cada uma há lago de novo. Cada uma inclui uma vocação e uma eleição específica (a de Jesus, a de Paulo, a dos tessalonicenses não são idênticas). Por conseguinte, nenhuma delas pode ser tida como revelação completa e final; antes, cada uma é a promessa ou tipo de novas revelações em novas situações. Só uma dessas experiências pode ser considerada como absoluta: a experiência da parusia (isto é, a experiência no final dos tempos). Mas mesmo que seja esperada para breve, esta experiência está ainda no futuro. No momento, só há revelações relativas, revelações que se aplicam a determinados fiéis em situações determinadas.

Conseqüentemente, o que estabelece determinados fiéis no justo relacionamento com Deus é o que acontece em sua própria experiência. Já que Paulo se dirige aos tessalonicenses , concentra sua atenção na experiência deles e na manifestação de Deus nesta e, portanto, também no seu ministério entre eles. As experiências de Jesus, de Paulo (e a das igrejas da Judéia) são secundárias para a fé dos tessalonicenses, embora tenham uma função importante na verificação da validade da experiência dos tessalonicenses. Esta não pode valer por si mesma, não é um absoluto; só é válida à medida que está relacionada com outras experiências, quer no passado, quer no futuro.

Para Paulo, o princípio de organização das convicções que caracteriza a fé dos cristãos está centrado na experiência deles (é aí que eles são estabelecidos no justo relacionamento com Deus). Mas ela tem uma tríplice dimensão, que Paulo exprime por meio dos três conceitos: “fé, amor e esperança” (1 Ts 1,3; 5,8). À luz de nossa leitura desta carta podemos propor as três seguintes hipóteses sobre o significado desses conceitos.

O conceito de “esperança” claramente exprime as relações entre a experiência dos fiéis e as experiências futuras, especialmente a experiência da parusia. Esperar é identificar eventos ou situações da sua própria experiência que são manifestações preliminares (tipos) do que será manifestado na experiência de outras pessoas (os macedônios [1 Ts 1,7]) no futuro próximo, como também, mais plenamente, no tempo da parusia. Na experiência de Paulo, os fiéis tessalonicenses são sua esperança, sua coroa, sua glória, isto é, manifestações preliminares do que será na parusia (2,19-20). A esperança, pois, implica identificar, na nossa experiência presente, as manifestações preliminares da parusia e esperar com confiança pelas últimas manifestações.

De modo semelhante, podemos dizer que o conceito paulino de “fé” (que não se deve confundir com a fé enquanto fenômeno que inclui convicções sobre o que Paulo chama de “fé”, “esperança” e “amor”) poderia exprimir as relações da experiência dos fiéis com experiências passadas (especialmente a de Jesus, mas também a de Paulo, a das igrejas da Judéia e a dos profetas). “Crer” é identificar, na própria experiência, eventos ou situações que são o cumprimento do que foi manifestado nas experiências (tipos) de Jesus, de Paulo, das igrejas da Judéia ou dos profetas. Por causa desta correspondência, Ter fé significa estar unido com Jesus ou com Paulo ou com as igrejas da Judéia ou com os profetas. Será que a expressão “em Cristo” é usada em parte para expressar que tal relação é reconhecida pelos fiéis? Eles estão “em Cristo” porque, na sua experiência, há eventos semelhantes ao se Cristo (crísticos).

Os elementos da experiência pessoal descobertos pela fé como cumprimento das promessas contidas nos tipos Jesus, Paulo e nos outros tipos são de fato os mesmos elementos descobertos pela esperança como sendo manifestações preliminares do que será no futuro e na parusia. Então, na experiência de Paulo, os tessalonicenses, pela sua conversão, são o cumprimento das promessas contidas na experiência de Jesus, e também manifestações prelimiares do que será a coroa e a glória de Paulo na parusia. Pela descoberta, através da fé e da esperança, das relações destes elementos da experiência pessoal com experiências passadas e futuras, o cristão é estabelecido no justo relacionamento com Deus. Com outras palavras, é considerando o que deus fez nas experiências dos outros (os macedônios) e fará na parusia, que o cristão é estabelecido no justo relacionamento com Deus. Pela fé (e pela esperança), o cristão é estabelecido com Deus, isto é, descobre que é escolhido por Deus, eleito por Deus. Com outras palavras, só quando leva em conta como Deus agiu, está agindo e vai agir na experiência de outras pessoas, é que o cristão pode estar no justo relacionamento com Deus. Isto não acontece quando a atenção de alguém está voltada exclusivamente para o seu relacionamento pessoal com Deus e para o que Deus faz em sua vida.

O conceito paulino de “amor” poderia então exprimir como este princípio de organização (do justo relacionamento com Deus estabelecido através da fé e da esperança) é aplicado em todas as situações de sua própria experiência. Não deve estranhar que a aplicação do princípio de organização da fé e da esperança à experiência dos fiéis defina esta experiência como um tipo específico de relacionamento com outras pessoas, o amor, pois fica claro pela nossa leitura da primeira aos Tessalonicenses que a experiência de um cristão não é experiência privada. Estamos longe da concepção da experiência religiosa (comum em nossa cultura), segundo a qual o fiel entra em relação com o divino por si mesmo, mediante um encontro individual, interior [místico] com o divino. Para Paulo, a experiência (religiosa) do fiel inclui outras pessoas. Sem sequer falarmos da relação mútua dos tessalonicenses, notamos que, pelo menos, Paulo pertencia à experiência dos tessalonicenses. E Paulo é uma parte essencial da experiência religiosa dos tessalonicenses. Onde descobriram eles manifestações de Deus? Primeiro em Paulo, no qual Deus manifestava seu poder. Com efeito, a conversão deles implicou a descoberta de Deus no ministério de Paulo. A fé não é simplesmente acreditar que Deus interveio no passado e intervirá no futuro em outras pessoas; é também a descoberta de que Deus se manifesta em mais alguém que pertence à nossa experiência atual. Os tessalonicenses descobriram primeiro Deus em ação em Paulo, e isto foi para eles uma eleição (1 Ts 1,4-5). Só depois experimentaram a intervenção de Deus em sua vida particular (p. ex., a intervenção do Espírito Santo [1,6]). Como consequência desta fé, os fiéis não podem deixar de ver a si próprios num especial relacionamento com aquele(s) no qual (nos quais) descobrem Deus em ação. Assim os tessalonicense “amam” Paulo (3,6), mas agora Paulo os exorta a amar-se mutuamente como já fazem (4,9-10) e também a Ter “a mais alta estima em amor” para com aqueles que se afadigam no meio deles e lhes são superiores no Senhor (5,12-13). A pergunta inevitável é: seria possível, segundo o sistema de convicções de Paulo, os tessalonicenses estarem na mesma relação uns com os outros como estão com Paulo? Com outras palavras, poderia acontecer, pela fé, que eles também descobrissem Deus em ação nos seus irmão? O amor poderia ser identificado com esta atitude que alguém tem para com pessoas nas quais descobre Deus? O nosso estudo das outras cartas paulinas confirmará que assim é de fato, apesar do fato surpreendente de que Paulo parece exigir que os tessalonicenses amem os infiéis (3,12; 5,15).

 

Enfim, eis uma última observação hipotética a respeito do amor: o amor enquanto imitação dos que precederam os fiéis na fé. Pela esperança e pela fé, os fiéis são “imitadores” dos que os precederam (os profetas, Jesus, as igrejas da Judéia, Paulo) e “tipos” dos que os seguirão (os fiéis da Macedônia, os do final dos tempos), porque o que acontece com eles é o mesmo que aconteceu ou acontecerá com os que os precederam ou os seguirão. Todavia, pelo amor os fiéis são “imitadores” dos que os precederam e cujo exemplo seguem. Como eles o fizeram, os fiéis implementam sua fé na vida diária. Acolhem a palavra (1 Ts 1,6), se convertem dos ídolos a Deus, para servirem a Deus (1,9) e se amam uns aos outros e a todos (3,12).

I Coríntios

Fé E Conhecimento

Paulo proclamava a salvação pela fé em Jesus Cristo crucificado e ressuscitado. Ao contrário, os coríntios sob o influxo dos adversários de Paulo proclamavam uma sabedoria ( 1 Cor 1,18-2,13). Pretendiam possuir “conhecimento” (cf., p. ex., 1 Cor 8,1-3). Encontramos aqui outro equívoco, bem frequente, quanto à doutrina de Paulo. Fé não significa acreditar em determinado ensinamento, numa doutrina? Não é o evangelho um conjunto de conhecimentos religiosos do qual o homem se apropria para ser salvo? O homem não é justificado pela fé em doutrinas específicas sobre Cristo (p. ex., que Jesus foi punido por Deus em nosso lugar) e revelados por Cristo e seu Espírito? Parece que era isto que os coríntios pensavam. Contra eles escreve Paulo:

A caridade jamais passará. Quanto às profecias, desaparecerão. Quanto às línguas, cessarão. Quanto à ciência, também desaparecerá. Pois o nosso conhecimento é limitado, e limitada é a nossa profecia. Mas, quando vier a perfeição, o que é limitado desaparecerá. Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Depois que me tornei homem, fiz desaparecer o que era próprio da criança. Agora vemos em espelho e de maneira confusa, mas depois veremos face a face. Agora o meu conhecimento é limitado, mas depois conhecerei como sou conhecido. Agora, portanto, permanecem fé, esperança, caridade, esta três coisas. A maior delas, porém, é a caridade (1 Cor 13,8-13).

Note-se, antes de tudo, que Paulo frisa que a fé, a esperança e a caridade são eternas, ao contrário do “conhecimento”, que é parcial, imperfeito e que vai passar. A fé e o conhecimento não pertencem à mesma categoria. A fé não é conhecimento. Não é o conhecimento de doutrinas específicas ou mesmo de revelações específicas recebidas por meio de Espírito na profecia ou em outras experiências extáticas. Paulo não nega a importância do conhecimento, da revelação e das profecias, mas para ele essas coisas não são absolutas. A seu ver, qualquer sistema de convicções é meramente provisório. É a promessa de novas revelações.

Os coríntios, ao contrário, consideram como algo absoluto esse conhecimento revelado (cf., 1 Cor 8,1-2). Podemos dizer que, na opinião deles, o homem é justificado pelo conhecimento, mediante o “crer em” (no sentido de manter-se fiel a) certas revelações específicas. Que revelações são estas? Revelações recebidas pelo Espírito, mas também o evangelho de Jesus Cristo. Paulo aceita como válidos a maior parte deste conhecimento e destas revelações que os coríntios possuíam, mas na sua opinião isto não pode ser tido como algo absoluto, pois três coisas demonstram suas limitações: a fé, que exige que isto seja considerado como promessas realizadas na experiência presente dos fiéis; a esperança, que exige que estas revelações e a experiência dos fiéis sejam vistas como promessas da revelação e da salvação completas no final dos tempos; e o amor, que exige que os outros crentes que têm sua própria fé e seu próprio conhecimento sejam respeitados e honrados.

Assim, pelo evangelho sabemos que os ídolos não têm existência real ( 1 Cor 8,4) , que são apenas manifestações do poder do mal. Estamos livres do poder deles. Por isso, por que não comer carne sacrificada aos ídolos? É isto que alguns coríntios estão fazendo.

Eles também consideram a liberdade do evangelho como algo absoluto, como uma liberdade sem limitações. Já que “tudo é permitido” (1 Cor 6,2; 10,2-3), estavam ostensivamente envolvidos em vários tipos de imoralidade (cf. p. es., 1 Cor 5 e 6; 2 Cor 12,21). Paulo pregava esse tipo de conhecimento e essa liberdade. Em certo sentido, também para eles são “absolutos”, porque vêm de Deus. Mas não são transformados num sistema fechado de convicções, são promessas; abrem-se para novas perspectivas. Esse conhecimento e essa liberdade são para ele a liberdade para amar e para se oferecer como sacrifício vivo.

Paulo, portanto, tem de enfrentar dois problemas inter-relacionados. Por um lado, há em Corinto mal-entendidos quanto à natureza da fé cristã e às características do ministério cristão. Progressivamente, esses mal-entendidos vão se tornar a principal preocupação de Paulo na sua correspondência com os coríntios. As cartas nos oferecem rara oportunidade de examinar como Paulo procede para corrigir esses mal-entendidos. Por outro lado, há em Corinto sérios problemas referentes à vida de comunidade. Paulo os aborda sobretudo na segunda parte da primeira aos Coríntios, após os caps. 1-4, que, como ele espera, resolvem os principais mal-entendido quanto à natureza da fé cristã (embora os capítulos não tenham conseguido esse objetivo, como percebemos pelo resto da correspondência). Assim, 1 Cor 5, 14 nos fornece uma série de exemplos concretos, mostrando como a fé de Paulo é implementada na vida diária de uma comunidade.

Paulo E Os Gálatas

Autoridade Apostólica (1,11-2,21)

Paulo coloca o suporte de seu evangelho na revelação e em sua conversão (1,11-24). Logo após sua conversão, com Barnabé, seu primeiro tutor dentro da Igreja e companheiro na comunidade dos discípulos, e Tito, logo depois, ele conheceu as “colunas” do Evangelho ─ João, Pedro e Tiago. Tito, de origem pagã, não teve a obrigação de circuncisão.

A Justificação Pela Fé

Este conceito precisa ficar muito claro. Alguns judaizantes, inseridos nas comunidades dos cristãos, exigem que os pagãos passassem pelos ritos judaicos antes de serem admitidos ao cristianismo. Paulo rejeita estas exigências, afirmando que eles foram justificados pela fé, em Jesus Cristo, e não na Lei de Moisés e seus ritos. É a questão da discussão de Pedro e Paulo no primeiro Concílio de Jerusalém. Paulo afirma que a fé é suficiente para que um pagão seja admitido à comunidade, este é o único pré-requisito (veja a mesma temática em Rm 1,16s).

 

A Lei E A Fé (3,1-4,11)

A Fé: Nesta secção Paulo faz um apelo aos gálatas para que eles façam a própria experiência (3,1-5). Eles mesmos são convidados a fazer e renovar a fé abraâmica (Gn 15,6). Se a justificação viesse pela Lei, a vida de Jesus teria sido inútil. Renovar a vida nas promessas (Dt 27,26) é uma forma de encontrar a bênção em Jesus Cristo. Neste caso, também o argumento jurídico da lei pode ajudar (3,15-18).

A Lei: Esta desempenhada, para o Apóstolo, um papel pedagógico imprescindível (4,1-2). A criança é “conduzida” pelo pedagogo e outra fase em que ele precisa libertar-se dele. Esta é a finalidade da Lei. Quem não descobriu a graça do Espírito, precisa fazer o uso da lei, mas quando chega a graça da Lei pode ser dispensada. “Maldito o que não cumprir tudo o que está escrito no livro da Lei” (3,10; cf. Dt 27,26).

O Espírito: É no Espírito que o “crente” independente de sua origem, é acolhido por Deus como seu filho (4,1-11). É no Espírito que alguém pode conhecer a Deus e chamá-Lo de “ABBA” (4,6).

Na conclusão do Apóstolo, a Lei, a Fé e o Espírito são elementos que vão juntos. Para os que não chegaram à maturidade da fé, faz-se ainda necessário o pedagogo (3,23-29). Para quem já assumiu a fé, basta continuar para que o Espírito possa atuar, assim como atuou em Abraão. O justo vive pela fé, porque esta se torna a chave de leitura da História, para ele. Tudo se move sob o horizonte da fé, daí a sua Justificação.

Da Liberdade Cristã À Lei De Cristo (5,13-6,10)

A liberdade do cristão consiste em amar o seu próximo (5,13-25). O cristão deve estar na escuta do Espírito e assumir uma prática da obediência que produza frutos. Da Lei da carne passa, o cristão, a assumir a Lei de Cristo, que é outra forma de ver e assumir as promessas do A.T. Assim Paulo deixa claro que a fé não é um ponto de chegada, mas um pré-requisito para começar como cristão. O objetivo da fé é modificar a vida, como Abraão modificou a própria. “Sola fides” não conduz a nada.

Paulo parece não ditar esta carta, mas escrevê-la de próprio punho (6,11). E, nas palavras do Apóstolo, esta carta não parece Ter sido das primeiras, mas das últimas, pois ele expressa cansaço e longa labuta que o coloca com desejo do fim: “Doravante ninguém mais me moleste, pois eu trago em meu corpo as marcas de Jesus” (6,17).

Paulo E Os Romanos

Alguns temas da carta aos Romanos

Parte dogmática de Rm (1,16-11,36)

O tema central de toda a primeira parte pode ser tomado como a fé que movimenta três outros passos:

A cólera ─ Pela fé de Deus, no A.T., se manifesta aos judeus que, como homens religiosos, não adoram e não glorificam a Deus em Jesus Cristo, e os não-judeus, quando estes não assumem o plano de salvação.

A justiça ─ Partindo de Abraão, como modelo do homem crente, Paulo faz a mesma analogia com aquele que acredita (pisteountês), em Cristo. Este será salvo (3,21), pois Deus se manifestará justo.

A esperança ─ Cristo, pela fé, substitui o regime da Lei pelo Espírito (5,1-8,39). Pela fé temos acesso à graça, superando a escravidão da Lei e a morte, em Adão. Nada vem por hereditariedade (como afirmavam os judeus, tudo através de Abraão). Cada um vai receber a graça na medida em que abraçar o novo, pela fé comprometida no evangelho de Jesus Cristo.

Espírito humano → carne → pecado → Lei → morte → Adão

Espírito Santo → espírito → justificação → vida → Jesus Cristo

A passagem para o regime do Espírito faz ir além da Lei, não porque esta não seja mais útil, mas ela é relativizada em Cristo (mt 7,21). A questão fundamental para Paulo é que o cristão não deve preocupar-se com a observância do rito da Lei, mas deixar o espírito da graça atuar, de forma a não precisar mais dela.

A recusa de Israel ao Messias não obstrui o plano de Deus de uma salvação universal (9,1-11,36). Aqueles que haviam sido designados, como privilegiados da revelação serão preteridos aso pagãos que recebem as abundâncias das graças. Aos judeus é inescusável a renúncia, e Deus vai agir com justiça, dado que eles conhecem as escrituras, eles que foram um tronco no qual as nações foram enxertadas.

Parte Parenética

Nesta secção há uma idéia fundamental: “O fiel, buscando realizar a vontade de Deus, vive a liberdade cristão (“dochimazein” = descobrir) e sua vida torna-se, assim, um sacrifício vivo e uma oferta santa para a glória de Deus (12,1-2).

Paulo acrescenta algumas normas para a vida da comunidade (12,3-21), aprofundando a teoria do Edifício, que tem Deus por construtor. Este Edifício se estrutura em Cristo, e quem d’Ele participa, com seus próprios dons e carismas, isso significa dizer que cada cristão vai complementar, de modo próprio e diferente, a construção, o corpo da Igreja.

Quanto à lei civil, o apóstolo adverte que ela só serve de parâmetros legal se tiver suporte nas normas da consciência e da moral. Uns para com os outros devem usar, acima de tudo, a caridade fraterna.

A Justiça De Deus

A justiça de Deus não tem para Paulo uma conotação forense (jurídica), mas profética. É uma justiça triunfante que permite ser o leitmotiv da salvação. É a cólera com o ímpio que se reverte em misericórdia e graça ao crente. Esta só pode acontecer quando a conversão produzir seus frutos (6,15-23; 8,9-13); 12,1-15,13).

A Fé

O tema mais forte da carta, a fé, pode ser resumido em quatro passagens: 1,1-7; 1,16ss; 3,21-23; 12,1-15,13). É através da fé engajada na história, como fez Abraão, que o homem é capaz de mudar a justiça forense de Deus em misericórdia, alcançando o estágio de filho de Deus (8,14ss.). a paciência de Deus (2,4;3,25) dá, através da fé e da prática do amor, este privilégio ao homem: ser Seu Filho. É o projeto concreto da mudança da vida, uma proposta abraâmica de vida em defesa da vida (Jo 8,31-57) que possibilita ao cristão assumir a justificação pela fé.

A Lei E O Espírito

Antes havia a lei. Agora há uma nova lei com o Espírito. A lei, por si mesma, nada faz, mas a nova lei no Espírito produz os frutos da vida Nova (8,1-27). O Espírito muda as relações, e os fiéis passam a pertencer à família de Deus, podendo chamá-Lo de “Abba” (Pai, 8,14).

Essa teologia de Paulo aos Romanos, na parte parenética, particularmente, evidencia o percurso que ele quer fazer para mostrar que houve uma superação de Novo pelo Antigo; da Nova Lei sobre a Antiga; e de uma escuridão de morte de Adão, passa-se à vida nova em Cristo (5,12;8,28). Poderíamos também dizer que a escatologia de Rm é a melhor experiência de um Deus que está perto e se deixa chamar de Pai. A sinagoga garantia a presença à raça através da lei, mesmo para quem não acreditasse. A ekklesiologia da fé não se impõe; ela precisa de uma adesão livre e consciente. Assim a vida de comunidade nasce da liberdade de cada um assumindo um projeto de família.

Unida a esta eclesiologia encontramos uma cristologia de caráter universal e cósmico, onde todos podem encontrar lugar, pelo caminho da fé e dos frutos desta fé.

Cristo revela o Pai;

Substitui o antigo regime pela nova Lei;

Traz a libertação e a redenção,

Doa um batismo que lava do pecado e purifica o ser.

Cristo nos dá a conhecer o Pai. Mudando o regime, muda-se a lei. Do antigo regime da lei judaica passa-se a uma vida, segundo o Espírito, de compromisso comunitário.

Conclusão

O pensamento de Paulo era em boa parte judaico, e a sua obra como apóstolo dos gentios deve ser entendia dentro da estrutura da especulação escatológica judaica, como demonstra Rm 15,16. Porém Paulo interpretou sua tarefa de introduzir os gentios no povo de Deus de tal modo que a igreja, tanto na sua compreensão como na sua prática, tornou-se com efeito terceira entidade ─ embora pareça que ele não tenha percebido que o seu evangelho e a sua atividade missionária implicavam uma ruptura é claramente perceptível. Um é a doutrina judaica tradicional da eleição, que Paulo nega. Ele apela, sem dúvida, para a aliança de Deus com Abraão, e, assim, a sua linguagem é com frequência adequada para entender a igreja como “o verdadeiro Israel”. Mas o seu argumento de que a aliança “salta” de Abraão para Cristo, e então inclui os que estão em Cristo, mas não os judeus por descendência, é, de fato, decidida recusa da eleição de Israel. O segundo ponto no qual a ruptura é especialmente clara é a sua insistência em que é pela fé em Cristo, não pela aceitação da lei, que se entra para o povo de Deus. Com isso, ele nega duas bases comuns a todas as formas de judaísmo: a eleição de Israel e a fidelidade à lei mosaica.

Embora seja possível ver que Paulo, quando reflete sobre a pertença ao povo de Deus, sempre insiste na igualdade entre judeus e gentios e na fé em Cristo somente, e assim concluir que são essas as duas convicções inter-relacionadas que estão imediatamente subjacentes à sua negação da justificação pela lei, há um sentido real no qual não podemos explicar em pormenor por que Paulo chegou a tal posição. Ele apela para a revelação. Deus revelou seu Filho a ele (ou nele), e como resultado ele sabia que era pela fé em Cristo que Deus tencionava salvar o mundo. Estava convicto de que tal fora sempre a intenção de Deus, o qual dissera claramente de antemão (p.ex., Gl 3,8). Nunca foi intenção de Deus fazer da lei a condição da vida (Gl 3,21). Se a aceitação da lei fosse a condição de salvação, Cristo teria morrido em vão (Gl 2,21). Foi a experiência da ressurreição que convenceu Paulo de que Cristo não morrera em vão, e por isso é esta experiência a fonte da negação por Paulo da justificação pela lei, enquanto possamos sabê-lo.

 

Negando o privilégio dos judeus como os eleitos de Deus, Paulo teoricamente torna universal a igreja; é o plano de Deus ter misericórdia de todos. Mas a fé em Cristo é necessária para pertencer ao povo de Deus. Além disso, os membros do corpo de Cristo devem comportar-se de modo adequado. Os pecados graves, sem arrependimento, podem levar à expulsão (embora não à condenação), e certos comportamentos que renegam Cristo, tais como a adoração de ídolos como se fossem deuses reais ou a aceitação de outras exigências além da fé como essenciais para pertencer à comunidade, acarretam o desligamento. Assim, Cristo é não só o centro da “nova criação” mas também define seus parâmetros.

 

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